É muito conveniente, deva-se dizer, a opinião de Hobsbawn, quando ele traça em um de seus mais célebres livros - a Era dos Extremos - uma análise do desenvolvimento soviético, em geral identificando-o como uma experiência que gerou lágrimas e sofrimentos ao povo. Para ele, o maior projeto de edificação de um novo modo de produção que já existiu não passava de uma operação militar. Muito inescrupulosamente, Hobsbawn repete a delonga dos milhões de prisioneiros escravizados que sustentaram esse crescimento soviético em larga escala, e ainda lança uma sugestão de dado tão ampla que não se pode visualizar nisso qualquer aspecto científico: afirmar, por exemplo, que "uma força de trabalho de entre 4 e 13 milhões de pessoas prisioneiras" foram os responsáveis pela industrialização mais acelerada de todos os tempos é não ter, a bem da verdade, qualquer informação precisa que possa justificar a barbaridade da afirmação. Sejamos justos, Hobsbawn: esse número não condiz com a realidade soviética nesse período.
Para piorar, não é apenas a falta de dados precisos que faz Hobsbawn incorrer em erros graves para um analista de seu quilate, mas também a ausência de um regime de historicidade que o permita contextualizar as peculiaridades de cada época. Exemplo disso reside na natureza de suas críticas ao culto à personalidade - chegando a precisar afirmar que Stalin tinha pouco mais que um metro e meio como se pretendendo, assim, negar a autoridade e a importância que até hoje o georgiano detém entre os russos - ou ao modelo econômico adotado pela União Soviética (que, de fato, tinha um prazo de validade que não foi compreendido pelos soviéticos no momento certo, isto é, aquele momento que exigiria alterações estruturais para que fosse adaptado à nova dinâmica.) Hobsbawn faz da crítica ao modelo de produção uma crítica ao modo de produção, isto é, ao invés de criticar o estatismo que prosperou na URSS e gerou seu emperramento burocrático, considera que todo um modelo genérico chamado de socialismo real estava, desde cedo, fadado a morrer, ainda que demorasse.
As críticas feitas a Lenin também não se justificam. Apresentá-lo tão somente um "planejador de ação" é desconsiderar sobremaneira sua riqueza teórica. Não fosse Lenin, as teses de Karl Marx dificlmente obteriam alcance no Século XX, pois aquele foi o mais eficiente desenvolvedor das ideias deste, especialmente no que tange à fase superior do capitalismo, que Marx não viveu. Hobsbawn tenta também sob todas as formas descaracterizar o partido leninista, apresentando-o como não apenas algo datado, mas preso a uma tendência ao autoritarismo. A crítica à URSS fundamentada como uma crítica a um "regime de partido único" peca por não se compreender as circunstâncias em que o socialismo foi empreendido no país, sobretudo nas primeiras quatro décadas, bem como por não saber pensar adequadamente a respeito dos contraditórios conflitos que irromperam no Partido Comunista da URSS a partir do período conhecido como Degelo (fase posterior à morte de Stalin, em que se buscou eliminar os ícones que o engrandeciam e, em tese, mantinham o povo preso a seu culto quase religioso), e que se acumularam até a capitulação completa, com o retorno ao capitalismo, em 1991. Hobsbawn parece ser analista demais em aspectos pontuais e minimalistas, e se esquece de examinar com mais afinco outros fatos bastante peculiares e muito mais decisivos.
Lembrando que, para além desses pontos de discussão, há outros diversos nessa obra que valeriam a pena ser melhor analisadas. Cabe-nos, portanto, o dever de observar atentamente um autor que pelo próprio grau de respeito que adquiriu, dificilmente é criticado. Dizia Stalin que a unanimidade absoluta só pode existir no cemitério, e como um profeta, ele parecia fazer referência sutil e especial àquele que (arvorado em um senso de unanimidade que unia marxistas e liberais, esquerdistas e direitistas, revolucionários e conservadores) tão divinamente cumpriu o papel de ser seu detrator. Essa foi, por muitas vezes, a prática de Hobsbawn: apoiar-se em Marx para criticar o próprio marxismo. Não é de se estranhar o porquê de ele ter tido tanta audiência.
De qualquer modo, a memória e a obra de Hobsbawn tenderá a se fazer presente ainda por um bom tempo, quiçá permanentemente. No entanto, como toda obra humana e científica - e, igualmente, política -, as críticas estarão sempre aguardando espaço para serem manifestadas. A bem da verdade, o conjunto da obra hobsbawniana é de grande valia, sobretudo os que empreendem análises a respeito das revoluções burguesas. Seu prefácio à obra Formações Econômicas Pré-Capitalistas, de Marx, oferece ótimos subsídios para um entendimento do contexto em que Marx e Engels desenvolvem seus trabalhos. Aqui, no entanto, procuramos encontrar o historiador nebuloso, e entender um pouco da aura de unanimidade que o cercava mesmo quando vivo. A despeito disso tudo, saudoso seja o Hobsbawn. Fica a obra.

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