Qualquer análise científica precisa de duas coisas para se afirmar como tais no processo. A primeira delas são os instrumentos por meio dos quais se edificará a pesquisa; a segunda, mas não menos importante, é o método utilizado. Se falarmos das ciências sociais em geral, não há variante nessa regra, porque são, por definição, científicas. Neste campo do conhecimento, os instrumentos de trabalho por excelência são os conceitos e categorias, além de outros recursos técnicos. Somente com eles, contudo, não se pode ir muito longe. É preciso, naturalmente, que se esteja munido de um método. Neste esboço em particular, nossa proposta é discorrer sobre algumas linhas gerais do método dialético.
O método dialético de que falamos e que ora aplicamos é o que Karl Marx (1983; 2010) desenvolve no conjunto de seus trabalhos, e que explica apenas de maneira esparsa em alguns de seus textos. Deve-se admitir que não há, por isso, um consenso acerca de como o método deve ser usado. No entanto, isso é uma questão menor, e possivelmente o problema mais afirmativo não reside nos dissensos sobre a dialética, mas muito mais num mau uso que dela se faz. Há muitos pretensos marxistas que se põem a analisar a realidade com os olhos da lógica formal, e, por isso mesmo, limitada. Esse recurso essencialmente positivista representou um largo avanço no alvorecer das ciências sociais, mas agora impõe obstáculos à apreensão da realidade que uma análise de caráter dialético teria condições de alcançar.
No pouco que escreveu acerca do tema, Marx deixa claro o uso de algumas categorias por meio das quais se pode fazer uma análise dialética. Dentre elas se destacam as categorias de totalidade, concreto e abstrato. Marx descreve a sua experiência particular como pesquisador para, a partir daí, oferecer o entendimento acerca de como ele pensa esse método. Quando ainda olhava o mundo pelo prisma da Filosofia do Direito foi que se deparou com o problema dos camponeses no Vale do Reno, que mantinham o hábito já tradicional de recolher lenha nas florestas, quando de repente o Estado determina que aquele território passa a ser subordinado a um outro regime de propriedade - uma propriedade privada. De uma hora para outra, o que era um direito consuetudinário se torna um crime, e os camponeses - que, vivendo numa região fria, precisavam de lenha para sobreviver - passam a ser penalizados por isso. Marx toma posição ao lado deles, por entender que são o elo mais fraco, mas sua visão de mundo, ainda moldada pelo idealismo metafísico, logo dará demonstrações de que ele não teria como compreender aquele fenômeno pelo prisma do Direito ou da Moral. Não adiantava defender os camponeses afirmando que era errado o que o Estado fizera - já estava feito, afinal. Marx entendia, assim, que a realidade exigia uma apreensão muito mais minuciosa, e logo após tomará contato com a Economia Política e a ela se dedicará pelas décadas seguintes. Não se trata, aqui, de uma defesa pueril da Economia Política como instrumento supostamente superior à Filosofia para se analisar o mundo, mas exatamente uma defesa do estudo da realidade material como única forma de se alcançar a compreensão final do fenômeno.
O movimento feito por Marx, de se retirar para os gabinetes e dedicar-se aos estudos, dá uma noção didática de como funciona o método dialético. Partir do concreto é uma premissa essencial, porque o concreto em questão é o fenômeno observado que precisa ser investigado; a partir daí se alcança o abstrato, isto é, confronta-se os elementos da realidade estudada com as categorias primordiais da dialética e da concepção com a qual se trabalhe. É aqui que entram, numa análise marxista, os conceitos de modo de produção, de formação social, de infraestrutura e superestrutura, de classe, entre outros mais, num gesto que gradativamente retorna ao concreto, desta vez como realidade apreendida, isto é, como fenômeno e como essência, a unidade básica da realidade, o que se chama de a "coisa em si", que, segundo Kosic (1995, p.15), não se manifesta ao homem de forma imediata, mas sim "de modo inadequado, parcial, ou apenas sob certos ângulos e aspectos".
Desse método se depreende que o concreto-empírico, isto é, a realidade que antes se apresentava ao investigador, transforma-se, após o confronto com o abstrato, em concreto-pensado, a realidade idealmente reproduzida. Essa transição requer um exame rigoroso, que já parte de um resultado - afinal, cada fenômeno que se pretende analisar é escolhido arbitrariamente pelo cientista, a partir de critérios por ele - ou por alguém em seu nome - determinados. Esse poder do cientista social em determinar o objeto de sua investigação, contudo, não deverá existir quando se trata da exposição do resultado final de sua pesquisa, afinal é a própria investigação que deverá indicar que rumos tomará a análise, indicando, no estudo daquele fenômeno, qual de seus elementos é essencial e quais são os elementos acessórios. Assim, o método de investigação é definido pelo próprio investigador, mas é a própria pesquisa que indicará o método de exposição. É por isso que Marx, ao invés de iniciar O Capital com um panorama histórico da ascensão do capitalismo (método de exposição largamente utilizado atualmente) decide iniciar exatamente pela mercadoria, que ele considera ser o capitalismo decomposto na sua menor parte. Somente depois de explicar o funcionamento da sociedade capitalista ele se preocupará em explicar como ela surge.
Essa é a única maneira de compreender as coisas em sua essência. Analisar os fenômenos apenas com base nas experiências significa incorrer em frequentes contradições, pois essas coisas, destituídas de essência, tenderão a se expor de forma enganadora. Por outro lado, tão enganoso quanto restringir-se às experiências é restringir-se ao abstrato, tentando enquadrar a realidade em noções pré-concebidas, submetendo o empírico ao teórico, grosseiramente. "O princípio fundamental da dialética é: não existe verdade abstrata, a verdade é sempre concreta" (Lênin, 1986, p.367).
É preciso repetir que os instrumentos conceituais e técnicos (como dados, recursos documentais, etc) não podem ser confundidos com o método. Instrumentos e técnicas de pesquisa são imprescindíveis para que se possa apoderar-se da realidade material estudada, mas "podem servir (e de fato servem), em escala variada, a concepções metodológicas diferentes" (Netto, 2011, p.26). Compreendendo-se essa ressalva, a pesquisa se constrói e, ao final, se expõe, ainda que esse resultado final, pela própria natureza científica, será apenas (e sempre) provisória, sujeita a correções, abandonos, retificações, etc.
O método dialético torna-se, assim, um instrumento poderoso para o entendimento da realidade; um entendimento, na medida do possível, livre de preconceitos, julgamentos morais e outras manifestações pseudoconcretas (Kosik) de observação do real. Este método afirma o existente, apreende as formas em que se configura o devir. Livra-nos das interpretações equivocadas que vislumbram o contingente como necessário, o singular como geral, o consequente como o causal, o fenomênico como o essencial - e, ao final, apresenta-nos a realidade como totalidade concreta, como deve ser.
Obras de referência:
Karl Marx, Contribuição à Crítica da Economia Política (1983) e O Capital (2010);
Karl Marx, Contribuição à Crítica da Economia Política (1983) e O Capital (2010);
Karel Kosik, Dialética do Concreto (1995);
Lênin, Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás (1986);
José Paulo Netto, Introdução ao Estudo do Método de Marx (2011)

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