Aquilo que costumamos chamar de indivíduo se apoia sobre um particular estado de consciência, dentro da socialidade fundamentalmente objetiva, porém também subjetiva, do homem. A posição ontológica segundo o qual nós, na medida em que somos seres humanos, somos um ser [Wesen] social, e segundo a qual, em todos os atos de nossa vida (como quer que eles se espelhem em nossa consciência), o ser humano sempre e sem nenhuma exceção realiza de forma contraditória a si próprio e simultaneamente ao estágio respectivo de desenvolvimento do gênero humano – bem, essa tese não foi criada por Marx. Ela está lá desde os antigos, está em Aristóteles, está nos modernos, de Goethe a Hegel, e foi repetidas vezes ressaltada de forma concreta e resolutamente como uma verdade.
Ocorre que em sociedades relativamente bem desenvolvidas, particularmente durante períodos de crise, pode surgir em indivíduos singulares a noção de que todas as relações do indivíduo com a sociedade têm natureza puramente externas, subsidiárias, secundárias, sendo até mesmo produzidas artificialmente, sendo anuláveis e revogáveis ao seu bel-prazer... bem, isso acontece mesmo e é um fato histórico da cultura. Desde os eremitas lá nos primeiros séculos do cristianismo até, mais recentemente, ao existencialismo alemão e sua teoria da “derrelição”, essa ideia desempenha, digamos, um papel inextirpável na história do pensamento. Daquilo que Lukács chama de robinsonadas clássicas até aquelas que, criticando o existencialismo, ele chamou de robinsonadas da decadência, tal concepção dominou e domina até hoje uma parte relevante da ideologia burguesa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário