Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


domingo, 24 de fevereiro de 2019

Roteiro para a destruição de um país

As tensões crescentes na Venezuela e a recente negativa do presidente Nicolás Maduro à oferta de "ajuda humanitária" estão sendo usadas como artifício para jogar o conjunto da opinião pública mundial contra o líder venezuelano. Mas o roteiro aqui executado já é conhecido. Foi o mesmo de diversos outros país e não tem qualquer preocupação de caráter humanitário. Os exemplos semelhantes são muitos, mas aqui vamos recordar toda a "tensão" que levou a Líbia, da condição de melhor lugar para se viver na África até o fundo do poço em que hoje se encontra...

Segue:

1. Tudo começa com sanções econômicas, porque a parada é POLÍTICA



2. Como as sanções não derrubam o líder líbio, aí apelam pra fofura da ajuda HUMANITÁRIA, pra ficar bem na foto




3. Depois que o papinho humanitário enrolou todas as pessoas de boa vontade, aí os EUA podem mudar o tom e já partir pra agressividade - é claro, usando sempre algum pretexto, no caso a """guerra contra o terror"""



4. Depois de todo o lenga lenga anterior, chega a parte que os americanos mais gostam: gente morta, cidades bombardeadas, economias destruídas... eles parecem gozar com o extermínio alheio.



5. Depois de destruir o país, eles finalmente conseguem CAPTURAR E MATAR o líder Kaddafi, que levou prosperidade ao povo líbio com a Revolução Verde... mas a sua morte não trouxe melhorias ao país, que foi completamente destruído



6. Anos após o fim da guerra, a Líbia não só não se recuperou como chegou AO FUNDO DO POÇO DA EXISTÊNCIA HUMANA, que é o retorno do TRÁFICO DE ESCRAVOS, aos olhos do mundo inteiro... mas isso parece não chocar mais ninguém



7. O resultado final é a ANIQUILAÇÃO do outrora país mais rico e desenvolvido da África, transformado agora numa grande tribo onde leilões de escravos acontecem à luz do dia 




*   *   *
Tal como na Líbia, ocorre agora na Venezuela. Caricaturizam um processo popular revolucionário (lá a Revolução Verde; cá a Revolução Bolivariana), demonizam o seu líder (lá o Kaddafi; cá o Maduro) e o resto é só colher os frutos monetários depois que o mundo inteiro já está devidamente dopado de bom-samaritanismo, crendo que estão levando liberdade a quem não pediu...





quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Meras inconveniências?

É curioso como os índices econômicos praticamente sumiram dos noticiários nesses meses de governo biônico. Em 2015, todo dia tínhamos novidades (negativas) sobre desemprego, inflação, PIB, queda de receita, retração econômica de diversos setores, etc. Quando não havia novos dados, requentavam os velhos. Agora, isso mudou. Eventualmente, quando o IBGE publica alguns de seus balanços, eles aparecem nos jornais para logo sumir. Muitas vezes, desemprego e PIB negativo são apresentados como meras inconveniências com as quais se deparam as pessoas que estão no mercado de trabalho.
A consequência disso é que não se tem mais noção de continuidade nem, muito menos, de como é feita a ligação entre os referidos índices e as decisões políticas do governo. Com Dilma, cada decisão já tinha seu reflexo imediato no "comportamento do mercado" e em outras variáveis de interpretação questionável, de modo que, antes de ela assinar a papelada, já sofria os revezes da decisão. Sobre Temer, mesmo tendo acabado com a Controladoria Geral da República no primeiro dia de mandatário, tendo mudado o regime fiscal e estar pondo em curso o desfiguramento da Previdência, ainda tem quem diga que "não dá para analisar seu governo em tão pouco tempo". Pior: a discussão da PEC 55 criou o bizarro fenômeno dos defensores "que entendem de orçamento e gestão" - mas que não se amparam em nenhum dado técnico para defender seus propósitos - e dos críticos "que não entendem nada" dos mesmos tópicos. A resposta ideológica a qualquer questionamento do governo - usada sempre para defendê-lo ou, no mínimo, isentá-lo - se tornou muito mais solidificada do que a do mais fanático petista nos prósperos anos Lula.
Aos poucos, no entanto, os nocivos resultados econômicos de Temer começam a ser pincelados. Ao mesmo tempo, também são pincelados escândalos de corrupção que, no conjunto, favorecem a desestabilização do governo, de modo que, nos altos escalões, já se fala abertamente na sua destituição. É interessante observar uma emblemática distinção entre os meses que antecederam a derrubada de Dilma e os que parecem prenunciar a de Temer: há exatamente um ano, Dilma colocava Nelson Barbosa no comando da economia, tentando remendar os equívocos de um ajuste fiscal sem critério que a levaram a uma imensa perda de popularidade. Porém, já era tarde: a presidente já não conseguiria aprovar nada a partir dali. Nenhuma das 14 medidas enviadas pelo ministro foi aprovada no Congresso. Ela foi boicotada também por todos os demais aparatos do Estado, que, no final das contas, não se encontravam sob seu comando, aparelhados que estavam desde os nada republicanos anos 90 (aparelhamento que o PT não pôs em questão em nenhum momento); Temer, cujo comando dos tais aparatos é ainda mais frágil, consegue, por outro lado, aprovar tudo o que quer. Muda a Constituição - se é que ainda temos Constituição - com a facilidade de quem pisca os olhos. Tem a maior base congressual de todos os tempos. Suas vitórias folgadas no Parlamento lembram a dos nossos velhos ditadores - não por acaso.
Mesmo com tudo isso, essa base de Temer deve se diluir sem muitos traumas quando chegar a sua vez de deixar o Palácio. Temer, é importante saber, não é um neoliberal orgânico. E o PMDB, embora seja tão demonizado, também não é o que pintam; os que se esforçam para condená-lo parecem estar apenas procurando um alvo para canalizar sua revolta, sem se dar conta de que esse alvo tem pés de barro.
Como todos os golpes já empreendidos na História, este também confirma que ele não se encerra em um ato. Um golpe, afinal, é sempre demonstrado pelo que vem depois: realinhamentos, traições, velhos personagens sendo jogados para escanteio ao sabor das circunstâncias. O problema é que nunca se sabe quando ele vai terminar.




domingo, 27 de novembro de 2016

Por menos ressalvas

As muitas ressalvas feitas por personalidades de esquerda acerca da partida de Fidel demonstra toda a dificuldade desse segmento de construir qualquer projeto autônomo. Não perceberam ainda um preceito básico: que "ditadura" e "democracia" é um termo que sempre foi usado ao sabor dos interesses dos EUA. Não entendem ainda que reconhecer que Fidel foi um herói não significa idolatrá-lo, mas deixar claro que nós, os resistentes latino-americanos, temos nossos referenciais, assim como eles têm os deles. 
Cada vez que manifestamos um "pé atrás", estamos dizendo para os que por séculos usurparam o continente: "vocês estão certos, nossos heróis não são tão heróis assim". No entanto, nenhum dos heróis deles precisa responder por todas as cabeças decapitadas, todas as guerras civis e mundiais, todas as bombas nucleares, de napalm e de fósforo, todos os campos de concentração de portadores de hanseníase, todos os negros traficados durante séculos, todas as intervenções da OTAN perpetradas por democracias incontestes. Nada disso tem nome. Nenhuma matéria sobre Cuba diz que lá os índios foram exterminados muito antes de Fidel chegar. Por quem? Não há resposta. Ninguém diz que Cuba foi um dos últimos países a abolir a escravidão (só o Brasil veio depois). É assim que as coisas são. Do lado de lá, o genocídio não tem autoria.
Assim, envergonhados ficamos de cada resposta que esses genocidas receberam de nosso povo. A pretexto de fazer uma leitura "concreta", esvaziamos de conteúdo todo o simbolismo que nossos combates e nossos heróis representam, num comportamento dúbio, recheado de pudores e de falsa neutralidade, que no final das contas é um recado claro ao império de que eles não precisam se preocupar, porque nenhuma política de libertação que por ventura venha a ferir os seus interesses será tocada adiante.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Novos parâmetros oficiais

Semanas atrás, pesquisadores do IPEA publicaram uma nota técnica apontando os prejuízos decorrentes da PEC 241 no campo da saúde. A imprensa, convencionalmente, anunciou a pesquisa como tendo sido feita pelo IPEA enquanto órgão. A resposta, no entanto, não foi nada convencional: a direção se apressou em descredenciá-los, com o próprio presidente fazendo estardalhaço para "esclarecer" que o estudo não reflete a posição da instituição. A pressão foi tamanha que uma das autoras precisou pedir exoneração do órgão.
Situação semelhante aconteceu poucos dias depois, dessa vez com um pesquisador da Fundação Getúlio Vargas.
Ontem, a imprensa divulgou matéria intitulada "IPEA diz que país não precisa gastar mais para melhorar a educação". Na verdade, não foi o IPEA quem disse; como no primeiro caso, a sentença é fundamentada numa nota técnica publicada por pesquisadores do órgão. Mas aposto com quem quiser que dessa vez não haverá resposta alguma do Instituto. Ninguém aparecerá para dizer que a nota técnica não representa o pensamento do IPEA. O governo não pressionará nenhum dirigente para se manifestar. Além disso, nenhum imparcial analista de Facebook chamará de "blog sujo" o Valor Econômico por ter apresentado um trabalho privado como sendo um parecer institucional.
Definitivamente, foi oficializada nos ambientes palacianos a política de dois pesos e duas medidas. E assim seguimos...



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Pode tudo em matéria de humanas?

