Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Notas dialéticas

Lukács diz que os existencialistas pensam que salvam e elevam a liberdade ao falar de uma "derrelição" do homem na liberdade (conceito de Heidegger), ou quando dizem que ele está "condenado" à tal da liberdade (perspectiva de Sartre). Realmente, se a liberdade não está fundada na socialidade do homem, se não se desenvolva a partir daí, mesmo que por meio de um salto, é um mero fantasma. Se o homem, afinal, não tivesse criado a si mesmo - por meio do trabalho - como ente genérico-social, e caso a liberdade não fosse fruto de sua própria atividade, seu autocontrole diante de sua própria constituição orgânica, não poderia, então, haver nenhuma liberdade real. A liberdade adquirida no trabalho originário era, pela sua natureza, limitada, primitiva; o que não altera o fato de que mesmo a liberdade mais altamente espiritualizada deve ser conquistada com aqueles mesmos métodos com que se conquistou a do trabalho mais primitivo. Seu resultado, não importando o grau de consciência, tem, numa última análise, o mesmo conteúdo: isto é, o poder, o domínio do indivíduo genérico sobre aquilo que constitui sua própria singularidade particular, puramente natural. Nesse sentido, concordo com Lukács que o trabalho (é claro; não o trabalho profissional, mas deter as condições de reprodução da própria vida) é que pode ser de fato entendido como modelo de toda e qualquer liberdade...

sábado, 10 de maio de 2008

Capítulo II - Como nasce o capital

Observando atentamente aquela fórmula do capital (D---M---D1---M---D2---M---D3-...), chega-se à conclusão de que a questão da origem do capital se resolve, em última análise, nesta outra questão: encontrar uma mercadoria que dê mais dinheiro do que se gastou em sua compra. Em outras palavras, encontrar uma mercadoria que, em nossas mãos, possa aumentar de valor, de tal modo que, vendendo-a, se possa ganhar mais dinheiro. Portanto, deve ser uma mercadoria bastante elástica para ser capaz de aumentar o seu valor (a sua grandeza de valor). Esta mercadoria tão singular existe: é a força de trabalho.

Aí está. O homem do dinheiro acumulou riqueza e quer dessa riqueza criar um capital. Ele chega ao mercado com o endereço certo: comprar força de trabalho. Vamos segui-lo! Ele anda pelo mercado e dá de cara com o operário, que está ali exatamente para vender sua única mercadoria: a força de trabalho. Mas o operário não vende a sua mercadoria de uma só vez e para sempre. Ele vende a sua força de trabalho em parte, por um dado tempo, um dia, um mês, etc. Se o operário vendesse sua força, sua capacidade de trabalho inteiramente, não seria mais um mercador e se transformaria ele mesmo, sua pessoa, em mercadoria; não seria mais um assariado, e sim um escravo do seu patrão. Não é o que ocorre.

O preço da força de trabalho se calcula da seguinte maneira: tomam-se preços de alimentos, da roupa, da habitação, enfim, de tudo que é necessário ao trabalhador para manter sua força de trabalho durante o ano e sempre em seu estado normal. Acrescenta-se, a esta primeira soma, o preço de tudo que é necessário ao trabalhador para procriar, alimentar e educar seus filhos, segundo sua condição; depois divide-se o total pelos dias do ano - 365 -, e se saberá quanto, por dia, é necessário para manter a força de trabalho, o seu preço diário, que é o salário do operário. O que o trabalhador precisa para procriar, alimentar e educar os seus filhos entra neste cálculo, porque os filhos do trabalhador representam a continuação da força de trabalho. Assim, se o operário vendesse por inteiro a sua força de trabalho, não apenas ele, mas também seus filhos seriam escravos do patrão, eles seriam também mercadoria. Porém, como assalariado, ele tem o direito de conservar todo o resto, que se encontra parte nele e parte nos seus filhos.

Com aquele cálculo, obtivemos o preço exato da força de trabalho. A lei das trocas, como vimos no capítulo an terior, diz que uma mercadoria não pode ser trocada por outra se não tiverem o mesmo valor; isto é, se o trabalho que se requer para produzir uma não for igual ao trabalho que se requer para a produção da outra. ora, o trabalho que se exige para produzir o que é necessário ao trabalhador é igual ao valor da sua força de trabalho; se o trabalhador necessita de 25 reais por dia para comprar todas as coisas que lhe são necessárias, logicamente 25 reais será o preço diário de sua força de trabalho.

