Extrato de um artigo acadêmico que produzi em 2011.
O momento em que o homem deixa de estar abaixo da natureza e põe-se como sujeito pretensamente autônomo, inteligente, consciente de seu poder de utilizar-se dos recursos naturais em prol de seu desenvolvimento enquanto espécie ocorre numa fase anterior a todo o seu desenvolvimento psicológico, e mesmo fisiológico em certa medida. A fala, por exemplo, não surgiu por acaso. Ela surgiu porque havia uma necessidade. Que necessidade? Antes de o homem obter a fala, e, portanto, antes de o homem ser possuidor de uma consciência crítica que possamos chamar de cultura, as relações sociais já estavam se desenvolvendo. A fala é um recurso que surge justamente da confluência de vários homens em um lugar comum e de um trabalho socializado. Essa socialização permitiu que germinasse em si o que no futuro seria chamada humanidade. Para que a socialização pudesse ser completa, precisava haver comunicação, uma vez que aquela existente até então era rudimentar, incapaz de suprir as necessidades que agora se antepunham ao homem. Dessa nova maneira de se comunicar, avançará a interação do trabalho coletivo, e assim se abrirá espaço para a produção de excedentes e gradativamente a sociedade se complexificará.
Entretanto, interessa-nos o antes, e não o depois. E antes da fala, o que havia era trabalho socializado; a expressão coletiva do recurso que libertou o homem do jugo da natureza. É o trabalho que vai permitir ao homem se autonomizar perante os demais animais, fixando-se em um determinado local, construindo seus instrumentos de obtenção de alimentos e vestimentas. É a transformação do que antes lhe era exterior em algo que agora está sob seu domínio que permitirá ao homem adquirir a consciência de que ele tem esse poder transformador. É a mão, em ação, que determinará o desenvolvimento do cérebro. O homem não se pensou homem e de repente compreendeu que a natureza estava ali ao seu redor; não. Primeiro, ele atuou sobre ela, sofreu intempéries, conviveu com situações de risco e outras tantas fatais, até que por um processo repetido de intervenção involuntária, essa intervenção enfim viu seu caráter ser gradativamente mudado; ela enfim viu-se premeditada, e não mais involuntária.
É quando o homem atua sobre a natureza, inicialmente de maneira desengonçada, que ele entende que essa atuação pode ser reproduzida. Ele captura o ensinamento pela observação e pela prática. Ele não aprende nada por si só – isto seria ilógico. Ele não tem nenhum rompante de consciência do nada – isto é impossível. Ele não adquire nenhum conhecimento antes que as bases materiais lhe ofereçam essa condição. É a prática repetida – e o aprendizado por meio da observação de seus constantes erros – que dará ao homem a compreensão de que ele pode, uma vez aprendido a fazer o que antes fazia involuntariamente, estocar recursos naturais, construir materiais de caça, pesca e coleta, complexificar seu trabalho ao desenvolver a agricultura, dividi-lo e fazer, assim, germinar o que nós conhecemos por sociedade.
O trabalho, ao libertar o físico humano, liberta sequencialmente o intelecto. Uma vez detentor de certa habilidade, o que resta ao homem agora é raciocinar a respeito de como essa habilidade pode ser gradativamente ampliada. Em doses homeopáticas, o que antes era suficiente para construir utensílios bifaces, agora já permite formar plantações de arroz, milho e mandioca. Uma vez alcançada esta competência, o salto tecnológico é acelerado: cerca de dez mil anos depois, tudo o que existia naquela época, transforma-se – graças à ação humana, consequente e deliberada – em tudo o que existe hoje.
A cultura, aquilo que o homem tratará por símbolos e conceitos, aquilo que o homem passará a considerar por hábito, aquilo que o homem irá cultuar, idolatrar e pregar, aquilo que o homem defenderá e pelo qual matará – a cultura não existe antes de o homem desenvolver seu instrumental. Os hominídios do período olduvaiense não davam nomes aos seixos que faziam e com os quais caçavam – isso porque eles sequer sabiam o que faziam; apenas faziam. Os homens não desenvolveram a noção de comunidade antes de se organizarem de forma comunal; apenas se organizavam. O entendimento era gradativo, jamais anterior.
Sendo assim, a cultura é o patamar que se apresenta ao homem quando ele se emancipa não apenas fisicamente, mas também intelectualmente. Agora ele é um ser completo em suas potencialidades. Agora ele não apenas estoca os excedentes; ele se apropria deles. Surge, com a ação, a ideia de propriedade. Se antes, os conflitos eram pelo uso momentâneo dos recursos de certo território entre tribos nômades, desta vez eles serão transmutados: daí por diante, será não por território – será por propriedade. Uma vez que certo grupo apropria-se agora do que antes era do coletivo, esta propriedade socializada torna-se propriedade privada. Ela passa, portanto, a ter dono. Nasce aí – grosso modo – o nosso conceito de formação social, dividida entre os que detêm a propriedade e os que não a detêm. Cada elemento irá puxando outros. Uma propriedade não pode ser privada se não existirem meios de protegê-la das mãos dos que de nada são proprietários; surgirão as classes sociais, as primeiras formas de organização interna, os mitos, o Estado. Tudo já é diferente. Os conflitos serão, de modo geral, entre diferentes povos: os que detêm um Estado – e, com ele, uma máquina – e os que serão subjugados, em geral como escravos e quaisquer outras formas de humilhante subserviência. Quando os Estados se multiplicam, guerrearão entre si. Isso sem jamais esquecer que em cada Estado reside um conflito interno, permanente e inquebrantável: o eterno conflito de classes, impossível de ser apaziguado a longo prazo. A História seguirá dando variadas formas a todos esses elementos, e essas particulares características humanas de entrar em guerra consigo mesmo motivado por meros conceitos, de desenvolver-se tecnologicamente de maneira jamais vislumbrada mesmo que de longe por qualquer outra espécie, de construir monumentos com a imponência de verdadeiras maravilhas da natureza serão as mais visíveis marcas, ainda que contraditórias, de tudo o que conhecemos por humano – de tudo o que conhecemos por cultural.
A cultura, por fim, se incrementa como o passo em que o homem faz a si próprio enquanto conceito. Ela não nasce; ela é parida. Ela é uma necessidade da evolução da espécie. Ela é consequência, jamais causa. Ela é externada pelo homem. Mas ela não tarda a dominá-lo. Logo, a cultura se anteporá ao homem de maneira tal que já não será mais difícil encontrar em qualquer quadrante do tempo-espaço de dez mil anos atrás pra cá uma pessoa que acredite em uma cultura permanente, superior, seja ela religiosa ou não. Os homens, antes escravos da natureza, agora são escravos de si mesmo, enganados que são pelos artifícios ideológicos criados pelos próprios. Como apontou Marx, tornaram-se criaturas de sua própria criação.
É o vício do idealismo que desde sempre persegue a humanidade. Um vício tão distribuído que não raro os meios acadêmicos ainda se permitem ser seduzidos de maneira tão pouco resistente por ele.

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