Em momentos como o atual, em que as ciências humanas são reduzidas a conhecimento de peso menor e se faz urgente defender disciplinas como sociologia e filosofia como necessárias à formação do cidadão, acho curioso que mesmo pessoas dessas áreas alimentem esse estigma, ao se oferecer em "correntes solidárias" nas redes sociais para ajudar alunos que se preparam pro ENEM. São estudantes de Sociologia se oferecendo pra ensinar Geografia, estudantes de Geografia se oferecendo pra ensinar História, estudantes de História se oferecendo para ensinar Filosofia... alguns vão além: se oferecem pra ensinar tudo "em matéria de humanas". Mas tem mesmo rigor em uma ciência alguém que tem formação em outra? O fato de haver conteúdos e leituras afins justifica ultrapassar os limites de seu campo, e fazer propaganda disso? Que precisão terá na abordagem em Filosofia alguém que está se formando em Sociologia e vice-versa?
Suspeito que o que a maioria das pessoas entende de Geografia equivale a regra de três e fórmulas geométricas na Matemática, ou seja, o suficiente para quebrar o galho e ganhar umas questões - mas ninguém sai se oferecendo para ensinar Matemática pro Enem, por que será? Matemática, Física, Química, isso aí são objetos de cursos isolados. Geografia, Sociologia, Português, História, são "conhecimento geral", quase "senso comum", que qualquer pessoa que assiste a documentários na National Geographic pode ensinar.
Não quero com isso desmerecer a importância de campanhas solidárias nem dizer que é proibido a pessoas oferecer dicas ou mesmo dar aulas particulares em áreas que são de seu interesse e onde você demonstre algum domínio. Eu faria e faço o mesmo. No entanto, considero pouco educativo - e, pro contexto de uma luta séria que estamos travando, também contraproducente - nós nos assumirmos como detentores das condições de oferecer isso para pessoas que já devem carregar consigo uma formação precária, apenas baseados nas impressões que temos de que portamos quilate suficiente para ensiná-lo.
Me lembra muito o Amigos da Escola, projeto da Globo adotado por FHC, que incentivava pessoas que "gostassem" de esportes, artes, literatura e qualquer coisa assim a irem lá "ajudar" os alunos nas escolas voluntariamente, com um monte de gente formada nessas áreas estando por aí a ver navios...




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um mal-estar que persiste

Uma das mais emblemáticas obras de Freud é, sem dúvida, O Mal-Estar na Civilização. Publicado em 1930, quando a psicanálise já era   uma corrente de pensamento constituída, com seguidores no mundo inteiro, ela veio dar novo impulso não somente ao que Freud entendia como o ser humano, mas também a toda a sua própria visão de civilização. Cabe lembrar, e essa é uma observação que Freud insistia em fazer, que, para ele, cultura e civilização eram a mesma coisa. A civilização (e, portanto, a cultura), afinal, gera um mal-estar   nos seres humanos, uma vez que ela se coloca numa posição de incompatibilidade com as exigências da pulsão. Essa incompatibilidade faz com que todo indivíduo se torne um inimigo da cultura, porque entre essas exigências da pulsão encontram-se tendências antissociais e destrutivas. Daí ele se encontra no lado oposto ao da comunidade.
Esse mal-estar não tarda a se apresentar ao indivíduo. Ainda no início da infância o impasse está dado, quando o bebê lactante, que não separa ainda o eu de todo o mundo externo — o seio materno, por exemplo, é entendido como uma extensão de seu corpo, que, quando por ventura se encontra ausente, é reclamado pelo choro e pelo grito —, em algum momento se verá usurpado daquele objeto que lhe oferece prazer.
O bebê é, então, nesse momento, orientado pelo princípio do prazer. Ele chora para receber aquilo que o aprazera. Mas quando chora, ele manifesta um mal-estar típico, que advém do fato de que, ao invés de buscar para si o prazer desejado, ele se vê, na verdade, fazendo um esforço para fugir do desprazer. Assim, seu choro é uma reação a dor, na tentativa de saná-la. Isso persistirá no correr de sua vida social. Felicidade, no contexto da civilização, não é obter mais prazer; em sentido contrário, é obter menos desprazer. É impossível, afinal, ver-se atendido nos anseios de prazer numa civilização que se coloca no sentido oposto à concessão de tais anseios.
Isso não decorre, no entanto, de uma atitude arbitrária da civilização. Trata-se de um mecanismo de autopreservação. Sem reprimir suas pulsões, a sociedade ruiria. Freud destaca, em certo  momento, que não somos instintivamente adeptos do trabalho. Trabalhamos a partir   da canalização de nossos impulsos sexuais nessa direção. Ele questiona, por exemplo, as perspectivas dos comunistas que acreditam que é possível, num contexto de socialização da propriedade, uma convivência pacífica e frutífera dos homens. Não se atendo aos dados econômicos relacionados a essa hipótese, ele lembra que não importa o modo de produção que se estabeleça, alguns elementos são essenciais do ser humano, como a sua agressividade, que não tem raiz na criação do instituto da propriedade, sendo, portanto, muito mais antiga; parte constituinte da humanidade.
Dados, portanto, os riscos existentes para a civilização na hipótese da liberação da vida sexual e da agressividade, resta ao  indivíduo   sacrificar-se, pagando o preço que consiste em renunciar a essas satisfações pulsionais. Quando a agressividade não tem condições de   ser externalizada, ela se introjeta no corpo, voltando-se contra o próprio ego; decorre daí a existência do superego, onde se sustentam, por exemplo, os sentimentos de culpa — que se torna praticamente parte indissociável da civilização.
Freud encerra, então, recapitulando diversos pontos do que abordou no correr do texto e lançando, ao final, mais perguntas do que respostas. Um ponto em aberto foi acerca da possibilidade de patologia das comunidades, isto é, dos riscos de que a neurose, que afeta o indivíduo, afete também a civilização. E, no que se refere à sobrevivência da espécie humana, ele deixa também em aberto a questão que se relaciona ao domínio da pulsão de morte. Conseguirá o desenvolvimento cultural dominá-la efetivamente? Ainda estamos à espera de respostas...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O mundo gira tanto que...

O mundo gira tanto que às vezes a gente se depara com situações que, noutros momentos, causariam vergonha aos personagens envolvidos. Uma dessas é o fato de, agora, blocos econômicos terem virado coisas de comunistas na cabeça dos liberais de Facebook. Não sei se isso decorre do fato de a maior parte dessa rapaziada ter menos de 25 anos, e não recordarem que até algum tempo atrás esses mesmos blocos davam início a uma etapa que se apresentava como irreversível de falência do Estado e de transnacionalização do intercâmbio econômico (pelo menos o intercâmbio de bens, porque o de pessoas não avançava na mesma velocidade). É claro que os comunistas também têm suas ideias de blocos econômicos, mas esses que andam sendo postos em questão (em especial a União Europeia, assunto do momento) foram elaborados sob premissas bem capitalistas - que fique claro.
Agora, duas décadas depois, tendo aquele modelo se mostrado limitado, pois a prosperidade esperada não se mostrou sustentável (na América do Sul as ilusões neoliberais acabaram cedo; na Europa, ainda durou até 2008), e após o ciclo de governos de esquerda também não conseguir romper com o paradigma neoliberal que limitava suas ações (caso do Brasil, onde as pretensões desenvolvimentistas de Lula esbarravam num Estado aparelhado por FHC), a direita ressurge como a bola da vez - e cada vez mais como extrema direita -, sendo a detentora dos discursos fortes, que propugnam ruptura, nova ordem, coisa e tal. Aí o jogo vira de cabeça pra baixo. Essa direita, antes globalizada e moderna, agora reassume uma cara "nacional". A abertura de fronteiras, antes uma solução liberal e avançada, agora é um problema a ser combatido. No Brasil, corporações de ofício são saudadas como salvadoras da Pátria. Nem precisa se falar dos discursos conservadores que encontram nos novos liberais seus canais preferenciais de difusão. A maioria nem parece se constranger em estar ao lado de defensores da ditadura militar.
Nada disso, porém, é pensado. É puro revanchismo. A crítica deles aos movimentos por direitos civis, à esquerda, aos blocos econômicos, é uma crítica meramente artificial, de quem está desesperado buscando a saída mais prática do momento. A extrema direita, afinal, não pensa. Não tem projeto. Não faz análises. Não examina problemas sociais e econômicos para, a partir deles, pensar nas soluções. Ela só tem um conjunto de vilões na mira para serem eliminados, mas não consegue enxergar um palmo à frente do nariz. Esse afã por saídas rápidas e desesperadas se manifesta em especial nos "votos de protesto", que têm se configurado como o canal nº 1 da insatisfação ignorante. Antes, eles consistiam em votos dedicados a caricaturas, piadas. Agora, se dirigem a sujeitos que dizem falar sério. Os resultados estão aí: eleições recordes de Bolsonaros, favoritismos de Trumps, decisões por fechamento de fronteiras, etc. No que se refere à saída dos britânicos da UE, em que pese o fato de o episódio oferecer novas alternativas de ação política, o fato é que nos termos em curso mal sabem os ingleses que os mais prejudicados serão eles mesmos com essa decisão...


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre doutrinas e doutrinadores

Tive a oportunidade de, dias atrás, dar uma aula no IFRN para alunos do ensino médio, sobre o tema Estado e Sociedade Civil no Brasil. Estou há uns três anos sem lecionar, mas foi tudo tranquilo, ok, pessoal gostou e tal... Uma semana depois, voltei para passar uma lista de perguntas sobre a escola, a disciplina e sobre o que acharam de minha aula. Uma advertência: a intenção aqui não é expor ninguém, até porque nenhum dos alunos que assistiram às aulas estão na minha lista de amigos e, além do mais, ninguém se identificou nos questionários. A ideia é apenas colocar esse episódio em discussão. Seguindo em frente, um dos comentários dos alunos sobre minha aula me chamou a atenção:
A doutrinação foi feita com sucesso.
Não pude deixar de achar curiosa. Fui procurar nas demais qualquer uma que se assemelhasse. Nos outros 60 e poucos questionários, ninguém respondeu igual. Alguns até disseram que não gostaram, sem especificar o porquê, ou que poderia ter sido melhor - tá valendo. A maioria, felizmente, aprovou, e alguns até se empolgaram ("esplêndido", "fantástico", "aula maravilhosa").
Aliás, os maiores elogios, por engraçado que pareça, se amparavam justo no fato de considerarem minha abordagem "imparcial", isto é, por eu mostrar, segundo um deles, "pontos de vista diferentes, permitindo que os alunos formem sua opinião". De fato, não sou um cientista social que se possa chamar de "neutro", mas considero inviável tratar temas sociológicos e políticos sem transitar por diferentes correntes de pensamento, ora criticando, ora respaldando o que tais correntes defendem; o que está bem longe de doutrinar.
Mas então por que aquele camarada disse que minha aula fora uma doutrinação? Para saber, fui prestar atenção nas suas outras respostas ao questionário.
A pergunta imediatamente anterior a esta dizia respeito a sua sugestão para melhorar a escola. A resposta foi, simplesmente, "privatizar". Isso mesmo. A sugestão para melhorar aquela que já é a melhor escola do estado e uma das melhores do país, na visão desse aluno, era privatizar. Por quê? Vai saber... Quando perguntado sobre o que ele achava dessa escola, sua resposta foi que ela "sustenta pessoas com dinheiro tirado obrigatoriamente das pessoas" (sic)...
O que faz com que você não goste de um professor?, dizia outra pergunta. "O fato de eles serem doutrinadores, eles devem ser apenas professores", foi sua resposta. Daí tomei a liberdade de admitir que sua visão de mim como doutrinador decorria menos de sua observação da minha aula do que de seu conceito pré-formulado de que professores costumam ser doutrinadores.
Em outro momento, era-lhe perguntado qual a matéria que ele menos gostava. Sua resposta foi, naturalmente, Sociologia. Por quê? "Porque serve apenas para doutrinação marxista". Mais uma vez se nota que sua avaliação de minha aula já estava pré-fabricada, não importa o que eu dissesse nem qual fosse minha abordagem. Por sinal, em certo momento da aula, eu até lembrei que a sociologia costuma ser interpretada, erroneamente, como uma "ciência marxista", e fiz questão de me esforçar para desconstruir essa perspectiva, elencando, por exemplo, grandes sociólogos não-marxistas de larga influência, do passado e do presente. Foi inútil, como se vê.
Uma das outras questões perguntava se ele se interessava por política. "Não, porque sou anarcocapitalista". Ok...
Outra perguntava qual a matéria que achava mais interessante. Considerando que o aluno faz curso técnico integrado ao ensino médio, sua resposta foi Gestão Financeira. "Porque ensina a filosofia das empresas privadas e através dela eu chego ao lucro"...
Já estava tudo muito claro.
Por fim, uma das perguntas era se ele gostava de ler. Sua resposta foi: "Sim, leio artigos do Olavo de Carvalho". 
Depois disso, fui obrigado a concordar com esse aluno: a doutrinação realmente foi feita com sucesso.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um ciclo se fechou

A sentença desumana de 23 anos de prisão a José Dirceu proferida por Sérgio Moro é um dos capítulos finais de um longo processo de criminalização do PT, este partido que nunca foi revolucionário nem comunista, como dizem seus fanáticos detratores; nunca colocou em questão os pilares vergonhosos do nosso desigual capitalismo de quinta categoria. Mesmo assim, tinha uma identidade popular e classista; este foi seu grande crime.
A caçada foi impiedosa e desonesta, porém, o que importa é: ela foi eficaz! Dilma e Dirceu já são carta fora do baralho. Ainda resta o Lula, que já não é mais aquele - está nitidamente abatido, recluso. Ele tem ciência do que aconteceu. Um ciclo se fechou. A oposição organizada institucionalmente a Temer será tímida, quando não inexistente.
Voltamos a ser o que éramos: um país com proprietários, e o governo voltou a ser aquilo que virou chavão há mais de 150 anos: um mero comitê para discutir os negócios da burguesia, sem qualquer propósito de combater desigualdades. E o PT sentiu esse baque, mesmo que não admita. Há segmentos que capitaneiam a denúncia do golpe, mas com muito menor rigor do que deveria ser. As ruas não foram ocupadas por ninguém, o discurso de que a reação seria intensa nunca foi além de uma fútil promessa. Uma promessa honesta, é verdade; acreditavam no que diziam. Mas não compensa entrar na dança depois que a música parou. O vento já não sopra mais a nosso favor. A reação popular, se ainda vier a acontecer, se dará sob contexto nada favorável.
Não há que ser otimista. Nenhum segmento do campo popular e democrático está melhor hoje do que estava há algum tempo atrás, nem mesmo os que nunca aceitaram o papel civilizatório que o PT cumpriu nos últimos anos.
Se Temer fizer a coisa do jeito certo, os 13 anos de PT (que ironia...) serão apenas um breve hiato do qual ninguém terá muito o que dizer, exceto os seus saudosistas, cadáveres insepultos que estarão sempre por aí na esperança de que algo pode ser revertido...


sábado, 9 de abril de 2016

Direitos particulares

Os desavisados gostam de dizer que o governo Dilma é tão neoliberal quanto seria o PSDB. Quem diz isso, das duas uma: ou não viveu os anos 1990 - que, por si só, já deixam flagrante o abismo existente entre os dois programas -, ou então acha que qualquer contingenciamento já configura uma política neoliberal. Ignoram que o neoliberalismo vai muito além de ajustes fiscais em épocas depressivas. Ele representa toda uma reformulação do papel do Estado (em verdade, o seu desmantelamento mais expansivo possível), com a transformação dessa instituição num mero apêndice das relações comerciais - estas sim, estariam na ordem do dia. O neoliberalismo significa uma política dirigida pelo mercado nos mais diversos segmentos. Isso está bem ilustrativo na matéria da Folha publicada hoje, intitulada "Secretário de SP exclui educação de papel do Estado e gera reação negativa".
Quem pensa que PT e PSDB são iguais, portanto, tem que mostrar alguma equação que explique como poderia ser mantida a política de expansão do ensino básico, técnico e tecnológico num governo neoliberal, bem como a política de acesso às universidades públicas, cujas vagas são ampliadas anualmente. Também tem que mostrar como o PSDB trataria programas como PIBID, criado pelo PT, e que deu nova cara às licenciaturas. Afinal, Renato Nalini, a maior autoridade do PSDB numa pasta de educação, deixa claro o contrário. Para ele, educação pública é gasto, é prejuízo. Educação, como a saúde, "deveria ser providenciado pelos particulares". Nalini reclama porque o povo "se acostumou a reivindicar". Tudo agora é "direito", há uma "proliferação de direitos fundamentais". Para que tanto direito, não é?
O sinal está dado para os que ainda não entenderam: sob a caneta do PSDB, a coisa se resume em riscar educação, saúde e outra gama de serviços essenciais da alçada do Estado e deixar tudo nas mãos de "particulares", cujos serviços ainda hoje têm qualidade questionável, que dirá quando se tornarem, enfim, monopolistas. O Temer não é um tucano orgânico, mas já mostrou que gosta de dançar a mesma música. Para quem ainda acredita que o governo atual é tão neoliberal quanto um governo tucano ilegítimo alçado ao poder por um golpe, só restará dizer: bem-vindos ao mundo real (mas espero que não seja tarde demais).


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Manual de como fabricar vilões e mocinhos

A guerra suja segue seu curso na Venezuela, tendo na mídia o seu maior trunfo. Aqui exporemos de forma bem didática um manual de como se fabrica uma notícia, ou, se preferir, de como se fabricam vilões. Tomamos como referência uma sequência de imagens e descrições de uma matéria do Terra, cujo link se encontrará ao final do texto.

Observemos esta foto:

4 de abril - manifestantes contrários ao governo usam estilingue para atirar pedras contra membros das forças de segurança, em Caracas 

A legenda é clara. São manifestantes CONTRÁRIOS ao governo que estão em ação. Observemos a caracterização e o modus operandi: são praticamente todos mascarados, e, num termo sutil, criativos. Improvisaram um estilingue gigante para enfrentar a guarda nacional. São o elo fraco da disputa, o que poderíamos chamar de vítima. A questão é que não há nada que indique que são opositores do governo. Apenas a matéria infere que o são, baseado, justamente, nestas caracterizações. Mas sigamos adiante.

Atentemos agora para a seguinte foto:
3 de abril -  estudante é atacado por partidários do governo de Nicolás Maduro na Universidade Central da Venezuela
Agora vejamos a legenda. Ela diz que um pobre estudante comum é atacado por "partidários do governo". OK. Mas vejamos como se portam esses partidários. Certamente não são partidários comuns, aqueles que, tradicionalmente vestem vermelho, portam bandeiras ou outros itens tradicionais da esquerda venezuelana. Pelo contrário. São mascarados, quase todos. Parecem mais... os manifestantes CONTRÁRIOS ao governo. Mais uma vez, a matéria infere quem é quem, mas desta vez, ela parece não fazer uso do seu critério comum. Os mascarados, ora vítimas, agora são vilões; ora elo fraco, agora são elo forte; ora contrários ao governo, agora são partidários. Parece piada - mas não é.

