Com esta postagem, abrimos a seção especial de publicações de Compêndio de O Capital. Abaixo, segue uma apresentação do elaborador principal deste resumo, e logo mais o primeiro capítulo. Em uma semana virá a continuação.
Sentia uma tristeza profunda, estudando O Capital, ao pensar que este livro era e é, sabe-se lá até quando, inteiramente desconhecido...
Mas se as coisas estão nesse pé, dizia a mim mesmo, não devo poupar esforços para mudar essa situação. Mas, o que fazer? Uma tradução? Droga! Isso não adiantaria nada. É para outro tipo de pessoa que devo trabalhar. E essas pessoas se dividem em tres categorias: a primeira, composta pelos trabalhadores inteligentes e com alguma instrução; a segunda, pelos jovens nascidos na classe média, mas que lutam pela causa dos trabalhadores e não têm ainda a suficiente formação, nem o desenvolvimento intelectual para compreender O Capital; a terceira, finalmente, é essa moçada de escola, ainda quase criança, que se pode comparar com uma árvore que pode dar bons frutos, se transplantada para um terreno propício. Meu trabalho deve ser, portanto, um resumo fácil e curto do livro de Marx.
O Capital de Marx é demolidor: é a verdade nova que arrasou e dispersou ao vento todo um castelo secular de erros e mentiras. Uma verdadeira guerra! Uma guerra gloriosa pela força do inimigo, e pela força ainda maior do comandante que a empreendeu com uma imensa quantidade de novíssimas armas, instrumentos e máquinas de todo o tipo, que o seu gênio soube extrair de toda ciência moderna.
Incomparavelmente muito mais modesta é a minha missão. Devo apenas conduzir uma tropa de voluntárias ardorosos por uma estrada mais fácil e rápida para o templo do capital e destruir esse deus, para que todos o vejam com os próprios olhos e o toquem com as próprias mãos nos elementos que o compõem. Arrancaremos as vestes dos seus sacerdotes para que todos possam ver as manchas de sangue humano que escondiam e as armas crueis que usam para sacrificar um número crescende de vítimas.
É com estes propósitos que me ponho a trabalhar. Possa Marx cumprir a sua promessa, dando-nos o segundo volume de O Capital, que tratará da circulação e das diferentes formas que o capital assume no seu desenvolvimento, e também o terceiro volume que tratará da história da teoria.
(...) Todos devem ler este livro e maduramente refletir sobre ele, porque nele está não somente a história do desenvolvimento da produção capitalista, mas também é o Martirológico do Trabalhador.
(...) Se nós lermos e meditarmos sobre a história da Inglaterra, referida nas páginas deste livro, se meditarmos sobre a acumulação capitalista que tem tomado forma em nosso ambiente de convívio nessas capitais brasileiras, agravada pela usurpação dos bens eclesiásticos e dos bens públicos, se sacudirmos essa apatia que oprime a sua mente e o seu coração, nos convenceremos, de uma vez por todas, que a nossa causa é unitária, é a causa dos trabalhadores, porque para eles a moderna acumulação capitalista não deixou mais do que essa triste condição: ou se vender por um salário de fome ou desaparecer para sempre na densa massa do proletariado.
O valor de uso da mercadoria se baseia na sua qualidade própria: se ela é para beber, para comer, para divertir, etc. Portanto, essa qualidade é determinada para satisfazer uma determinada necessidade nossa e não fazer qualquer outra de nossas necessidades. O valor de uso dos 20kg de café é baseado nas propriedades que o café possui e essas propriedades são tais que nos dão a bebida café, mas não prestam para fazer uma roupa ou qualquer outra coisa. É por isso que só podemos tirar proveito do valor de uso dos 20kg de café se sentirmos a necessidade de beber café. Mas, se, ao contrário, eu precisasse de uma camisa e não dos 20kg de café que tenho em mãos? O que fazer? Não saberíamos, se a mercadoria não tivesse em si, junto com o valor de uso, também um valor de troca. Encontramos então uma pessoa que tem uma camisa e da qual não tem necessidade, mas ela está precisando do café. Então fazemos uma troca. Eu lhe dou 20kg de café e ela me dá a camisa...
Porém, como podem as mercadorias de propriedades tão diferentes entre si, serem trocadas umas pelas outras em determinadas proporções?
