Não se faz revolução apenas com retórica. Isso deveria ser uma sentença facilmente compreendida, mas não o é. Há setores da esquerda, que se intitulam inclusive marxistas, que acreditam piamente que a revolução vai nascer de discursos que reivindicam princípios e criticam o "pragmatismo", o "bonapartismo", o "eleitoralismo", ou qualquer outra insígnia que pretendam dar à parcela da esquerda que disputa, nas eleições, o futuro do país.
Questionar essa postura também não pode ser um mero exercício de retórica, sob pena de estarmos seguindo o mesmo jogo no lado contrário dos esquerdistas, isto é, respondendo ao oportunismo de esquerda com um oportunismo de direita. É preciso, antes de tudo, voltar aos clássicos. O próprio termo esquerdismo é diagnosticado por Lenin como uma doença infantil do comunismo, exatamente por considerar que esse infantilismo de natureza tipicamente pequeno-burguesa busca alcançar de imediato o comunismo, sem precisar participar da "suja política burguesa", como se a revolução estivesse a qualquer alcance e a luta política não tivesse as características de qualquer outra luta, isto é, exige táticas, manobras, recuos e avanços rumo ao alcance de uma estratégia pré-concebida.
Lenin critica a essa postura como ao revolucionarismo pequeno-burguês, uma postura que podemos considerar típica na dita classe média brasileira, sobretudo depois das grandes manifestações que tivemos semanas atrás, nas quais o espírito esquerdista se nutre para criticar as posições táticas dos partidos que ora se utilizam da via institucional como meio para acumular forças. A crítica aos partidos é alimentada e distribuída com notável entusiasmo pela mídia burguesa. O alvo preferencial e imediato desta crítica é o PT, maior partido de esquerda do momento; mas o alvo final é o Partido Comunista, vítima de todos os ataques da burguesia desde que foi fundado, em 1922, e, em questão de semanas, já era posto na ilegalidade.
Nas circunstâncias atuais, jogar a esquerda na clandestinidade já não é uma possibilidade real para a burguesia, mas ela procura dar outra forma essa clandestinidade, isto é, estigmatizando os partidos, ao invés de eliminando-os. A repressão ideológica, neste caso, é muito mais efetiva do que a repressão policial, ainda que ambas sejam, em última instância, artifícios políticos de isolamento da esquerda e especial, como foi dito, dos comunistas.
Os esquerdistas vibram. E difundem, assim como a burguesia, o ódio aos partidos consequentes de esquerda. Não é raro se utilizarem de matérias antigas, como a que diz respeito ao apoio do PCdoB ao governador Sérgio Cabral, do PMDB, nas eleições de 2010, para tentar transpor, automática e acriticamente, para o ano de 2013, uma funesta tentativa de credenciamento, por parte dos comunistas, da repressão promovida pelo governador carioca Cabral. A quem interessa essa ausência de criticidade? Por que não contextualizam o apoio que o Partido Comunista concedeu ao Cabral - que se conectava com a meta pontual de reeleger Dilma -, ao invés de tentarem levar as massas a serem enganadas por esse discurso? O contexto de 2010 é o mesmo de 2013? Ainda que fosse, poderíamos dizer que Sérgio Cabral é o inimigo primordial? Qual a prudência de uma tática que coloca o PMDB na condição de alvo das esquerdas, quando temos a direita golpista articulada no DEM e no PSDB, buscando todos os meios, institucionais ou não, para voltar ao governo e darem sequência ao seu projeto de desmonte do Estado?
Lenin não estava fazendo uso de retórica quando afirmou, de modo categórico, que "toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução, está cheia de casos de manobra, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses"*. O ensinamento em questão dizia respeito à necessidade de explorar os antagonismos da burguesia em favor da classe trabalhadora, ocupando espaços de poder antes restritos aos capitalistas e agora marcados pela influência da esquerda. Lenin, quando realçava a história dos bolcheviques para justificar os compromissos e as alianças com a burguesia, não falava preso a uma conjuntura histórica e geográfica específica. Com esse discurso, criticou a postura dos esquerdistas na Alemanha, que repeliam, de modo categórico, "todo compromisso com os demais partidos", além de "toda política de manobra e conciliação"*. Quem não vê os discursos que acusam o Partido Comunista do Brasil de aplicar uma política de "conciliação"*?!