Mas não acabou por aí. Vejamos a próxima foto:
3 de abril - policial à paisana é socorrido por colegas depois de ser atingido por fogos de artifício lançados por estudantes da Universidade Central da Venezuela
Novamente, a legenda não deixa margem para tergiversações. Um policial à paisana foi atingido por fogos de artifício. Ora, vejamos os elementos dessa descrição: primeiro, dizer que ele foi atingido por fogos significa dar algum ar de inofensivo aos ataques dos manifestantes (nem vou entrar no mérito se eram de fato estudantes), que só têm isso como arma. Agora, o ponto mais importante: policial à paisana? O que se pretende com isso, senão legitimar a violência emitida contra este cidadão? "Um policial foi atingido, então tudo bem, faz parte do conflito". Mas observemos bem esse sujeito. Podemos primeiro nos perguntar o que um policial à paisana faz numa zona de conflito, afinal todos os policiais ali estão fardados e armados. Porém, olhando com mais cuidado, vemos que não parece um policial, mas sim........ o estudante que foi espancado por "governistas" na foto anterior. Olhem alguns ítens: calça jeans, no mesmo tom azul, camisa branca com um detalhe branco na barra. Está claro. O estudante espancado por grupos governistas agora virou um policial atingido por manifestantes. E a polícia, essa maldita, o que está fazendo? Salvando um opositor do regime, que foi castigado pela violência revolucionária?! Não, a polícia está fazendo seu papel, de proteger um cidadão que foi vítima da fúria adolescente dos mascarados antigovernistas.

Mas não acabou por aí. Antes que reste dúvidas sobre a caracterização e modus operandi dos opositores, vejamos a próxima foto, com sua descrição.
3 de abril manifestantes lançam pedras contra a Polícia Nacional Bolivariana durante enfrentamentos na Universidade Central da Venezuela, em Caracas
Todas as descrições são do próprio Terra, que possivelmente copiou e colou da Reuters (fonte original das fotos). Ou seja, não há muita margem para questionamentos. Observem que, à exceção da primeira foto, todas são no mesmo dia e no mesmo local. Nesta foto acima, novamente vemos os ditos "manifestantes". Mais uma vez, não há nada que indique que são manifestantes contrários ao governo, e não partidários de Maduro que foram acuados e estão apenas se defendendo, inocentemente. É claro que não. As máscaras já deixam claro que se tratam de opositores. A essa altura, já sabemos bem quem é que se serve delas. Mas tudo bem, é direito deles. O problema é quando isso afeta aos outros, como ocorre na próxima foto.

3 de abril - estudante é agredido e despido por partidários do governo de Nicolás Maduro, durante manifestação na Universidade Central da Venezuela, em Caracas
Aqui, uma cena que consegue ser ainda mais cruel do que a violência anterior. Desta vez, a vítima não foi apenas espancada, mas despida, humilhada publicamente. Quem são os agressores? A matéria não hesita: "partidários do governo". Ora, observamos mais uma vez que o estilo dos tais agressores em nada se diferencia dos opositores. Mas a matéria não está preocupada com isso. Ela está preocupada apenas em apontar culpados e vítimas.

O que se pode concluir dessa matéria esquizofrênica do Terra? Se formos seguir a lógica do jornal, poderíamos resumi-la na seguinte sentença: "manifestantes opositores estavam em conflito com a Guarda Nacional, que estava armada com policiais à paisana, e enquanto o pau comia entre eles os governistas estavam preocupados em espancar jovens inocentes por esporte". De que lado está a verdade?

sexta-feira, 21 de março de 2014

Esboço de uma introdução ao método dialético

Qualquer análise científica precisa de duas coisas para se afirmar como tais no processo. A primeira delas são os instrumentos por meio dos quais se edificará a pesquisa; a segunda, mas não menos importante, é o método utilizado. Se falarmos das ciências sociais em geral, não há variante nessa regra, porque são, por definição, científicas. Neste campo do conhecimento, os instrumentos de trabalho por excelência são os conceitos e categorias, além de outros recursos técnicos. Somente com eles, contudo, não se pode ir muito longe. É preciso, naturalmente, que se esteja munido de um método. Neste esboço em particular, nossa proposta é discorrer sobre algumas linhas gerais do método dialético.

O método dialético de que falamos e que ora aplicamos é o que Karl Marx (1983; 2010) desenvolve no conjunto de seus trabalhos, e que explica apenas de maneira esparsa em alguns de seus textos. Deve-se admitir que não há, por isso, um consenso acerca de como o método deve ser usado. No entanto, isso é uma questão menor, e possivelmente o problema mais afirmativo não reside nos dissensos sobre a dialética, mas muito mais num mau uso que dela se faz. Há muitos pretensos marxistas que se põem a analisar a realidade com os olhos da lógica formal, e, por isso mesmo, limitada. Esse recurso essencialmente positivista representou um largo avanço no alvorecer das ciências sociais, mas agora impõe obstáculos à apreensão da realidade que uma análise de caráter dialético teria condições de alcançar.

No pouco que escreveu acerca do tema, Marx deixa claro o uso de algumas categorias por meio das quais se pode fazer uma análise dialética. Dentre elas se destacam as categorias de totalidade, concreto e abstrato. Marx descreve a sua experiência particular como pesquisador para, a partir daí, oferecer o entendimento acerca de como ele pensa esse método. Quando ainda olhava o mundo pelo prisma da Filosofia do Direito foi que se deparou com o problema dos camponeses no Vale do Reno, que mantinham o hábito já tradicional de recolher lenha nas florestas, quando de repente o Estado determina que aquele território passa a ser subordinado a um outro regime de propriedade - uma propriedade privada. De uma hora para outra, o que era um direito consuetudinário se torna um crime, e os camponeses - que, vivendo numa região fria, precisavam de lenha para sobreviver - passam a ser penalizados por isso. Marx toma posição ao lado deles, por entender que são o elo mais fraco, mas sua visão de mundo, ainda moldada pelo idealismo metafísico, logo dará demonstrações de que ele não teria como compreender aquele fenômeno pelo prisma do Direito ou da Moral. Não adiantava defender os camponeses afirmando que era errado o que o Estado fizera - já estava feito, afinal. Marx entendia, assim, que a realidade exigia uma apreensão muito mais minuciosa, e logo após tomará contato com a Economia Política e a ela se dedicará pelas décadas seguintes. Não se trata, aqui, de uma defesa pueril da Economia Política como instrumento supostamente superior à Filosofia para se analisar o mundo, mas exatamente uma defesa do estudo da realidade material como única forma de se alcançar a compreensão final do fenômeno.

O movimento feito por Marx, de se retirar para os gabinetes e dedicar-se aos estudos, dá uma noção didática de como funciona o método dialético. Partir do concreto é uma premissa essencial, porque o concreto em questão é o fenômeno observado que precisa ser investigado; a partir daí se alcança o abstrato, isto é, confronta-se os elementos da realidade estudada com as categorias primordiais da dialética e da concepção com a qual se trabalhe. É aqui que entram, numa análise marxista, os conceitos de modo de produção, de formação social, de infraestrutura e superestrutura, de classe, entre outros mais, num gesto que gradativamente retorna ao concreto, desta vez como realidade apreendida, isto é, como fenômeno e como essência, a unidade básica da realidade, o que se chama de a "coisa em si", que, segundo Kosic (1995, p.15), não se manifesta ao homem de forma imediata, mas sim "de modo inadequado, parcial, ou apenas sob certos ângulos e aspectos".

Desse método se depreende que o concreto-empírico, isto é, a realidade que antes se apresentava ao investigador, transforma-se, após o confronto com o abstrato, em concreto-pensado, a realidade idealmente reproduzida. Essa transição requer um exame rigoroso, que já parte de um resultado - afinal, cada fenômeno que se pretende analisar é escolhido arbitrariamente pelo cientista, a partir de critérios por ele - ou por alguém em seu nome - determinados. Esse poder do cientista social em determinar o objeto de sua investigação, contudo, não deverá existir quando se trata da exposição do resultado final de sua pesquisa, afinal é a própria investigação que deverá indicar que rumos tomará a análise, indicando, no estudo daquele fenômeno, qual de seus elementos é essencial e quais são os elementos acessórios. Assim, o método de investigação é definido pelo próprio investigador, mas é a própria pesquisa que indicará o método de exposição. É por isso que Marx, ao invés de iniciar O Capital com um panorama histórico da ascensão do capitalismo (método de exposição largamente utilizado atualmente) decide iniciar exatamente pela mercadoria, que ele considera ser o capitalismo decomposto na sua menor parte. Somente depois de explicar o funcionamento da sociedade capitalista ele se preocupará em explicar como ela surge.

Essa é a única maneira de compreender as coisas em sua essência. Analisar os fenômenos apenas com base nas experiências significa incorrer em frequentes contradições, pois essas coisas, destituídas de essência, tenderão a se expor de forma enganadora. Por outro lado, tão enganoso quanto restringir-se às experiências é restringir-se ao abstrato, tentando enquadrar a realidade em noções pré-concebidas, submetendo o empírico ao teórico, grosseiramente. "O princípio fundamental da dialética é: não existe verdade abstrata, a verdade é sempre concreta" (Lênin, 1986, p.367).

É preciso repetir que os instrumentos conceituais e técnicos (como dados, recursos documentais, etc) não podem ser confundidos com o método. Instrumentos e técnicas de pesquisa são imprescindíveis para que se possa apoderar-se da realidade material estudada, mas "podem servir (e de fato servem), em escala variada, a concepções metodológicas diferentes" (Netto, 2011, p.26). Compreendendo-se essa ressalva, a pesquisa se constrói e, ao final, se expõe, ainda que esse resultado final, pela própria natureza científica, será apenas (e sempre) provisória, sujeita a correções, abandonos, retificações, etc.

O método dialético torna-se, assim, um instrumento poderoso para o entendimento da realidade; um entendimento, na medida do possível, livre de preconceitos, julgamentos morais e outras manifestações pseudoconcretas (Kosik) de observação do real. Este método afirma o existente, apreende as formas em que se configura o devir. Livra-nos das interpretações equivocadas que vislumbram o contingente como necessário, o singular como geral, o consequente como o causal, o fenomênico como o essencial - e, ao final, apresenta-nos a realidade como totalidade concreta, como deve ser.


