Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sábado, 30 de março de 2013

Notas dialéticas

Aquilo que costumamos chamar de indivíduo se apoia sobre um particular estado de consciência, dentro da socialidade fundamentalmente objetiva, porém também subjetiva, do homem. A posição ontológica segundo o qual nós, na medida em que somos seres humanos, somos um ser [Wesen] social, e segundo a qual, em todos os atos de nossa vida (como quer que eles se espelhem em nossa consciência), o ser humano sempre e sem nenhuma exceção realiza de forma contraditória a si próprio e simultaneamente ao estágio respectivo de desenvolvimento do gênero humano – bem, essa tese não foi criada por Marx. Ela está lá desde os antigos, está em Aristóteles, está nos modernos, de Goethe a Hegel, e foi repetidas vezes ressaltada de forma concreta e resolutamente como uma verdade.

Ocorre que em sociedades relativamente bem desenvolvidas, particularmente durante períodos de crise, pode surgir em indivíduos singulares a noção de que todas as relações do indivíduo com a sociedade têm natureza puramente externas, subsidiárias, secundárias, sendo até mesmo produzidas artificialmente, sendo anuláveis e revogáveis ao seu bel-prazer... bem, isso acontece mesmo e é um fato histórico da cultura. Desde os eremitas lá nos primeiros séculos do cristianismo até, mais recentemente, ao existencialismo alemão e sua teoria da “derrelição”, essa ideia desempenha, digamos, um papel inextirpável na história do pensamento. Daquilo que Lukács chama de robinsonadas clássicas até aquelas que, criticando o existencialismo, ele chamou de robinsonadas da decadência, tal concepção dominou e domina até hoje uma parte relevante da ideologia burguesa.

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