Pois bem. Sem alterar em nada o que falamos até aqui, podemos supor que o salário diário de um operário alcance os 25 reais. Suponhamos, ainda, que em apenas um turno (4 horas de trabalho) sejam produzidas 15 gramas de prata, que equivalem aos 25 reais. Agora, voltemos ao mecado.

Lá, enquanto isso, o homem do dinheiro fez um contrato com o proprietário da força de trabalho, pagando por ela o seu preço justo de 25 reais diários. Ele é um burguês muito honesto e, além disso, muito religioso, incapaz de especular com a mercadoria do operário (a força de trabalho). Nem é necessário dizer que o salário do operário só vai ser pago no fim do dia, ou da semana, ou do mês. Enfim, só depois que ele trabalhou, depois que ele produziu, é que ele recebe o salário. É o que acontece também com outras mercadorias, cujo valor se realiza no uso, como é, por exemplo, o caso de uma casa ou do arrendamento de uma terra, cujo preço precisa ser pago de acordo com o prazo estabelecido.

Estes são os três elementos do processo de trabalho:

1° - Força de trabalho;
2° - Matéria prima;
3° - Meios de trabalho.

Bem, voltando ao nosso homem do dinheiro: depois de comprar a força de trabalho, comprou também a matéria prima, no caso, algodão; os meios de trabalho, isto é, a fábrica com todos os instrumentos e condições de trabalho já estão perfeitamente preparados. E agora, diz ele, saindo apressado do mercado:

- Mãos à obra!

Uma certa transformação parece ter-se dado na fisionomia dos personagens de nosso drama. O homem do dinheiro toma a dianteira, na qualidade de capitalista; o proprietário da força de trabalho segue-o, como seu trabalhador. Aquele, com a aparência honrada, satisfeita e atarefada; o outro, tímido, hesitante, com a sensação de quem vendeu a própria pele no mercado e que não pode esperar outra coisa senão... ser esfolado.

Enfim, chegam à fábrica. O capitalista se apressa em botar o seu operário para trabalhar, entregando-lhe dez quilos de algodão. Antes que eu me esqueça, esse operário é fiandeiro, produz fios de algodão.

É consumindo os seus três elementos (a força de trabalho, a matéria prima e os meios de trabalho) que o trabalho se realiza.

O consumo dos meios de trabalho calcula-se do seguinte modo: da soma do valor de todos os meios de trabalho - o prédio, suas instalações, as ferramentas, o óleo, o carvão, etc. - subtrai-se a soma do valor dos meios de trabalho consumida no processo de trabalho; divindo o resultado desta subtração pelo número de dias que os meios de trabalho possam durar, temos o consumo diário dos meios de trabalho.

Parece complicado, não? Vamos repetir isso, exemplificando com números:

Suponhamos que os meios de trabalho (a fábrica com suas instalações, máquinas, ferramentas, etc.) devam durar 10 anos, ou 3650 dias. Por todos esses meios de trabalho, o capitalista desembolsou, por exemplo, R$ 146.300,00; dividindo essa quantia por 3650 dias, temos R$ 40,00, que corresponde ao consumo diário dos meios de produção.

O nosso operário trabalhou durante toda uma jornada de 8 horas. Ao final dessa jornada, ele transformou os 10 quilos de algodão bruto em 10 quilos de fio; entregou-os ao patrão e deixou a fábrica, retornando para casa. No caminho, como todo operário, ele vai fazendo as contas, para saber quanto seu patrão poderá ganhar com aqueles dez quilos de fio. Ele não sabe exatamente quanto custa o fio, mas, de qualquer modo, faz a conta. O algodão cru, ele mesmo viu o patrão comprando no mercado: R$ 30,00 por quilo. Todas as suas ferramentas podem ter um consumo, digamos, de R$ 40,00 por dia. Bem:


10 quilos de algodão............................................. R$ 300,00
Desgaste diário dos meios de produção.................. R$ 40,00
Força de trabalho do operário................................. R$ 25,00

Total dos 10 quilos de fio........................................ R$ 365,00 (soma dos três ítens acima)



Observemos agora esses gastos do patrão e pensemos sobre como ele poderia lucrar tendo todos esses gastos. Certamente, sobre o algodão o patrão não ganhou nada: pagou o seu justo preço, nem um centavo a mais, nem um centavo a menos; do mesmo modo, ele comprou a força de trabalho do operário, pagando seu justo preço de R$ 25,00 por dia.