Obras de referência:
Karl Marx, Contribuição à Crítica da Economia Política (1983) e O Capital (2010);
Karel Kosik, Dialética do Concreto (1995);
Lênin, Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás (1986);
José Paulo Netto, Introdução ao Estudo do Método de Marx (2011)


quinta-feira, 13 de março de 2014

1914, cem anos depois

Holloway escreve que, ao contrário de hoje, uma época sem esperança, há cem anos o debate a respeito das mudanças que a sociedade precisava era marcado pelo otimismo. Cita como exemplo a polêmica Bernstein x Luxemburgo, para tentar argumentar, a partir daí, a existência de um dito "consenso" a respeito da necessidade de uma sociedade "baseada na justiça", mudando apenas a forma sobre como essa mudança se daria, se pela revolução ou pelo reformismo bernsteiniano.

Essa noção, no entanto, não tem fundamentação histórica. O debate reforma x revolução era marginal, pertencia ao interior do marxismo, e denunciava a primeira grande crise que esta teoria apresentava, rachando logo em seguida. O conjunto da sociedade europeia no início do Século XX, pelo contrário, nunca estivera antes tão convencido de como aquele capitalismo galopante estava assentado e se afirmava como a melhor fase da História da Humanidade.

Só que no contexto do capital, não há espaço para crescimentos múltiplos e permanentes. Uma hora, parafusos iam brequar algumas engrenagens e travar todo o funcionamento daquele sistema. Foi o que aconteceu, exatamente em 1914. E exatamente como hoje, uma época em que grandes países se afirmam e interesses começam a se chocar, as faíscas começaram a ser cada vez mais frequentes. A Crimeia está aí, a Síria, as bases militares no mundo todo... o debate marxista permanece marginal. E o risco de vermos, neste 2014, um novo 1914, não tem nada de ilusório.

sábado, 2 de novembro de 2013

O conceito de classes sociais segundo Theotônio dos Santos

Conhecido sobretudo pelos estudos acerca da teoria da dependência, o economista Theotônio dos Santos, professor emérito da Universidade Federal Fluminense, tem um conjunto de obras que em muito suplanta essa temática. Aqui nos deteremos em um trabalho de cunho metodológico, exposto na forma de conferência (realizada pela Universidade do Chile, em 1966) e publicado em livro pela editora Vozes, o Conceito de Classes Sociais*. Santos discute as origens históricas do termo, confronta noções de outros pensadores críticos de Marx, e em todo esse traçado que inclui um debate a respeito dos níveis do conceito de classe e da consciência de classe e busca propor, ao final, uma síntese, e um método de investigação. A justificativa desse estudo reside na constante confusão feita a respeito do conceito de classes em Marx, e, existindo confusão a respeito do conceito, é natural que haja, igualmente, confusão a respeito de como pesquisá-lo.

Santos afirma logo de princípio que o conceito de classes, assim como diversos outros, não foi criado por Marx. Ele existe desde a Antiguidade. Aristóteles já dividia os cidadãos entre ricos, classe média e pobres. Além disso, "Os Atos dos Apóstolos e o Novo Testamento estão cheios de referências às classes sociais" (p.7). Nessa linha seguirá o pensamento medieval - São Tomás de Aquino igualmente dividirá a sociedade em ordens sociais "bastante rígidas". A divisão de classes ficará mais clara com a ascensão da era moderna. "Em Babeuf, encontramos uma representação muito clara da luta de classes como fator determinante da luta política" (p.8), inspirado pelos conflitos resultantes da Revolução Francesa. É nesse contexto que Adam Smith, mais voltado à análise da realidade inglesa, fundamentará sua visão de classes na sociedade burguesa, "baseada em sua função econômica", e não mais pela renda. Assim, Smith pensará as classes em termos de agrária, industrial e assalariada. A originalidade de Marx reside na sua postura de dar a esse conceito "não só uma dimensão científica, mas também atribuir-lhe o papel de base de explicação da sociedade e de sua história". Santos deixa claro, porém, que o tratamento que Marx dará ao termo é impreciso, citando como exemplo o fato de a obra O Capital ter sido interrompida "justamente no capítulo em que começava a tratar das classes sociais".


Críticas ao rigor conceitual de Marx
A análise de Santos se inicia trazendo abordagens críticas ao conceito, para a partir delas desenvolver sua reflexão no todo. A primeira dessas abordagens é a de Georges Gurvitch, que, entre outras críticas, afirma que Marx "jamais consegue estabelecer com clareza se a consciência de classe é ou não um elemento necessário à definição de uma classe social" (p.10-11). Gurvitch também questiona o conceito de ideologia, perguntando se as ideologias, para Marx, "são ilusões da consciência ou mistificações conscientes" (p.11).

Antes de rebater essas observações, Theotônio dos Santos apresentará outro autor crítico do conceito, o sociólogo polonês Stanislav Ossowsky. Esse autor apontará, em Marx, três enfoques sobre as classes sociais: o esquema dicotômico, apresentando uma oposição aguda entre classe dominante e classe dominada; o esquema de gradação, diferenciando as classes pela posição em que se situam numa escala, mais alta ou mais baixa, utilizando o exemplo da pequena burguesia; e o esquema funcional, distinguindo-as de acordo com a propriedade de fontes de renda, permitindo-se entender as contradições dentro de uma mesma classe social, como os a luta entre a burguesia industrial e a financeira. Santos lança a pergunta, a partir das observações de Ossowsky: "trata-se de esquemas superpostos de análise ou de planos diferentes de um mesmo processo analítico sintetizante?" (p.14). Essa pergunta ocupa lugar central na análise, uma vez que Santos considerará como um dos maiores suportes do pensamento de Marx a sua dialética materialista, oculta no seu questionamento, e identificará entre os críticos de Marx o comportamento comum de "analisar a Marx do ponto de vista do pensamento analítico".


Como captar o conceito de Marx
A complexidade do conceito de classes em Marx tem como exemplo maior o fato de que em O Capital, ele somente examinará as classes "depois de ter analisado o processo da produção do capital, o processo de circulação do capital, e, ao final do estudo, o processo de produção capitalista em seu conjunto" (p.15). Fica claro o elevado grau de abstração que existe no estudo desse conceito. É possível encontrar em Marx passagens que indicam as classes sociais como a personificação das categorias centrais de um determinado regime de produção, mas "nenhum regime produção existiu historicamente de maneira pura" (p.16), o que dificulta o trabalho de identificá-las.

Santos exporá o grau de abstração das classes ao dizer que "a determinação das classes sociais básicas da sociedade não é tarefa da observação empírica, mas de uma investigação teórica do modo de produção que a constitui" (p.16, grifo nosso). Ou seja, somente podemos encontrar as classes sociais integrantes de uma determinada conjuntura após analisarmos sua conjuntura, elemento que será debatido mais à frente. Santos considerará impossível identificar as classes sem superar essas etapas de abstração, colocando essa rígida diferenciação e afirmando a interdependência entre eles como sendo "um dos principais aspectos do método dialético" (p.17). Santos indicará, em nota que é possível "começar a estudar uma sociedade a um nível totalmente empírico ou impressionista, mas o estudo só adquirirá o status científico quando estiver em condições de definir as relações essenciais desta sociedade" (p.18).


Os níveis do conceito de classes

Primeiro nível: o modo de produção
Assim, ao estabelecer os níveis a partir dos quais podemos chegar às classes, Santos identifica no modo de produção o basilar, "[os] componentes são antagônicos [e] as classes sociais são uma expressão fundamental dessas relações antagônicas. Em consequência, o conceito de classes sociais se constitui teoricamente dentro do conceito de luta de classes" (p.19).

Nesta seção, Santos começará a discutir a consciência, frisando que "o conceito de consciência de classe no marxismo não corresponde à ideia vulgar empírica da consciência que têm os indivíduos de sua condição de classe" (p.20). Igualmente, Santos questiona o fato de se transpor esse conceito para diferentes períodos, alertando que somente "importa estudar as classes e a consciência de classe a nível altamente abstrato e ao mesmo tempo com referência a uma formação histórica concreta" (p.20, grifo nosso). Santos afirma que, isolando os fenômenos de seus aspectos secundários, é possível estudar tais formações em condições quase de laboratório, o que permite alcançar elevado grau de compreensão. Para além disso, Santos já se adianta a questionamentos que podem sugerir que em Marx tais categorias teóricas se impunham à realidade, e não o contrário, destacando que "essas categorias de análise marxista não nascem das condições possíveis da percepção da realidade social, mas da expressão teórica da prática social" (p.22), ou seja, elas são abstrações de modos reis de produção, e não categorias universais aplicáveis a realidades não historicamente determinadas".

Segundo nível: a estrutura social
Aqui, Santos já começa afirmando que "o marxismo não usa a abstração de maneira formal. Quando elabora o conceito abstratamente, nega-o em seguida, ao mostrar as limitações deste nível do conceito" (p.24). É por isso que é precisa sempre passar a níveis mais concretos de abstração, isto é, partindo do modo de produção e suas contradições em geral, passando pelas novas formas específicas entre seus componentes e, num nível mais concreto, chegando a formações sociais específicas, dentro de um universo histórico e geográfico determinado, identificando seus grupos sociais protagonistas. Entendendo que a este nível, a consciência de classe deverá ser tratada sob a forma de interesses sociais teoricamente definidos, Santos afirmará que "por consciência de classe se entenderão as formas possíveis de consciência nas condições específicas de uma dada estrutura social" (p.25, grifo do autor).