Isso ocorre porque a mercadoria, além do valor de uso, tem também o valor de troca. Isso nós já sabíamos pelo exposto acima. O que não sabíamos era que a base do valor de troca, do valor propriamente dito, é o trabalho humano necessário para se produzir essas mercadorias. A mercadoria é produzida pelo trabalhador. Portanto, o trabalho humano é a substância procriadora; é o trabalho que dá existência à mercadoria. Em sua essência, embora de propriedades tão diversas entre si, todas as mercadorias são a mesma coisa, perfeitamente iguais, porque, filhas de um mesmíssimo pai, têm todas o mesmíssimo sangue em suas veias. Se trocarmos 20kg de café por uma camisa ou 20m de tecido, é porque para se produzir 20kg de café, precisou-se de tanto trabalho humano quanto para a produção de uma camisa ou de 20m de tecido. Trocou-se uma camisa por tanto de trabalho humano materializado em 20kg de café, assim como trocaram-se os 20kg de café por tanto de trabalho humano materializado em uma camisa. Ou seja, trocou-se o trabalho por trabalho. Trabalho para produzir o café por trabalho para produzir a camisa. A substância do valor da mercadoria está no trabalho humano e a grandeza desse valor é determinada pela grandeza do trabalho humano. Ora, se a substância de valor é a mesma em todas as mercadorias e isto quer dizer que todas as mercadorias como veículos do valor são iguais e trocáveis entre si, o que nos resta, portanto, é comparar o tamanho dessa grandeza, medi-la.
A grandeza do valor depende da grandeza do trabalho; e qual é a medida do trabalho? O tempo: hora, dia, semana, mês, etc. Em 12 horas de trabalho se produz um valor duas vezes maior do que se produziria em 6 horas. Daí, alguém poderia dizer que quanto mais lento fosse um trabalhador, seja por inabilidade ou por preguiça, mais valor este produziria. Nada mais falso do que esta afirmação, pois o trabalho de que estamos falando e que dá substância ao valor, não é o trbalaho de Pedro ou de Paulo, e sim o trabalho médio de vários trabalhadores interconectados e que é propriamente chamado de trabalho social. É o trabalho que, em determinado centro de produção (como uma fábrica), pode ser feito em média por um operário, o qual trabalha com uma habilidade média e uma intensidade média.
Conhecido o duplo caráter da mercadoria (isto é, o caráter de ser valor de uso e o caráter de ser valor de troca), compreendemos que a mercadoria só pode nascer por obra do trabalho, e de um trabalho útil a todos. Por exemplo, o ar, os prados naturais, a terra virgem, etc., são úteis ao homem, mas não constituem nenhum valor, porque não são produtos de seu trabalho e, consequentemente, não são mercadorias. Também podemos fabricar objetos para o nosso próprio uso, mas que não podem ser úteis a outros; nesse caso, não produzimos mercadorias; do mesmo modo não produzimos mercadoria quando trabalhamos com coisas que não têm utilidade nenhuma para nós, nem para os outros.
As mercadorias, pois, são trocadas entre si; uma se apresenta como equivalente da outra. Para maior facilidade das trocas, começa-se - lá atrás na história - a empregar uma determinada mercadoria como equivalente para todas as outras. Esta mercadoria se destaca do conjunto de todas as outras para se colocar frente a elas como equivalente geral, isto é, como dinheiro. Por isso, o dinheiro é aquela mercadoria que, pelo costume e por determinação legal, monopolizou o posto de equivalente geral. Assim, o dinheiro, a moeda, chegou até nós através da prata. Enquanto antes, 20kg de café, uma camisa, 20m de tecido e 250g de prata eram quatro mercadorias que se trocavam indistintamente, hoje, ao contrário, tem-se que 20kg de café, uma camisa, 20m de tecido e 250g de prata valem, cada uma, o mesmo que a outra, ou seja, por exemplo, 60 reais.
Mas, seja através das mercadorias diretamente, seja através do dinheiro, a lei de trocas permanece a mesma, sempre. Uma mercadoria só pode ser trocada por outra se o seu valor de troca for igual. E todo que vamos dizer de agora em diante é baseado nela, nessa lei de troca de mercadorias.
