Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


segunda-feira, 18 de março de 2013

Resposta à matéria "Stálin Contra-Ataca", da revista Aventuras na História

Por ocasião do sexagésimo aniversário da morte de Josef Stálin, a Aventuras na História lançou uma matéria de capa procurando desvendar o segredo da crescente popularidade do georgiano nos tempos atuais, contrapondo a isso o fato de ele ter "exterminado 20 milhões de soviéticos". Como esse assunto foi pauta recente no blog, não nos alongaremos, mas lançaremos algumas questões ante trechos visivelmente mal-redigidos e argumentos carentes de um fundamento que os sustente.

Ao abrir a matéria comentando o fato de moradores do povoado de Akura, na Geórgia, terem, com recursos próprios, restaurado a estátua de Stálin e recolocando-a na praça principal da cidade, demonstrando, assim, o reconhecimento à importância de Stálin, independente do papel que ele tenha cumprido, a revista, como se fosse juiz de qualquer coisa, alega que, a despeito disso, "a história já deu a Stálin seu lugar", decaindo, em seguida, em uma sequência nauseante de adjetivos que vão de "ditador bigodudo" a "general paspalho", passando por "caipira" e "chucro do interior". Por esses adjetivos se percebe o grau de preconceito por trás dos ataques, bem como o baixo grau de intelectualidade nessas críticas.

A revista só não explica certas incoerências, como afirmar que Stálin "se aliou ao nazismo com o pacto de não-agressão de 1939". Oras, é uma aliança ou um pacto de não-agressão? Será que os redatores não sabem a diferença entre os dois tipos de tratado? Será que os jornalistas-pesquisadores em questão não sabem, também, que fazer "alianças com membro do partido para isolar supostos adversários" não faz parte da realpolitik? O que queriam esses jornalistas, que Stálin fosse um bom-samaritano que não disputa espaço no partido? Ué, todos fazem isso, na União Soviética ou no Brasil, seja Stálin, Fidel, Obama, Lula e muitos dos mais de dez milhões de brasileiros que são filiados a algum partido político. Há também um erro grave da revista, que é o de acusar Stálin de ter usado a população russa como "bucha de canhão" em Stalingrado. Desconhecem os idealizadores dessa matéria que Stálin fez uma convocação a todo o povo russo, e este o atendera prontamente, ciente da incapacidade do Exército Vermelho de, sozinho, derrotar os nazistas? É muita ignorância histórica em apenas um mesmo parágrafo... não é possível.

Somemos a essas incongruências as muitas ilações a respeito da vida pessoal do Josef Stálin, como discutir se ele era filho de seu padrinho, sem apresentar para isso, qualquer fonte. Igualam-se, no rol de apelações, os números sempre superlativos aqui e ali (8 milhões de assassinados cá, 5 milhões de esfomeados lá, 700 mil presos mais adiante e assim vai), numa tabuada mórbida que, no entanto, não encontra respaldo algum na realidade - não é à toa que nenhuma fonte documental é apresentada como prova. Ela prefere embasar-se em autores do quilate de Simon Sebag Montefiore, filho do banqueiro Abraham Montefiore e sobrinho de Sir Moses Montefiore, um dos homens mais ricos de sua época; há também a referência do general Dmitri Volkogonov, assessor de segurança de Boris Iéltsin. Ora, quem essas pessoas representam? A quem suas afirmações dão respaldo? Pensar o porquê de elementos da elite investirem na deturpação da imagem de Stálin dá ideia do significado deste embate intelectual.

Por fim, a revista admite, melancolicamente, muitas das conquistas soviéticas no período de Stálin, mas credencia-as a, em verdade, uma "conquista de todo o povo, a despeito dele". É muito curioso que se negue seu mérito pessoal, mas quando se adentra nos ditos erros e arbítrios mencionados, estes também não sejam credenciados a todo o povo, mas somente à figura de Stálin. Sintomático - como tudo na Editora Abril.

5 comentários:

Rodrigo disse...

"O que queriam esses jornalistas, que Stálin fosse um bom-samaritano que não disputa espaço no partido?"
Éeee.... mas segundo o próprio kruschev, ele disputou espaço no partido matando muitos adversários e até aliados.
Sobrou até pra família dele.

Acervo do Conhecimento Histórico disse...

Não foi em ocasião do sexagésimo aniversário?

Verifica e corrige.

:)

Abração!

Deftones disse...

Valeu o toque, Charles. Realmente me enganei.

Rodrigo, Kruschev não é uma fonte ilibada. Ele chamava Stálin de pai, para tentar, assim, galgar espaços no Partido.

Felipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe disse...

Rodrigo, aquele ditado "o fruto nunca cai longe da árvore" serve muito bem para analisar Kruschev. A partir da chegada dele ao poder e de suas denúncias dos "crimes de Stalin" é que a planificação econômica, que é imprescindível num país socialista, passou a ser subvertida. Com isso a economia da URSS começou a crescer menos e estagnar, descambando na restauração capitalista do país.