Terceiro nível: situação social
Aqui já nos encontramos mais próximo de uma sociedade concreta, ainda que sua descrição será já científica, e não meramente empírica. A situação social surge quando, "ao diferenciarmos internamente a estrutura, encontramos uma série de fenômenos correlacionados e dependentes da estrutura de classes" (p.26). Neste nível, a análise é feita a partir de valores socialmente dados; não podemos, portanto, estudar a consciência de classe, mas sim ao nível do que Lukács considerou como psicologia de classes. "Por psicologia de classes se entendem as formas de pensar e sentir das classes sociais situadas historicamente" (p.27). Encontraremos, nessas situações, frequentemente, contradições entre os interesses de classe de uma classe e seus interesses imediatos, daí a diferenciação entre consciência e psicologia de classes, e baseado em que Theotônio dos Santos afirmará que
A riqueza analítica do método dialético surge aqui com toda sua força. Contra a realidade unilinear e clara do empirismo se opõe uma multiplicação de planos de contradições, de possibilidades de análise do comportamento humano. E surge também a condição dramática da realidade social, as contradições objetivas entre os indivíduos e sua realidade objetiva e psicológica. Surgem os elementos trágicos, grotescos ou cômicos da existência humana. A ciência se encontra assim com a política real, a literatura, a arte e a existência diária dos homens. Torna-se vida. Esta é a força concreta do marxismo, ainda não completamente desenvolvida: sua capacidade de ligar o mais absoluto rigor teórico abstrato às mais cotidianas realidades do homem. (SANTOS, 1982, p.27)

Quarto nível: a conjuntura

A conjuntura é um nível bastante mais dinâmico, e mesmo mais contraditórios. Santos afirma, por exemplo, que nos momentos de prosperidade a psicologia de classes se manifesta completamente distinto dos momentos de crise. "Nas situações de crise a psicologia e a consciência de classes tendem a se confundir numa só realidade" (p.28), pois se torna mais clara aos homens suas condições de existência. Isso se torna difuso em momentos de ascensão ou de equilíbrio social. A virtude do marxismo reside em entender essa contradição, enquanto "a ciência empirista, com sua supervalorização do dado [...] tende a confundir a dinâmica da realidade com a dinâmica aparente de certos períodos históricos".


A consciência de classe

Santos inicia sua abordagem acerca da consciência falando de classe em si e de classe para si, lembrando o fato de essa distinção "de sabor hegeliano" ser causa de muitas confusões. Aqui, entender a diferença entre os conceitos de psicologia e de consciência de classes se torna útil para superar essa confusão. "Na medida em que a psicologia de classes não expressa a realidade destas relações num setor significativo dos indivíduos que compõem uma classe, pode-se conceituar estes agregados humanos como classe em si" (p.31, grifos do autor), ao passo que somente se tornarão classe para si "numa situação social em que tomem consciência destas relações sob a forma de uma ideologia política que definda claramente as condições reais de sua existência". Entendendo que isso presume conhecer também os modos de superação dos obstáculos interpostos aos interesses dessas classes, Santos indica que classe para si é "uma classe capaz de elaborar um projeto de existência social adequado a seus interesses de classe" (p.31)

Aqui também se discute a ideologia como falsificação da realidade, ou o problema que existe nessa acepção. Santos justifica isso como um problema ao dizer que "só há ideologia quando há representação verdadeira dos interesses" (p.32). Ele identifica a confusão entre verdadeira e falsa representação ou consciência pelo fato de que sendo as dominantes as ideias da classe dominante, ela aparecerá como falsa às demais classes. Não se pode, afinal, suplantar a ideologia dominante. Em relação aos interesses da burguesia, portanto, a ideologia está fundamentada numa realidade. Reside aí, por exemplo, para Santos, a impossibilidade de que se constitua uma verdadeira ciência, isto é, um mecanismo que explique o real, e não tão-somente sua aparência imediata. A burguesia se torna prisioneira do pragmatismo, e com ela "a necessidade ideológica de falsear o real, [que] se expressa na necessidade da teoria burguesa de ser empirista" (p.33).

Santos lembra que não foi sempre assim. "Em seu momento de ascensão política e econômica, a burguesia foi impelida por uma profunda necessidade de conhecer teoricamente" (p.34). No entanto, é quando se consolida no poder que "o pensamento burguês tende a tornar-se cada vez mais antiespeculativo, antirracional, antiteórico".

Suplantando as confusões decorrentes da não compreensão dos conceitos de classe, ideologia e psicologia de classes, é possível, enfim, avançar na análise da consciência de classe. Essa análise define elementos que permitem e condicionam o surgimento ou o obscurecimento dessa consciência. A composição desses elementos é a seguinte: 1- análise das relações objetivas reais, ao nível do modo de produção; 2- uma estrutura ou numa dada situação histórica; 3- o estado empiricamente observável desta consciência. A partir destes três níveis uma análise dialética se torna possível. Apesar disso, Santos alerta que "um problema especial pode surgir com o estudo das classes transitórias pois suas condições de existência na sociedade estão em constante transformação para novas formas de relação" (p.37). Ele inclui nesse rol os agregados que não chegam a se cristalizar como classes, ou quando a consciência destas classes estão sujeitas à pressão constante de outras classes, como por exemplo, no capitalismo, a pequena burguesia.

Vale frisar que, sendo os interesses de classes antagônicos, também as consciências de classe o serão, pois "para que as classes consigam realmente possuir uma consciência de classe, devem opor entre si regimes sociais diferentes" (p.38). A consciência de classe, portanto, não se submete a meros interesses, mas a perspectivas distintas de sociedade.

Compreender esse caráter como parte da consciência de classe exige, segundo Santos, a necessidade de compreender também o papel do intelectual na luta de classes, uma vez que "é somente uma atividade intelectual sistemática que permite tirar as consequências da práxis e sistematizá-la de forma que a consciência  se transforme em consciência efetiva dos indivíduos da classe". Admitindo que os indivíduos que estão envolvidos na prática não têm como conscientizá-la, Theotônio resgata Lênin, ao afirmar que o líder russo "insistia que o proletariado não podia chegar a uma consciência de classe, mas no máximo a uma consciência sindicalista", sempre alertando que o intelectual não pode, portanto, ser considerado um indivíduo "isolado numa torre de marfim", mas como um militante da classe.

Antes de encerrar esta seção, Santos discute se havia consciência de classe nas sociedades pré-capitalistas, e esclarecendo que "nestas sociedades os indivíduos se concebiam não como classes, mas como castas, ordens, estamentos, etc.", não sendo, portanto, possível deter tal consciência, entendendo, como foi dito antes, que a estrutura social explica a estratificação social (situação social). O capitalismo ajudou a desmistificar as relações entre os homens, ao diferenciá-los economicamente, ainda que hoje se encontrem limites ideológicos para que se avance nessa desmitificação.


Tentativa de conceitualização

Santos caracterizará as classes sociais, portanto, como "agregados básicos de indivíduos numa sociedade, os quais se opõem entre si pelo papel que desempenham no processo produtivo, do ponto de vista das relações que estabelecem entre si na organização do trabalho e quanto à propriedade" (p.41). Decompondo, portanto, o conceitos em seu nível geral e abstrato, teremos:
1- Agregados de indivíduos;
2- Básico na sociedade;
3- Opostos entre si;
4- Em relação à função no processo produtivo, quanto:
4.1- às relações de trabalho;
4.2- à propriedade.

A partir disso, pode-se resumir as respostas às objeções feitas a Marx, considerando que tais respostas partem do caráter dialético ("diferenças em níveis, relação entre concreto e abstrato, papel das contradições" (p.43)) da análise marxista. As objeções, portanto, se tornariam insuficientes por se apoiarem em textos isolados, isto é, despindo-os de seu caráter eminentemente dialético. Afirma, assim, que o conceito de luta de classes é uma exigência da análise dinâmica das classes e, questionando os enfoques que Ossowsky identifica na conceitualização marxista, sentenciará que "não se trata de conceitos diferentes de classe, mas é uma visão dialética em que o conceito se 'refaz' de acordo com o nível de abstração em que se situa a análise". O número de classes sociais, portanto, varia segundo o nível de análise e as estruturas sociais em questão. A função da ideologia, aí, esclarecendo o questionamento de Gurvitch, será a de introduzir entre os interesses de determinadas classes a necessidade de mistificar e obscurecer a dominação.

Santos encerra reafirmando a "missão histórica" do proletariado, mas despindo esse termo de quaisquer noções metafísicas, e destacando que "quando se fala em 'missão' se faz referência às potencialidades históricas de uma classe cujos interesses materiais objetivamente determináveis levam a determinados resultados históricos desde que consigam impor historicamente seus interesses" (p.44, grifo nosso).


Como investigar as classes

Aqui, Santos chega ao final de sua exposição, em que sugerirá um método de investigação das classes, e, ainda que reconheça ser possível fazer uma análise a partir de um nível "intermediário" ou a mesmo num "nível final", ressalta que "só se pode alcançar um conhecimento científico efetivo (condicional, explicativo e, por fim, causal) quando se consegue situar uma determinada sociedade dentro deste modelo geral de análise" (p.45).

1. Análise do processo produtivo

Essa análise é o ponto de partida do estudo sobre as classes, do qual se distingue: "a) o nível de desenvolvimento das forças produtivas [...] b) o nível das relações de produção" (p.46). O primeiro procedimento tem sido largamente desenvolvido pela sociologia do trabalho e pela antropologia, pelos estudos sobre tecnologia, etc, e o segundo, dependente do anterior, convém analisar os componentes gerais da divisão social do trabalho a partir de suas funções (manuais, intelectuais, de produção, de circulação, etc) e de suas relações de propriedade (proprietários de meios de produção ou de força de trabalho, etc). Além disso, Santos destaca um terceiro procedimento, complementar aos anteriores, isto é, identificar as classes básicas da sociedade, as intermediárias, em formação ou decadentes, bem como os diversos setores de classe, sempre relacionando-os entre si.

2. Análise dos interesses sociais
Superada a primeira fase, podemos examinar os interesses correspondentes às classes, colocando em relação "uns com os outros como opostos e interdependentes, pois só desta forma podemos alcançar a efetiva compreensão de seu significado" (p.47). Santos indica que é preciso diversificar a análise, identificando subinteresses, introduzindo elementos mais concretos, como a distribuição de renda, a estrutura demográfica, as instituições, etc. Ao final desse processo, é possível compreender dialeticamente uma estrutura social "como um resultado e um condicionante das relações entre interesses sociais e em contradição".