Com a chegada do dinheiro, da moeda, as trocas diretas ou imediatas de uma mercadoria por outra desapareceram. Agora, todas as trocas devem ser feitas através do dinheiro. Desse modo, qualquer mercadoria que queira se transformar em outra, deve, antes de mais nada, como mercadoria, transformar-se em dinheiro, e depois, como dinheiro, retransformar-se em mercadoria. Portanto, o esquema das trocas não será mais uma cadeia de mercadorias - duas abóboras X uma melancia X cinco pães, por exemplo - e sim, uma cadeia de mercadoria e dinheiro. Ei-la:
Ora, se nesta fórmula assinalamos os giros que a mercadoria realizou, assinalamos também os giros do dinheiro. Como veremos, é desta fórmula que sai a fórmula do capital.
Quando temos em nossas mãos uma certa quantidade de mercadorias ou de dinheiro (o que no caso vem a dar no mesmo), somos possuidores de uma certa riqueza. Se a gente pudesse dar a esta riqueza um corpo - considerando que o corpo é um organismo que se desenvolve, que se alimenta -, então teríamos o capital. Ter um corpo ou organismo capaz de se desenvolver, significa nascer e crescer. É nesse desenvolvimento que a origem do capital parece desaparecer, na natureza fecunda do dinheiro.
Mas de que maneira nasce o capital?
Naquela fórmula que assinala os giros da mercadoria e do dinheiro, vamos acrescentar ao dinheiro um número que indica seu aumento progressivo (um aumento, portanto, na riqueza de seu possuidor):
Dinheiro --- Mercadoria --- + Dinheiro --- Mercadoria --- ++Dinheiro --- Mercadoria --- +++Dinheiro...
E é exatamente essa a fórmula do capital:
D --- M --- D¹ --- M --- D² --- M --- D³ --- ...
Como vimos, a resposta ao problema (encontrar um método de fazer nascer o capital) estava contida na resolução de outro problema: encontrar uma fórmula de aumentar progressivamente o dinheiro.
E como o capitalista consegue isso? É o nosso próximo capítulo.
Sentia uma tristeza profunda, estudando O Capital, ao pensar que este livro era e é, sabe-se lá até quando, inteiramente desconhecido...
Mas se as coisas estão nesse pé, dizia a mim mesmo, não devo poupar esforços para mudar essa situação. Mas, o que fazer? Uma tradução? Droga! Isso não adiantaria nada. É para outro tipo de pessoa que devo trabalhar. E essas pessoas se dividem em tres categorias: a primeira, composta pelos trabalhadores inteligentes e com alguma instrução; a segunda, pelos jovens nascidos na classe média, mas que lutam pela causa dos trabalhadores e não têm ainda a suficiente formação, nem o desenvolvimento intelectual para compreender O Capital; a terceira, finalmente, é essa moçada de escola, ainda quase criança, que se pode comparar com uma árvore que pode dar bons frutos, se transplantada para um terreno propício. Meu trabalho deve ser, portanto, um resumo fácil e curto do livro de Marx.
O Capital de Marx é demolidor: é a verdade nova que arrasou e dispersou ao vento todo um castelo secular de erros e mentiras. Uma verdadeira guerra! Uma guerra gloriosa pela força do inimigo, e pela força ainda maior do comandante que a empreendeu com uma imensa quantidade de novíssimas armas, instrumentos e máquinas de todo o tipo, que o seu gênio soube extrair de toda ciência moderna.
Incomparavelmente muito mais modesta é a minha missão. Devo apenas conduzir uma tropa de voluntárias ardorosos por uma estrada mais fácil e rápida para o templo do capital e destruir esse deus, para que todos o vejam com os próprios olhos e o toquem com as próprias mãos nos elementos que o compõem. Arrancaremos as vestes dos seus sacerdotes para que todos possam ver as manchas de sangue humano que escondiam e as armas crueis que usam para sacrificar um número crescende de vítimas.
É com estes propósitos que me ponho a trabalhar. Possa Marx cumprir a sua promessa, dando-nos o segundo volume de O Capital, que tratará da circulação e das diferentes formas que o capital assume no seu desenvolvimento, e também o terceiro volume que tratará da história da teoria.
(...) Todos devem ler este livro e maduramente refletir sobre ele, porque nele está não somente a história do desenvolvimento da produção capitalista, mas também é o Martirológico do Trabalhador.
