Quando o geógrafo baiano Milton Santos, no seu artigo Dimensão Temporal e Sistemas Espaciais no Terceiro Mundo, de 1972, formulou uma proposta de periodização técnica que desse suporte a seu estudo, ainda não pensava em termos de meio técnico-científico. É tanto que, nessa periodização, a etapa histórica imediatamente posterior a 1945 foi por ele taxada de período tecnológico.
Pouco antes dessa obra, em 1968, o francês Radovan Richta cunhava o termo que, a partir dali, se faria presente em estudos dos mais diversos campos das ciências sociais e humanas: para ele, a era em que vivia podia ser chamada de período técnico-científico. Braverman, anos depois, falava da Revolução Técnico-Científica, colocando como determinante nesse processo a relação de interdependência que passará a caracterizar a ciência e a técnica, sendo esta a manifestação de toda construção humana voltada para a produção de sua própria vida; incluem-se aí desde instrumentos de trabalhos até objetos maiores como estradas, aviões, entre outros. No contexto do capitalismo, as técnicas são construídas socialmente, mas constantemente com a pretensão de privilegiar classes restritas. É por isso que se pode dizer que a partir desse período, a ciência passará a ser uma propriedade social não mais autônoma, mas sim auxiliar do capital.
Milton Santos compreenderia isso e não somente assumiria esse conceito em seu discurso, mas o desenvolveria e - principalmente - formularia, a partir dele, um conceito estritamente geográfico: o de meio técnico-informacional.
A assunção desse conceito não envolve apenas jogos de palavras; o composto de elementos com o qual se pode analisar as relações existentes no espaço geográfico se expande sobremaneira a partir dessa noção, e o próprio Milton Santos desenvolveria esse conceito por décadas, sempre com vistas a reformulá-lo para que se torne um instrumento teórico capaz de explicar a realidade. O primeiro passo que ele dá nessa direção é na conferência Espaço e Capital: O Meio Técnico-Científico, extrato que compõe o livro Espaço e Método (1985), ao pensar esse novo período como o de aplicação efetiva da ciência ao processo produtivo.
Esse período também se caracteriza pela expansão e predominância do trabalho intelectual e de uma circulação do capital à escala mundial, que atribui à circulação (movimento das coisas, valores, ideias) um papel fundamental. Esses dois dados, em conjunto, permitem a aceleração da acumulação, da qual, aliás, são um fruto e já gora em escala mundial. Há uma concentração maior da economia, com a presença de firmas de grande dimensão, levando a produção a depender mais de capitais fixos de grandes dimensões. (SANTOS, 1997)
Esses são os primeiros diagnósticos que Santos faz a partir desse novo paradigma. O período técnico-científico imprimirá mudanças profundas na realidade que farão com que o próprio meio em que vivemos também assuma esse caráter técnico-científico. A sua visão demonstra um largo alcance não somente no estudo teórico, mas na própria leitura empírica da realidade, uma vez munido desse novo instrumento intelectual. É a partir dele que Santos apontará tendências como a aceleração da circulação de bens e de pessoas, além de uma especialização cada vez maior de áreas produtivas, o que marcará o fim das cidades "autossuficientes", que vivem da própria produção, criando fluxos e conexões verticalizadas que fará com que um ambiente urbano tenha, por vezes, ligação mais próxima de outros atores no exterior do que com a cidade vizinha. Isso leva a uma crise da hierarquia urbana tradicional, manifestada por vezes numa grande cidade, geralmente uma capital, circundada por outras menores, e gerando uma nova rede urbana, que cria integrações entre as cidades menores e entre todas elas com cidades distantes, em certa medida de acordo com o esquema abaixo, extraído da obra Metamorfoses do Espaço Habitado (1988):
À esquerda o esquema clássico, com a metrópole completa (D) no centro de uma relação que envolve uma cidade local (A), uma cidade regional (B), uma metrópole incompleta (C) e uma vila (E)
À direita, o esquema real, com D tendo mais destaque, mas com interconexões entre A, B e C.
Ainda nessa obra, em que se dedica a discutir tradicionais conceitos geográficos e a renová-los, Santos convida a uma reflexão breve acerca do período técnico-científico e ao que ele chama de perversão das ciências, que significa a sua cooptação por tecnologias cujos objetivos são mais econômicos que sociais. Com isso, "(a ciência) se torna tributária dos interesses da produção e dos produtores hegemônicos", transformando-se em um saber instrumentalizado, estendendo inclusive sua crítica às ciências sociais: "os excessos de especialização e a perda da ambição de universalidade são dois aspectos de uma mesma questão e permitem a utilização perversa das ciências sociais". Inclua-se aí a própria geográfica, a quem ele aponta armas pelos problemas de ordem teórica e epistemológica que a envolvem e que são de conhecimento comum entre profissionais e pensadores da área, que até hoje não encontraram uma solução sustentável.
Em 1993, Milton Santos dá sequência à reflexão na obra A Urbanização Brasileira, na qual o seu conceito serve primordialmente para interpretar o desenvolvimento do território nacional. Aqui, o meio técnico-científico é especificamente caracterizado como "o momento histórico em que a construção ou reconstrução do espaço se dará com um crescente conteúdo de ciência, de técnicas e de informação" (SANTOS, 1993, grifo nosso).
A partir daí, percebemos que ele inclui um novo item ao descrever a composição do espaço geográfico. A informação, que ele destaca como motor fundamental do processo social passará não somente a ser um elemento constante na análise do meio geográfico, mas emerge mesmo ao grau do próprio conceito, que ele passará gradativamente a chamar de meio técnico-científico-informacional, e isso num momento em que a internet apenas engatinhava.