Qual seria o meio para o capitalista lucrar?

Depois de vermos o operário com seus cálculos, vejamos agora como o burguês, modelo de exatidão e ordem, acertou todas as suas contas do dia. Inicialmente, percebamos como ele calculou o preço dos seus dez quilos de fio:


10 quilos de algodão a 30 reais o quilo................... R$ 300,00
O consumo das ferramentas de trabalho................. R$ 40,00



Eis aí os dois primeiros elementos de cálculo. A matéria prima e os meios de produção. Mas e a força de trabalho?

Quanto a este terceiro elemento, que entrou na formação de sua mercadoria e que é o salário pago ao operário, o patrão nada assinalou. Isso porque conhece muito bem a diferença que há entre o preço da força de trabalho e o preço do produto da força de trabalho. O salário de uma jornada representa o necessário para manter o operário em 24 horas, mas não representa de fato o que o operário produziu em uma jornada de trabalho. O nosso homem do dinheiro sabe perfeitamente que os 25 reais de salário que ele paga representam a manutenção de seu operário por vinte e quatro horas, e não o que este produziu nas oito horas de trabalho em sua fábrica. O capitalista sabe tudo isso, exatamente como o agricultor sabe a diferença que existe entre o que é a manutenção de uma vaca com seus currais, alimentação, etc., e o que essa vaca produz em termos de leite, queijo, manteiga, etc.

A força de trabalho tem a propriedade singular de render mais do que custa e é por isso que o homem do dinheiro foi buscá-la no mercado. E o operário não pode reclamar, porque o patrão pagou o justo preço pela sua mercadoria. A lei de trocas foi rigorosamente observada. Além do que, o operário não tem que se meter no uso que o comprador fará de sua mercadoria, não é verdade?, da mesma maneira que o dono do mercadinho nada tem a ver com o uso que seu freguês dá às mercadorias que lhe compra.

No início da postagem, supusemos que em 4 horas de trabalho se produzem 15 gramas de prata, equivalente a 25 reais. Ora, se em 4 horas a força de trabalho produz um valor de 25 reais, então em 8 horas produzirá, portanto, um valor de 50 reais. O fato de um ser prata e outro ser algodão nada tem a ver com a questão. Apenas nos atemos aqui ao valor que é produzido pela força de trabalho. Em 4 horas, produz 25 reais, que é o salário diário do operário. Em 8 horas, produz 50 reais.

Assim, o valor dos 10 quilos de fio passa a ser calculado desse modo:

10kg de algodão cru, a R$ 30,00 o quilo......................... R$ 300,00
Consumo dos meios de trabalho.................................... R$ 40,00
8 horas da força de trabalho........................................... R$ 50,00
Total............................................................................. R$ 390,00


O homem do dinheiro, depois de ter gasto 365 reais, obteve uma mercadoria que vale 390 reais. Conseguiu, portanto, embolsar 25 reais. Justo os 25 reais apropriados do salário do trabalhador. O dinheiro do patrão, enfim, deu cria.

Pronto, resolvemos o problema: o capital acaba de nascer.



sábado, 3 de maio de 2008

Prefácio e capítulo I - Mercadoria, riqueza, dinheiro e capital

Com esta postagem, abrimos a seção especial de publicações de Compêndio de O Capital. Abaixo, segue uma apresentação do elaborador principal deste resumo, e logo mais o primeiro capítulo. Em uma semana virá a continuação.



Sentia uma tristeza profunda, estudando O Capital, ao pensar que este livro era e é, sabe-se lá até quando, inteiramente desconhecido...

Mas se as coisas estão nesse pé, dizia a mim mesmo, não devo poupar esforços para mudar essa situação. Mas, o que fazer? Uma tradução? Droga! Isso não adiantaria nada. É para outro tipo de pessoa que devo trabalhar. E essas pessoas se dividem em tres categorias: a primeira, composta pelos trabalhadores inteligentes e com alguma instrução; a segunda, pelos jovens nascidos na classe média, mas que lutam pela causa dos trabalhadores e não têm ainda a suficiente formação, nem o desenvolvimento intelectual para compreender O Capital; a terceira, finalmente, é essa moçada de escola, ainda quase criança, que se pode comparar com uma árvore que pode dar bons frutos, se transplantada para um terreno propício. Meu trabalho deve ser, portanto, um resumo fácil e curto do livro de Marx.

O Capital de Marx é demolidor: é a verdade nova que arrasou e dispersou ao vento todo um castelo secular de erros e mentiras. Uma verdadeira guerra! Uma guerra gloriosa pela força do inimigo, e pela força ainda maior do comandante que a empreendeu com uma imensa quantidade de novíssimas armas, instrumentos e máquinas de todo o tipo, que o seu gênio soube extrair de toda ciência moderna.

Incomparavelmente muito mais modesta é a minha missão. Devo apenas conduzir uma tropa de voluntárias ardorosos por uma estrada mais fácil e rápida para o templo do capital e destruir esse deus, para que todos o vejam com os próprios olhos e o toquem com as próprias mãos nos elementos que o compõem. Arrancaremos as vestes dos seus sacerdotes para que todos possam ver as manchas de sangue humano que escondiam e as armas crueis que usam para sacrificar um número crescende de vítimas.

É com estes propósitos que me ponho a trabalhar. Possa Marx cumprir a sua promessa, dando-nos o segundo volume de O Capital, que tratará da circulação e das diferentes formas que o capital assume no seu desenvolvimento, e também o terceiro volume que tratará da história da teoria.

(...) Todos devem ler este livro e maduramente refletir sobre ele, porque nele está não somente a história do desenvolvimento da produção capitalista, mas também é o Martirológico do Trabalhador.

(...) Se nós lermos e meditarmos sobre a história da Inglaterra, referida nas páginas deste livro, se meditarmos sobre a acumulação capitalista que tem tomado forma em nosso ambiente de convívio nessas capitais brasileiras, agravada pela usurpação dos bens eclesiásticos e dos bens públicos, se sacudirmos essa apatia que oprime a sua mente e o seu coração, nos convenceremos, de uma vez por todas, que a nossa causa é unitária, é a causa dos trabalhadores, porque para eles a moderna acumulação capitalista não deixou mais do que essa triste condição: ou se vender por um salário de fome ou desaparecer para sempre na densa massa do proletariado.

C. C.





* * *

Capítulo I - Mercadoria, dinheiro, riqueza e capital


A mercadoria é um objeto que tem um duplo valor: valor de uso e valor de troca (que é o valor propriamente dito). Se tenho, por exemplo, 20 quilos de café, eu posso tanto consumi-los para meu próprio uso quanto trocá-los por 20 metros de tecido, por uma roupa, ou por 250g de prata, se, em vez de café, eu precisar de uma dessas três outras mercadorias.


O valor de uso da mercadoria se baseia na sua qualidade própria: se ela é para beber, para comer, para divertir, etc. Portanto, essa qualidade é determinada para satisfazer uma determinada necessidade nossa e não fazer qualquer outra de nossas necessidades. O valor de uso dos 20kg de café é baseado nas propriedades que o café possui e essas propriedades são tais que nos dão a bebida café, mas não prestam para fazer uma roupa ou qualquer outra coisa. É por isso que só podemos tirar proveito do valor de uso dos 20kg de café se sentirmos a necessidade de beber café. Mas, se, ao contrário, eu precisasse de uma camisa e não dos 20kg de café que tenho em mãos? O que fazer? Não saberíamos, se a mercadoria não tivesse em si, junto com o valor de uso, também um valor de troca. Encontramos então uma pessoa que tem uma camisa e da qual não tem necessidade, mas ela está precisando do café. Então fazemos uma troca. Eu lhe dou 20kg de café e ela me dá a camisa...

Porém, como podem as mercadorias de propriedades tão diferentes entre si, serem trocadas umas pelas outras em determinadas proporções?

Isso ocorre porque a mercadoria, além do valor de uso, tem também o valor de troca. Isso nós já sabíamos pelo exposto acima. O que não sabíamos era que a base do valor de troca, do valor propriamente dito, é o trabalho humano necessário para se produzir essas mercadorias. A mercadoria é produzida pelo trabalhador. Portanto, o trabalho humano é a substância procriadora; é o trabalho que dá existência à mercadoria. Em sua essência, embora de propriedades tão diversas entre si, todas as mercadorias são a mesma coisa, perfeitamente iguais, porque, filhas de um mesmíssimo pai, têm todas o mesmíssimo sangue em suas veias. Se trocarmos 20kg de café por uma camisa ou 20m de tecido, é porque para se produzir 20kg de café, precisou-se de tanto trabalho humano quanto para a produção de uma camisa ou de 20m de tecido. Trocou-se uma camisa por tanto de trabalho humano materializado em 20kg de café, assim como trocaram-se os 20kg de café por tanto de trabalho humano materializado em uma camisa. Ou seja, trocou-se o trabalho por trabalho. Trabalho para produzir o café por trabalho para produzir a camisa. A substância do valor da mercadoria está no trabalho humano e a grandeza desse valor é determinada pela grandeza do trabalho humano. Ora, se a substância de valor é a mesma em todas as mercadorias e isto quer dizer que todas as mercadorias como veículos do valor são iguais e trocáveis entre si, o que nos resta, portanto, é comparar o tamanho dessa grandeza, medi-la.