A crítica de Lenin é igualmente dirigida ao Partido Comunista Holandês, por dar eco a este discurso, e aos comunistas da Inglaterra, que negavam as possibilidades burguesas de representação, bem como negavam o Parlamento como uma instância de atuação essencial para a esquerda, criticando-o por ser um espaço de políticos manobrados para obedecerem aos interesses da burguesia. O questionamento leninista poderia ser facilmente transposto para o nosso contexto, sem risco de torná-lo anacrônico. "A política é uma ciência e uma arte que não caem do céu, que não se obtêm gratuitamente, e que se o proletariado quiser vencer a burguesia, deve formar seus políticos"*.
Em se tratando de um clássico, esses ensinamentos não são apenas leitura necessária para compreender a conjuntura em que Lenin se inseria, mas, sendo ciência, servem também para nossa época e para o estágio atual da formação social brasileira. A existência de um mesmo discurso esquerdista na Alemanha, na Inglaterra, na Holanda e na própria Rússia de cem anos atrás não é uma coincidência. "O pequeno burguês 'enfurecido' pelos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenômeno social comum a todos os países capitalistas"*.
A esquerda comunista é mais pretensiosa: acusa o Partido Comunista de revisionista, de bernstainiano, kruschevista, ou qualquer coisa nessa linha, como se ele estivesse recaindo na mesma armadilha ideológica na qual o PCB foi infectado nos anos 1950/60 e nunca mais se libertou (hoje, é um partido nanico, pois tentou responder ao revisionismo de direita com um revisionismo de esquerda). O PCdoB, no entanto, situa a sua crítica ao capital e aponta para um caminho revolucionário, socialista, sem revisar o pensamento de Marx, tal como fez Bernstein e os demais, que, no afã de "voltar a Kant", substituíam a dialética pelas possibilidades de uma "evolução" ao socialismo, artifício jamais defendido pelo PCdoB. É possível, porém, encontrar elementos de discursos revisionistas nessa mesma esquerda, que acusa o Partido Comunista de conciliação com o latifúndio e defesa do agronegócio, e defendem uma "reforma agrária" de olhos vendados, sem situar - talvez por ignorância - de que reforma agrária estamos falando, atitude que Lenin pontua sutilmente como uma "emenda" ao que Marx colocava**.
O revolucionarismo vulgar encontra vasto eco no debate político brasileiro, se difundindo como um vírus nos meios virtuais. O pecado é ficar nas palavras. Ou então, admite-se que não há perspectiva revolucionária no Brasil atual. "O seguidismo dos revolucionários não compreende que, quando se inicia o momento revolucionário (...), limitar-se então às palavras, sem dar a ordem direta para a ação, significa apatia, imobilidade cadavérica, verbalismo"***. É exatamente essa a natureza do discurso esquerdista no nosso país. O PCB, por exemplo, chegou inclusive a criticar a greve geral de 11 de julho, considerando-a um "fracasso". O professor Mário Maestri chegou a afirmar que a greve geral deveria ter superado as manifestações de junho. Será que o Maestri não conhece a afirmação leninista, de que o elemento espontâneo é apenas embrião do consciente, e de que dialeticamente, a tendência é que a quantidade se transforme em qualidade, e não o contrário****? Não é possível que mesmo no contexto da esquerda, se faça coro com o discurso da direita de que a manifestação sindical fracassou e que as manifestações de junho é que tinham crédito popular.
Dar sequência à tática de isolamento da direita neoliberal se faz urgente. Responder aos esquerdistas é preciso, sem no entanto, recair na crítica pela crítica; extrair dessa luta sempre a lição, esse deve ser o lema. Enquanto o Partido Comunista e o conjunto da esquerda consequente segue em sua luta contra a direita, o esquerdismo prefere combater seus companheiros de classe, mantendo a direita intacta. Mais do que nunca, Lenin está presente como fonte de análise para a realidade brasileira.
*Lenin: Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. Anita Garibaldi, 2004.
**Lenin. Marxismo e Revisionismo. In: Obras Escolhidas. Alfa-Ômega, 1986.
***Lenin. Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática. In: Obras Escolhidas. Alfa-Ômega, 1986.
****Lenin. Que Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento. In: Obras Escolhidas. Alfa-Ômega, 1986.
(todos os grifos inscritos nas citações são do próprio Lenin)
**Lenin. Marxismo e Revisionismo. In: Obras Escolhidas. Alfa-Ômega, 1986.
***Lenin. Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática. In: Obras Escolhidas. Alfa-Ômega, 1986.
****Lenin. Que Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento. In: Obras Escolhidas. Alfa-Ômega, 1986.
(todos os grifos inscritos nas citações são do próprio Lenin)

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