(...) Se nós lermos e meditarmos sobre a história da Inglaterra, referida nas páginas deste livro, se meditarmos sobre a acumulação capitalista que tem tomado forma em nosso ambiente de convívio nessas capitais brasileiras, agravada pela usurpação dos bens eclesiásticos e dos bens públicos, se sacudirmos essa apatia que oprime a sua mente e o seu coração, nos convenceremos, de uma vez por todas, que a nossa causa é unitária, é a causa dos trabalhadores, porque para eles a moderna acumulação capitalista não deixou mais do que essa triste condição: ou se vender por um salário de fome ou desaparecer para sempre na densa massa do proletariado.
C. C.
* * *
Capítulo I - Mercadoria, dinheiro, riqueza e capital
A mercadoria é um objeto que tem um duplo valor: valor de uso e valor de troca (que é o valor propriamente dito). Se tenho, por exemplo, 20 quilos de café, eu posso tanto consumi-los para meu próprio uso quanto trocá-los por 20 metros de tecido, por uma roupa, ou por 250g de prata, se, em vez de café, eu precisar de uma dessas três outras mercadorias.
Capítulo I - Mercadoria, dinheiro, riqueza e capital
A mercadoria é um objeto que tem um duplo valor: valor de uso e valor de troca (que é o valor propriamente dito). Se tenho, por exemplo, 20 quilos de café, eu posso tanto consumi-los para meu próprio uso quanto trocá-los por 20 metros de tecido, por uma roupa, ou por 250g de prata, se, em vez de café, eu precisar de uma dessas três outras mercadorias.
O valor de uso da mercadoria se baseia na sua qualidade própria: se ela é para beber, para comer, para divertir, etc. Portanto, essa qualidade é determinada para satisfazer uma determinada necessidade nossa e não fazer qualquer outra de nossas necessidades. O valor de uso dos 20kg de café é baseado nas propriedades que o café possui e essas propriedades são tais que nos dão a bebida café, mas não prestam para fazer uma roupa ou qualquer outra coisa. É por isso que só podemos tirar proveito do valor de uso dos 20kg de café se sentirmos a necessidade de beber café. Mas, se, ao contrário, eu precisasse de uma camisa e não dos 20kg de café que tenho em mãos? O que fazer? Não saberíamos, se a mercadoria não tivesse em si, junto com o valor de uso, também um valor de troca. Encontramos então uma pessoa que tem uma camisa e da qual não tem necessidade, mas ela está precisando do café. Então fazemos uma troca. Eu lhe dou 20kg de café e ela me dá a camisa...
Porém, como podem as mercadorias de propriedades tão diferentes entre si, serem trocadas umas pelas outras em determinadas proporções?
Isso ocorre porque a mercadoria, além do valor de uso, tem também o valor de troca. Isso nós já sabíamos pelo exposto acima. O que não sabíamos era que a base do valor de troca, do valor propriamente dito, é o trabalho humano necessário para se produzir essas mercadorias. A mercadoria é produzida pelo trabalhador. Portanto, o trabalho humano é a substância procriadora; é o trabalho que dá existência à mercadoria. Em sua essência, embora de propriedades tão diversas entre si, todas as mercadorias são a mesma coisa, perfeitamente iguais, porque, filhas de um mesmíssimo pai, têm todas o mesmíssimo sangue em suas veias. Se trocarmos 20kg de café por uma camisa ou 20m de tecido, é porque para se produzir 20kg de café, precisou-se de tanto trabalho humano quanto para a produção de uma camisa ou de 20m de tecido. Trocou-se uma camisa por tanto de trabalho humano materializado em 20kg de café, assim como trocaram-se os 20kg de café por tanto de trabalho humano materializado em uma camisa. Ou seja, trocou-se o trabalho por trabalho. Trabalho para produzir o café por trabalho para produzir a camisa. A substância do valor da mercadoria está no trabalho humano e a grandeza desse valor é determinada pela grandeza do trabalho humano. Ora, se a substância de valor é a mesma em todas as mercadorias e isto quer dizer que todas as mercadorias como veículos do valor são iguais e trocáveis entre si, o que nos resta, portanto, é comparar o tamanho dessa grandeza, medi-la.
A grandeza do valor depende da grandeza do trabalho; e qual é a medida do trabalho? O tempo: hora, dia, semana, mês, etc. Em 12 horas de trabalho se produz um valor duas vezes maior do que se produziria em 6 horas. Daí, alguém poderia dizer que quanto mais lento fosse um trabalhador, seja por inabilidade ou por preguiça, mais valor este produziria. Nada mais falso do que esta afirmação, pois o trabalho de que estamos falando e que dá substância ao valor, não é o trbalaho de Pedro ou de Paulo, e sim o trabalho médio de vários trabalhadores interconectados e que é propriamente chamado de trabalho social. É o trabalho que, em determinado centro de produção (como uma fábrica), pode ser feito em média por um operário, o qual trabalha com uma habilidade média e uma intensidade média.