A grandeza do valor depende da grandeza do trabalho; e qual é a medida do trabalho? O tempo: hora, dia, semana, mês, etc. Em 12 horas de trabalho se produz um valor duas vezes maior do que se produziria em 6 horas. Daí, alguém poderia dizer que quanto mais lento fosse um trabalhador, seja por inabilidade ou por preguiça, mais valor este produziria. Nada mais falso do que esta afirmação, pois o trabalho de que estamos falando e que dá substância ao valor, não é o trbalaho de Pedro ou de Paulo, e sim o trabalho médio de vários trabalhadores interconectados e que é propriamente chamado de trabalho social. É o trabalho que, em determinado centro de produção (como uma fábrica), pode ser feito em média por um operário, o qual trabalha com uma habilidade média e uma intensidade média.

Conhecido o duplo caráter da mercadoria (isto é, o caráter de ser valor de uso e o caráter de ser valor de troca), compreendemos que a mercadoria só pode nascer por obra do trabalho, e de um trabalho útil a todos. Por exemplo, o ar, os prados naturais, a terra virgem, etc., são úteis ao homem, mas não constituem nenhum valor, porque não são produtos de seu trabalho e, consequentemente, não são mercadorias. Também podemos fabricar objetos para o nosso próprio uso, mas que não podem ser úteis a outros; nesse caso, não produzimos mercadorias; do mesmo modo não produzimos mercadoria quando trabalhamos com coisas que não têm utilidade nenhuma para nós, nem para os outros.

As mercadorias, pois, são trocadas entre si; uma se apresenta como equivalente da outra. Para maior facilidade das trocas, começa-se - lá atrás na história - a empregar uma determinada mercadoria como equivalente para todas as outras. Esta mercadoria se destaca do conjunto de todas as outras para se colocar frente a elas como equivalente geral, isto é, como dinheiro. Por isso, o dinheiro é aquela mercadoria que, pelo costume e por determinação legal, monopolizou o posto de equivalente geral. Assim, o dinheiro, a moeda, chegou até nós através da prata. Enquanto antes, 20kg de café, uma camisa, 20m de tecido e 250g de prata eram quatro mercadorias que se trocavam indistintamente, hoje, ao contrário, tem-se que 20kg de café, uma camisa, 20m de tecido e 250g de prata valem, cada uma, o mesmo que a outra, ou seja, por exemplo, 60 reais.

Mas, seja através das mercadorias diretamente, seja através do dinheiro, a lei de trocas permanece a mesma, sempre. Uma mercadoria só pode ser trocada por outra se o seu valor de troca for igual. E todo que vamos dizer de agora em diante é baseado nela, nessa lei de troca de mercadorias.

Com a chegada do dinheiro, da moeda, as trocas diretas ou imediatas de uma mercadoria por outra desapareceram. Agora, todas as trocas devem ser feitas através do dinheiro. Desse modo, qualquer mercadoria que queira se transformar em outra, deve, antes de mais nada, como mercadoria, transformar-se em dinheiro, e depois, como dinheiro, retransformar-se em mercadoria. Portanto, o esquema das trocas não será mais uma cadeia de mercadorias - duas abóboras X uma melancia X cinco pães, por exemplo - e sim, uma cadeia de mercadoria e dinheiro. Ei-la:


Mercadoria --- Dinheiro --- Mercadoria --- Dinheiro

M ----- D ----- M ----- D


Ora, se nesta fórmula assinalamos os giros que a mercadoria realizou, assinalamos também os giros do dinheiro. Como veremos, é desta fórmula que sai a fórmula do capital.

Quando temos em nossas mãos uma certa quantidade de mercadorias ou de dinheiro (o que no caso vem a dar no mesmo), somos possuidores de uma certa riqueza. Se a gente pudesse dar a esta riqueza um corpo - considerando que o corpo é um organismo que se desenvolve, que se alimenta -, então teríamos o capital. Ter um corpo ou organismo capaz de se desenvolver, significa nascer e crescer. É nesse desenvolvimento que a origem do capital parece desaparecer, na natureza fecunda do dinheiro.

Mas de que maneira nasce o capital?

Naquela fórmula que assinala os giros da mercadoria e do dinheiro, vamos acrescentar ao dinheiro um número que indica seu aumento progressivo (um aumento, portanto, na riqueza de seu possuidor):


Dinheiro --- Mercadoria --- + Dinheiro --- Mercadoria --- ++Dinheiro --- Mercadoria --- +++Dinheiro...


E é exatamente essa a fórmula do capital:


D --- M --- D¹ --- M --- D² --- M --- D³ --- ...


Como vimos, a resposta ao problema (encontrar um método de fazer nascer o capital) estava contida na resolução de outro problema: encontrar uma fórmula de aumentar progressivamente o dinheiro.

E como o capitalista consegue isso? É o nosso próximo capítulo.



sexta-feira, 2 de maio de 2008

A partir desta semana e por mais três meses, este blog apresentará todos os capítulos do livro Compêndio de O Capital, um resumo da obra clássica de Karl Marx escrita pelo argentino Carlo Cafiero e considerada pelo próprio Marx como a melhor síntese de sua obra clássica e primordial*. A proposta é facilitar o acesso de interessados, críticos e, especialmente, estudiosos de primeira viagem, a alguns conceitos fundamentais do pensamento econômico de Marx, que traz em si os baluartes para compreensão de sua proposta política e filosófica.

Esta obra, dividida em dez capítulos acrescidos da conclusão, pretende repassar o olhar de Marx sobre conceitos como valor, alienação, acumulação de capital, mais-valia e outros de forma didática e instrutiva, em textos relativamente curtos, mas bastante elucidativos. Deve-se ressaltar, entretanto, que o conhecimento é um edifício em eterna construção, e o que o blog tenciona é apenas dar um impulso a mais nos estudos marxistas, o que não elimina, em caso algum, a necessidade imprescindível de aprofundarmos nossos estudos, tanto no próprio livro O Capital original, como em outros livros de Marx e de outros revolucionários que desenvolveram sua teoria.

O blog convida os leitores a, após a leitura de cada capítulo (seja on ou off-line; aqueles que não têm acesso a internet podem salvar e/ou imprimir, pois dá poucas páginas por semana), apresentar na caixa de comentários, as suas críticas e dúvidas, sejam dúvidas simples ou mais fundamentadas, quanto aos temas em discussão, e faremos o possível para prestar todos os esclarecimentos para que a ciência marxista seja absorvida da melhor maneira.

Deve-se ter em conta que o conhecimento absorvido nas leituras deve estar sempre afinado com um olhar sobre a realidade para que não percamos de vista o elo de teoria e prática como sustentáculo indissociável de todo revolucionário. A teoria nunca deve ser vista como fim em si; aliada a ela, devemos reconhecer a prática como o critério da verdade.



Seguem abaixo os dez capítulos e as datas em que serão publicados:

I - Mercadoria, dinheiro, riqueza e capital (3 de maio)
II - Como nasce o capital (10 de maio)
III - A jornada de trabalho (17 de maio)
IV - A mais-valia relativa (24 de maio)
V - Cooperação (31 de maio)
VI - Divisão do trabalho e manufatura (14 de junho)**
VII - Máquina e grande indústria (21 de junho)
VIII - O salário (28 de junho)
IX - A acumulação do capital (5 de julho)
X - A acumulação primitiva (12 de julho)
Conclusão (19 de julho)
Carta de Carlo Cafiero a Karl Marx; resposta de Marx a Cafiero (26 de julho)


Após todas as postagens publicadas, elaborarei um arquivo pdf com todo o livro digitalizado, agregado de comentários dos leitores acrescidos de possíveis esclarecimentos que venham a surgir.

Amanhã será publicado o primeiro capítulo junto com o breve prefácio.

Saudações socialistas!

Método Dialético Aplicado


* O compêndio abrange apenas o Livro Primeiro d'O Capital (O processo de produção do capital). Além deste livro, há outros dois: O processo de circulação do capital e O processo global da produção capitalista.

**
Como estarei envolvido em um congresso nesse período, haverá um intervalo de duas semanas, e não somente uma, até a publicação deste capítulo.