No livro Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e Meio Técnico-Científico, escrito um ano depois, ao analisar o processo de globalização galopante, ele apontará algumas contradições na ascensão desse novo meio, afirmando que ele "está presente em toda parte, mas suas dimensões variam de acordo com o continentes, países, regiões: superfícies contínuas, zonas mais ou menos vastas, simples pontos". A partir dessa citação, percebe-se que Santos não tem ilusões emancipacionistas com a globalização. Isso fica mais claro quando ele acrescenta que "os espaços assim requalificados atendem sobretudo a interesses dos atores hegemônicos da economia e da sociedade, e assim são incorporados plenamente à globalização" (SANTOS, 1994, grifo nosso). A geografia permanece desigualitária, e essa condição se manifesta inclusive nos subespaços, que vão servir às exigências do novo momento de maneira distinta, ora com áreas de vasta densidade ("áreas luminosas"), ora com áreas que não têm papel específico, e permanecem vazias ("áreas opacas").
A análise mais bem acabada do meio técnico-científico-informacional é produzida no livro A Natureza do Espaço, considerada a mais ambiciosa obra miltoniana, que guarda em suas páginas uma verdadeira teoria geral do espaço. É nesse trabalho que ele descreve os caminhos da evolução técnica humana, partindo do meio natural, alcançando o meio técnico e as condições que gerariam o mais latente meio geográfico, informatizado e informacionalizado. "Nesse período, os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos e informacionais, já que, graças à extrema intencionalidade de sua produção e de sua localização, eles já surgem como informação; e, na verdade, a energia principal de seu funcionamento é também a informação".
Aplicar o conceito de meio técnico-científico se torna uma chave para uma análise geográfica da realidade, isto é, a mais completa forma de compreender as transformações que ocorrem no espaço, o uso do território, as contradições regionais, entre outros elementos. A periodização com a qual Milton Santos trabalha e a noção de meio geográfico que ele desenvolve se liga a isso, sendo este a manifestação de sistemas técnicos no território e aquela a descrição de sistemas técnicos já instalados com a inserção de novas técnicas. Santos teve a oportunidade de acompanhar essa transição com o advento do capitalismo informacional e a descreveu minuciosamente, permitindo abarcar inclusive a conclusão de que a geografia é, muito mais do que qualquer outra coisa, uma "filosofia das técnicas".
Como toda figura de projeção, Santos é frequentemente contestado no ambiente acadêmico, ainda que poucas vezes com rigor científico. Destes parcos casos, seleciono a crítica de Maia (2010), que, ao estudar a noção de meio técnico de Santos, afirmando que ela é superestimada. No entanto, a ênfase de sua crítica desemboca num estreitismo, ao afirmar que "as técnicas são sempre uma derivação do conjunto das relações sociais e principalmente das relações de produção" (MAIA, 2010, grifo nosso). Como marxista, não nego que são as relações sociais de produção que determinam todas as demais relações sociais (e nem o Milton Santos negava isso), mas as técnicas, ainda que apenas técnicas, não são objetos estranhos ao homem. Elas são a manifestação do espaço, a paisagem artificializada. Se consensuamos que as técnicas são apenas determinadas, nunca determinantes, passamos a aceitar também a inutilidade do conhecimento geográfico, o que não condiz com qualquer perspectiva científica séria.
Maia também questiona a ausência da noção de luta de classes como elemento ativo no pensamento de Santos. A explicação para isso tem caráter metodológico. O conceito de classes não aparece tão frequentemente quanto se gostaria que aparecesse (mas aparece), e isso ocorre pela natureza de sua pesquisa, que tem caráter geográfico, e coloca a centralidade da análise em outras categorias. Isso não nega a essência marxista da obra, mas, pelo contrário, alarga suas perspectivas, desta vez também para o campo da geografia. Um pensador que está fazendo isso enfaticamente é o britânico David Harvey, considerado o maior geógrafo da atualidade, e certamente um dos principais pensadores analistas do momento. Harvey é formulador da noção de materialismo histórico-geográfico, a partir da qual a noção de espaço passa a merecer presença tão destacada numa análise marxista quanto a noção de tempo já o tem.
No mais, essas discussões realçam as muitas possibilidades que podem surgir do trabalho de Santos. Antes de o baiano vir a falecer em 2001, ele ainda produziu uma última obra de notória qualidade, chamada de Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI, na qual voltou a fazer uma reflexão acerca do conceito de meio técnico-científico-informacional. Para tanto, lançou mão de análises que considerava incompletas para analisar o desenvolvimento do território brasileiro, incluindo-se aí os seminais trabalhos de Celso Furtado, Caio Prado Júnior e outros, até alcançar o seu intento, numa obra que não somente nos fornece esclarecimentos sobre o passado, mas mais ainda abre perspectivas para o futuro. Um fechamento em grande estilo da vasta obra miltoniana.
Referências.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. 1981
SANTOS, Milton. Espaço e Método. 1997
_______. Metamorfoses do Espaço Habitado. 1988
_______. A Urbanização Brasileira. 1993
_______. Técnica, Espaço, Tempo. 1994
_______. A Natureza do Espaço. 1996
SANTOS, Milton. SILVEIRA, Maria. Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI.
MAIA, Lucas. O Conceito de Meio Técnico-Científico-Informacional em Milton Santos e a Não-visão da Luta de Classes. 2010
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. 1981
SANTOS, Milton. Espaço e Método. 1997
_______. Metamorfoses do Espaço Habitado. 1988
_______. A Urbanização Brasileira. 1993
_______. Técnica, Espaço, Tempo. 1994
_______. A Natureza do Espaço. 1996
SANTOS, Milton. SILVEIRA, Maria. Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI.
MAIA, Lucas. O Conceito de Meio Técnico-Científico-Informacional em Milton Santos e a Não-visão da Luta de Classes. 2010


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