Conhecido o duplo caráter da mercadoria (isto é, o caráter de ser valor de uso e o caráter de ser valor de troca), compreendemos que a mercadoria só pode nascer por obra do trabalho, e de um trabalho útil a todos. Por exemplo, o ar, os prados naturais, a terra virgem, etc., são úteis ao homem, mas não constituem nenhum valor, porque não são produtos de seu trabalho e, consequentemente, não são mercadorias. Também podemos fabricar objetos para o nosso próprio uso, mas que não podem ser úteis a outros; nesse caso, não produzimos mercadorias; do mesmo modo não produzimos mercadoria quando trabalhamos com coisas que não têm utilidade nenhuma para nós, nem para os outros.
As mercadorias, pois, são trocadas entre si; uma se apresenta como equivalente da outra. Para maior facilidade das trocas, começa-se - lá atrás na história - a empregar uma determinada mercadoria como equivalente para todas as outras. Esta mercadoria se destaca do conjunto de todas as outras para se colocar frente a elas como equivalente geral, isto é, como dinheiro. Por isso, o dinheiro é aquela mercadoria que, pelo costume e por determinação legal, monopolizou o posto de equivalente geral. Assim, o dinheiro, a moeda, chegou até nós através da prata. Enquanto antes, 20kg de café, uma camisa, 20m de tecido e 250g de prata eram quatro mercadorias que se trocavam indistintamente, hoje, ao contrário, tem-se que 20kg de café, uma camisa, 20m de tecido e 250g de prata valem, cada uma, o mesmo que a outra, ou seja, por exemplo, 60 reais.
Mas, seja através das mercadorias diretamente, seja através do dinheiro, a lei de trocas permanece a mesma, sempre. Uma mercadoria só pode ser trocada por outra se o seu valor de troca for igual. E todo que vamos dizer de agora em diante é baseado nela, nessa lei de troca de mercadorias.
Com a chegada do dinheiro, da moeda, as trocas diretas ou imediatas de uma mercadoria por outra desapareceram. Agora, todas as trocas devem ser feitas através do dinheiro. Desse modo, qualquer mercadoria que queira se transformar em outra, deve, antes de mais nada, como mercadoria, transformar-se em dinheiro, e depois, como dinheiro, retransformar-se em mercadoria. Portanto, o esquema das trocas não será mais uma cadeia de mercadorias - duas abóboras X uma melancia X cinco pães, por exemplo - e sim, uma cadeia de mercadoria e dinheiro. Ei-la:
Mercadoria --- Dinheiro --- Mercadoria --- Dinheiro
M ----- D ----- M ----- D
M ----- D ----- M ----- D
Ora, se nesta fórmula assinalamos os giros que a mercadoria realizou, assinalamos também os giros do dinheiro. Como veremos, é desta fórmula que sai a fórmula do capital.
Quando temos em nossas mãos uma certa quantidade de mercadorias ou de dinheiro (o que no caso vem a dar no mesmo), somos possuidores de uma certa riqueza. Se a gente pudesse dar a esta riqueza um corpo - considerando que o corpo é um organismo que se desenvolve, que se alimenta -, então teríamos o capital. Ter um corpo ou organismo capaz de se desenvolver, significa nascer e crescer. É nesse desenvolvimento que a origem do capital parece desaparecer, na natureza fecunda do dinheiro.
Mas de que maneira nasce o capital?
Naquela fórmula que assinala os giros da mercadoria e do dinheiro, vamos acrescentar ao dinheiro um número que indica seu aumento progressivo (um aumento, portanto, na riqueza de seu possuidor):
Dinheiro --- Mercadoria --- + Dinheiro --- Mercadoria --- ++Dinheiro --- Mercadoria --- +++Dinheiro...
E é exatamente essa a fórmula do capital:
D --- M --- D¹ --- M --- D² --- M --- D³ --- ...
Como vimos, a resposta ao problema (encontrar um método de fazer nascer o capital) estava contida na resolução de outro problema: encontrar uma fórmula de aumentar progressivamente o dinheiro.