3. Consciência e psicologia de classe
Aqui já se torna possível identificar as tendências que levam à formação da consciência e da psicologia das classes. Subgrupos e estratos sociais, bem como setores de classe, também podem ser analisados por este prisma. A análise aqui deve combinar a percepção econômico-social com uma observação mais direta. Santos denuncia nesse âmbito trabalhos pouco desenvolvidos de opinião pública, movimentos políticos, congressos, etc, e considera que é necessário aperfeiçoar as técnicas de análise de texto qualitativas e quantitativas. Pesquisas com classes e grupos, munidos de uma boa técnica de análise, são fundamentais para a identificação da psicologia das classes.

4. Integração da análise
Santos finaliza sentenciando que, seguindo essa linha, "a análise se desenvolve em vários planos possíveis. O plano do modo de produção [o mais abstrato]; o plano da estrutura social econômica concreta [que supõe a combinação de vários modos de produção e suas variantes internas, e da superestrutura cultural e ideológica]; por fim, o plano conjuntural [que conduz à diversificação do comportamento das classes e grupos sociais conforme as diversas situações conjunturais]" (p.48).


Assim, Santos encerra sua exposição, analisando a virtude deste "ideal científico [que] se opõe profundamente a uma ciência positivista que procura leis gerais válidas em si mesmas" (p.49). A análise, a partir do exposto nesse trabalho, leva ao particular, não se encerrando, artificialmente, nas leis gerais.


*SANTOS, Theotônio dos. Conceito de Classes Sociais. Petrópolis: Vozes, 1982.


Apêndices da obra: O Capital (As Classes / Tendência Histórica da Acumulação Capitalista); A Ideologia Alemã (História); Contribuição à Crítica da Economia Política (Prólogo)



sábado, 19 de outubro de 2013

Marx e a mercadoria

Quando Marx escreve O Capital, em 1867, ele está dando publicidade a um material produzido em décadas de análise, que se justificaram exatamente pelas limitações que a reflexão filosófica impunha à análise do mundo material, corrente. É nesta obra que Marx analisará de que forma a relação social específica desse modo de produção se realiza, e suas consequências. Nestes escritos, exporemos o conjunto do primeiro capítulo, muitas vezes tido como confuso (Harnecker), e cuja leitura não é recomendada para iniciantes sem antes se prestar a ler capítulos posteriores (Althusser, Borchardt). Para isso, escolhemos a 22ª edição da Civilização Brasileira, publicada em 2004, com tradução de Reginaldo Sant'anna.

Iniciar seu trabalho pela análise da mercadoria não foi uma decisão arbitrária para Marx (Kosic). Foi exatamente por exigência de sua pesquisa que o capitalismo somente pode ser compreendido a partir da análise deste elemento, e não necessariamente de um apanhado histórico (que Marx só fará em capítulos bem posteriores - no segundo volume em algumas edições). O próprio Marx afirma frequentemente que "refletir sobre as formas da vida humana e analisá-las cientificamente é seguir a rota oposta à do seu verdadeiro desenvolvimento histórico", isto é, somente se pode compreender o passado a partir do presente. Noutra obra, ele dirá, alegoricamente, que a anatomia do homem é a chave para entender a do macaco, e não o contrário.

A mercadoria é um objeto que se propõe a satisfazer as necessidades humanas "do estômago e da fantasia" (p.57). Com essa abertura, desde já Marx antecipa as críticas que frequentemente se fariam às suas análises no século XX, contexto da sociedade de consumo. Ora, o consumismo se faz por intermédio especial da mercadoria. A fantasia em questão prenuncia o caráter mundializado do capital.

Ser mercadoria presume dizer que o produto em questão é constituído por um duplo caráter. O primeiro é ser possuidor de algum valor de uso, isto é, atender a uma necessidade humana, uma vez que "a utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso" (p.58). Mas ser valor de uso não é suficiente para que determinada coisa se transforme em mercadoria. O ar, a água, são valores de uso porque servem ao homem, mas não são mercadoria porque não provêm do seu trabalho. No caso de uma mercadoria propriamente dita, se nós lhe tirarmos o valor de uso, "restará ainda uma propriedade, a de ser produto do trabalho humano" (p.60). Esta última propriedade, ao contrário da primeira (qualitativa) têm dimensão quantitativa, é dependente da quantidade de trabalho empregada. Essa quantidade de trabalho sustentará o valor de troca da mercadoria, sendo os valores de uso nada mais do que os "veículos materiais do valor de troca" (p.58), ou seja, o conteúdo material da riqueza, "qualquer que seja a forma social dessa riqueza" (p.58).

Sendo valor de uso e valor de troca, a mercadoria se comporá de uma utilidade e de uma relação quantitativa obtida a partir da quantidade de trabalho empregada na sua produção. O trabalho, nesta condição, assume precisamente a condição de trabalho útil, uma vez que se propõe a produzir um valor de uso. "Ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece também o caráter útil dos trabalhos neles corporificados" (p.60).

Quando pensamos em trabalho, sobretudo sendo ele o elemento determinante na constituição do valor da mercadoria, precisamos lembrar o alerta que Marx emite, ao afirmar que "toda a força de trabalho da sociedade vale por força de trabalho única, embora se constitua das inúmeras forças de trabalho individuais" (p.61). Desse modo, Marx desde já se coloca em precaução diante de outra crítica que muito lhe fariam - e continuam a fazer: a de que medir o valor do produto pelo tempo de trabalho empregado se tornou anacrônico ou, mesmo, nunca teve validade, pois justificaria o fato de mercadorias produzidas de maneira letárgica e ineficazes terem maior valor que outras produzidas com menos tempo, ainda que apresentassem mais utilidades. A noção chave é entender o trabalho em questão como trabalho socialmente necessário à produção.

Aos que continuam a sentenciar que as análises de Marx são anacrônicas na era do capitalismo informacional, um trecho é especialmente relevante - quando ele afirma que os elementos que determinam a produtividade do trabalho são a "destreza média dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência e sua aplicação tecnológica, a organização social do processo de produção, o volume e a eficácia dos meios de produção e as condições naturais" (p.62). Ora, são ou não são estes os paradigmas determinantes para a produtividade do trabalho mesmo hoje, 150 anos após a redação de A Mercadoria?

Quando Marx fala em trabalho socialmente necessário, ele admite, portanto, a existência de uma divisão social do trabalho. Ainda que Marx admita que é possível que haja divisão social do trabalho sem consequente produção de mercadorias, o inverso ele ratifica como não sendo verdadeiro. "A divisão social do trabalho é condição para a existência das mercadorias" (p.65). Pensar em divisão do trabalho presume pensar no conjunto de trabalhos particulares que compõem essa rede. Mais à frente entenderemos melhor a centralidade do trabalho, suficiente para admitir que não há diferença qualitativa entre o trabalho de um sujeito aqui e o de outro ali. "O homem, ao produzir, só pode atuar como a própria natureza, isto é, mudando as formas da matéria" (p.65). Ainda que pensemos na condição de uma pessoa culta, formada, detentora do que se pode chamar de capital cultural, é preciso entender que o trabalho dela não é diferente do trabalho de qualquer outro, exceto pelo fato de que o trabalho por ela produzido, complexo ou qualificado, "vale como trabalho simples potenciado ou, antes, multiplicado" (p.66)*. Por ora, convém concluir que o trabalho é a substância que caracteriza o valor.

Para encerrar este primeiro momento, lembramos que a mercadoria se compõe de uma dimensão qualitativa, isto é, valor de uso, e de uma dimensão quantitativa, notadamente o valor de troca. Nem sempre é plena a compreensão da qualidade de valor da mercadoria; afirmar que se trata de um valor de troca é insuficiente, pois esse valor pode se manifestar de muitas formas. Debruçar-nos-emos, portanto, agora, nas distintas formas de valor para Karl Marx.



A - Forma Simples do Valor

- Forma Relativa e Forma Equivalente do Valor

Essa forma consiste na relação comum entre duas mercadorias. Marx cita exemplos, que aqui não nos convém reproduzir, e sentencia que "a relação de valor entre duas mercadorias é a expressão mais simples de uma mercadoria". Ou seja, esta forma é determinada pela troca simples de mercadorias, isto por aquilo, evidentemente norteada por um trabalho comum que qualifique ambos os produtos. "Essa forma só funciona em estágios primitivos, quando os produtos do trabalho se transformam em mercadoria através da troca fortuita" (p.87).

A forma simples do valor, isto é, uma relação entre apenas duas mercadorias, exige entender a primeira mercadoria como valor manifestado na forma relativa. A segunda mercadoria assume, assim, o papel de equivalente da primeira. Embora seja uma forma simples, mesmo primitiva, já nos denuncia os elementos necessários para entender a mercadoria, entendendo que o trabalho humano é suficiente para criar valor, mas não é valor; "vem a ser valor quando se cristaliza na forma de um objeto" (p.73). Esse objeto é uma outra mercadoria permutável por aquela que produzimos; sendo esta mercadoria o produto do trabalho, ao trocarmos esta por aquela, estamos compreendendo o trabalho como elemento determinante do valor. Isso porque "duas coisas diferentes só se tornam quantitativamente comparáveis depois de sua conversão a uma mesma coisa" (p.71). Os valores de uso não se trocam, pois são subjetivos. Troca-se o valor, e entendendo a substância do valor como o trabalho, está-se trocando trabalho por trabalho.

A troca permite, então, entender que "a forma do valor tem de exprimir não só o valor em geral, mas valor quantitativamente determinado ou magnitude de valor" (p.75).