E como o capitalista consegue isso? É o nosso próximo capítulo.

5 comentários:
Portanto...
Valor de uso
Qualidade ou utilidade de cada mercadoria: se ela é para beber, para comer, para entreter, etc... O valor de uso não é mensurável.
Valor de troca (ou apenas valor)
É a medida de trabalho empregada na produção de determinada mercadoria.
Muitas pessoas elencam: mas o transporte torna um produto mais caro; a marca torna um produto mais caro; o marketing torna um produto mais caro... no entanto, estas pessoas confundem os conceitos de valor e preço. É importante que compreendamos essa distinção. São duas coisas diferentes. O valor é a medida de trabalho para criação de um produto; o preço é o valor acrescido destes outros aspectos de cada mercadoria.
Discutiremos preço no futuro.
Mercadoria
É a propriedade que cada coisa a partir do momento que adquire um valor de troca (ou seja, pode interessar a outras pessoas), podendo então ser comprada e/ou vendida.
Dinheiro
É uma mercadoria distinta de todas as outras, pois nasce com a propriedade de servir de medida de valor para todas as mercadorias.
Capital
É o dinheiro como organismo vivo, ou seja, o dinheiro que reproduz a si mesmo. Quem tem apenas dinheiro e o gasta em valores de uso (festa, comidas, roupas...) é detentor apenas de riqueza. Quem tem dinheiro mas o gasta com intuito de adquirir mais dinheiro posteriormente a partir desse investimento, possui capital. É, portanto, capitalista.
O blog está disponível para tirar mais dúvidas e prestar outros tipos de esclarecimentos.
Sem mais por ora,
saudações socialistas.
Método Dialético Aplicado
León,
Recomendo a leitura do "Elementos Básicos da Teoria Marxista do Valor", do Reinaldo Carcanholo. Ele comenta alguns equivocos comuns. O segundo ponto é: "Valor e Valor de Troca são conceitos total e absolutamente diferentes". Alguns trechos:
" (...) Uma diferenciação essencial, no interior da teoria, é a que existe entre os conceitosde valor e valor de troca. Muitas vezes eles são confundidos e entendidos como se fossem iguais . Isso constitui um grave erro. (...)"
" (...) Enquanto o valor é uma propriedade social inerente, interior à mercadoria,expressão nela das particulares relações sociais existentes e, portanto, uma categoria daessência da sociedade capitalista, o valor de troca é sua forma de manifestação e aparece nasuperfície mesma dos fenômenos; por isso, diretamente observável (..)
Creio que o texto está disponível na web. Qualquer coisa tenho o arquivo, caso queira.
Saudações Alvinegras,
Cleiton Roberto
Cleiton,
Vou procurar o arquivo na web, se não encontrar, faço contato contigo. Por ora, estou transcrevendo o referido livro, mas depois posso abrir o espaço para debates mais profundos e necessários a respeito do valor e de outros pontos que possam gerar controvérsias afins.
Receio que os pontos que você destaca retome algumas questões que, salvo engano, já debatemos na comunidade do Cefet (o que, em si, não é positivo nem negativo). Só saberei quando lê-lo.
No mais, o espaço de comentários tá sempre disponível para mais considerações, sejam de marxistas ou não.
Saudações!
Método Dialético Aplicado
Ia trazer alguns questionamentos sobre a relação valor-trabalho feita por Marx, mas vou esperar algo que trate sobre preço propriamente dito.
No mais, Marx considerou em suas obras o conceito de preço (além do trabalho)?
Marx escreveu sobre preço sim, tanto no Capital como em outras obras como Salário, Preço e Lucro (discurso), embora não tenha elencado ao preço a mesma importância que ao valor, pois aquele está subordinado a este. As oscilações de mercado, causadas pela inconstância da oferta e da procura, levam os preços a oscilarem de igual maneira, mas, tão-somente, enquanto preço de mercado, e não como preço natural (valor).
O preço somente surge, portanto, quando a mercadoria entra em circulação, subindo e descendo de acordo com as peculariadades do mercado, não apresentando em si, porém, a contradição primordial do capitalismo, que é a apropriação de parte do salário do trabalhador pelo capitalista*. É no valor que reside essa contradição, e não no preço; este termina, portanto, atuando como escondedouro dessa exploração.
* Essa apropriação começará a ser abordada no próximo capítulo, "Como Nasce o Capital".
Saudações,
Método Dialético Aplicado
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