Das sentenças afirmas se infere que a forma equivalente do valor se realiza quando uma mercadoria "passa a ser expressão quantitativa de uma coisa" (p.78). Desse modo, uma mercadoria não tem valor em si, e não pode ser permutável por outra idêntica. "O valor de uma mercadoria assume expressão fora dela, ao manifestar-se como valor de troca" (p.82).

É a partir da análise da forma equivalente do valor que chegamos à noção de trabalho humano abstrato. É a partir daqui que, ao confrontar trabalho com trabalho, entendemos a sua natureza comum. O trabalho humano concreto, aquilo que realizamos para produzir determinada mercadoria se transforma em trabalho humano abstrato quando é comparado com outro trabalho, ou seja, o mesmo trabalho, a mesma ação, o mesmo dispêndio de energia. Marx traz inclusive uma reflexão de Aristóteles sobre esse fenômeno, quando o grego afirmava que "a troca não pode existir sem a igualdade, nem a igualdade sem a comensurabilidade", e completando que "todos os trabalhos são expressos na forma dos valores das mercadorias, como um só e mesmo trabalho humano" (p.81).


B - Forma Extensiva do Valor

Quando pensamos em forma relativa do valor, pensamos numa mercadoria que produzimos e que exige a necessidade duma outra mercadoria que assuma a forma de equivalente da nossa. Mas a forma relativa pode se estender bem além de uma simples troca entre duas mercadorias. Trata-se da forma extensiva do valor relativo, expresso quando afirmamos que a mercadoria A é igual a B, que é igual a C, que é igual a D, e assim por diante. A partir desta acepção, entendemos que entre um conjunto de distintos valores de uso, temos o mesmo trabalho que lhe determina o valor e permite que elas sejam permutáveis, negociáveis. Essa forma extensiva se realiza quando "um produto de trabalho, gado, por exemplo, é trocado por outras mercadorias diferentes, não excepcionalmente, mas já em caráter habitual" (p.88).

Marx encontra, no entanto, defeitos no uso da forma extensiva como instrumento de mensuração do valor das mercadorias. O primeiro é o fato de que a expressão do valor neste caso fica incompleta (A=B'=C''=D'''...), uma vez que a série nunca se termina, e também porque essa forma "é um mosaico multifário de expressões de valor díspares, desconexas" (p.86).


C - Forma Geral do Valor

Quando chegamos à forma geral, significa entender que chegamos a um equivalente geral. Em outras palavras, se para cada mercadoria (valor relativo) pode haver um valor equivalente, torna-se possível também a existência de uma mercadoria que assuma a condição de equivalente geral, pela qual todas as demais mercadorias se tornam permutáveis. Em nossa sociedade, o equivalente geral é o dinheiro.



O Fetichismo da Mercadoria

Marx encerra o capítulo com uma análise sobre o fetichismo da mercadoria, isto é, uma manifestação da mercadoria que oculta aos olhos de seus produtores a própria atividade produtora. A primeira forma de combate a esse fetichismo é entender que toda mercadoria, sendo valor de uso, é criada a partir de um trabalho útil. "Os trabalhos úteis são funções do organismo humano, e cada uma dessas funções é essencialmente dispêndio de cérebro, de nervos, de músculos, de órgãos, de sentidos, etc... do homem" (p.93). O que Marx pretende aí dizer é que as mercadorias não têm qualquer propriedade natural, senão a que lhe é dada pelo homem, para seu próprio usufruto.

Esse fetichismo, segundo Marx, é o elemento que impede de entendermos a função do trabalho humano, e de entendermos que todo trabalho humano é expressão de um mesmo trabalho, uma mesma ação. "A igualdade completa de diferentes trabalhos só pode assentar numa abstração que põe de lado a desigualdade entre eles e os reduz ao seu caráter comum de dispêndio de força de trabalho humana, de trabalho humano abstrato" (p.95). No entanto, por força do fetiche, nos negamos a visualizar o trabalho nas coisas, e observamos apenas as coisas, e as relações entre elas, como sendo autônomas. "A igualdade dos trabalhos humanos fica disfarçada sob a forma da igualdade dos produtos do trabalho como valores." Dessa maneira, "as relações entre os produtores assumem a forma de relação social entre os produtos do trabalho" (p.94).

No contexto do capital, porém, o fetichismo não pode ser eliminado, uma vez que ele "está sempre grudado aos produtos do trabalho. É inseparável da produção de mercadorias" (p.94). Se considerarmos a mercadoria que assume a função de equivalente geral, o dinheiro, podemos afirmar, com base em Marx, que ela "dissimula o caráter social dos trabalhos privados e as relações sociais entre os produtores particulares, ao invés de pô-las em evidência".

Se afirmamos que essa condição é própria do contexto do capital, é porque antes as relações sociais não geravam qualquer fetichismo. "No regime feudal, as relações sociais revelam-se como relações pessoais, não se dissimulando em relações entre coisas, entre produtos do trabalho" (p.99). O resgate do homem, desse modo, assim como para combater fantasmas passados, é o fetiche religioso. Marx transita, ao final de seu texto, nessa seara, voltando a tratar do assunto ainda que superficialmente e bem menos que em seus primeiros trabalhos. Referenda, no entanto, o que já afirmava desde a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, ao reconhecer, já em O Capital, que "o reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas dos homens representarem relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza" (p.101). Assim seja.



*Grifo de Marx. Todos os demais grifos são nossos.

Obras de autores citados: Harnecker (Manual de Economia Política); Althusser (Para Ler O Capital); Borchardt (O Capital - Edição Resumida); Kosic (Dialética do Concreto)


domingo, 11 de agosto de 2013

Avanços da política industrial na Coreia do Norte

Espantaria os olhos ocidentais o avanço que tem a política industrial e, conectada a ela, a política de desenvolvimento da ciência e da tecnologia na Coreia do Norte. Isso só não acontece porque essa rica experiência socialista é sufocada na grande mídia dos Estados Unidos, prática também aplicada pelos seus sócios minoritários no Brasil.
Complexo Industrial de Kaesong
As dificuldades enfrentadas pelos nortecoreanos os obriga a aplicar uma política industrial de caráter estatal em sua totalidade, não abrindo margem para a iniciativa privada dentro do território, exceto a partir de parcerias que têm sido cautelosamente testadas. Uma delas é a abertura do Complexo Industrial de Kaesong, inaugurado há quase dez anos, e que está localizado próximo à fronteira com a Coreia do Sul. Nesse complexo, é admitida a presença de grandes empresas privadas do Sul, e a cooperação entre os dois países tem surtido efeito tanto na tecnologia de ambos quanto na oferta de empregos: nesse complexo, trabalham nada menos que 50 mil pessoas.
Laboratório de Vitamina C recém-construído
No entanto, esse não é a única região onde se desenvolvem projetos avançados. Em Sunchon, situada ao norte da capital Pyongyang, estão o Complexo Químico, a recém-construída fábrica de Vitamina C e o Complexo de Cimento, uma das bases mais importantes do país, e, especialmente no caso do cimento, tem passado por uma rápida elevação de produtividade para dar conta das obras que não param em todo o território. Uma dos setores com maior demanda é a construção civil imobiliária, motivada pela crescente demanda por mais habitação no país. Um gigantesco condomínio aberto está sendo construído pelo governo para atender às necessidades do povo de Pyongyang e Hamhung, e, além dele, conjuntos de apartamentos para cientistas nas cidades industriais.
Gerar energia suficiente para abastecer o país fica, sobretudo, a cargo do Complexo Termelétrico de Pyongyang, além do qual os nortecoreanos dispõem de sua já reconhecida tecnologia nuclear. Há também a Companhia Mixta Ltda. de Equipamentos Elétricos para oferecer suporte material ao Complexo Termelétrico da capital.
Projeto da nova fábrica da PyeongHwa Motors,
na cidade de Nampo
Por fim, podemos chamar atenção para um próximo empreendimento industrial, desta vez no ramo automobilístico, que é a construção de uma nova fábrica da PyeongHwa Motors, uma joint venture com uma montadora sulcoreana, mais um exemplo de parceria industrial entre as duas Coreias.
É preciso valorizar os avanços mas sempre ter em conta que a experiência do socialismo nortecoreano tem sido, desde a derrocada da União Soviética, construída sobre um terreno bastante pantanoso, gerado sobretudo pela política de bloqueio comercial criminoso a esse país, o que faz com que não reste à Coreia qualquer alternativa de crescimento que não passe por investimentos próprios. Aqui cabe compreender que, apesar de se configurar como um país socialista, empreender um projeto de edificação de um novo modo de produção sendo alijado de artifícios de extrema importância (ou mesmo imprescindíveis, do ponto de vista das leis econômicas) faz com que o fardo sobre os ombros da Coreia do Norte sejam bastante pesados. A China e, em menor escala, o Vietnã, têm dado mostras de como uma experiência socialista em estágio primário pode ter uma economia bastante dinâmica, sabendo oferecer concessões ao capital privado, resguardando-se sempre o controle da economia e de todos os setores estratégicos, além da manutenção do poder político. Ambos os países crescem entre 6 e 9% há anos, enquanto os coreanos crescem entre 1,5 e 3%, o que não chega a ser mal, mas demonstra que o desenvolvimento pleno das forças produtivas - condição necessária para a consecução do projeto socialista - ainda está distante.
Condomínios populares em construção
A Coreia do Norte, por circunstâncias que estão além de sua escolha, no entanto, permanece sem essa alternativa já tentada nos países socialistas irmãos, e que dá seus passos em Cuba. No caso dos nortecoreanos, mesmo as vestimentas populares precisam ser produzidas no país - tarefa que fica a cargo da corporação Moran Aeguk, fundada em 1986 -, e embora as possibilidades de cooperação internacional possam ser revitalizadas no futuro, até lá é importante ter ciência de que a Coreia tem dado conta do recado.


Fontes: