Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

As dicotomias convenientes na conjuntura internacional

A juventude se levanta, efervescente. A princípio, dependendo do lugar, desorganizada, com muito sangue nas veias e pouco cerebelo em exercício, como os luddistas ingleses do Século XIX, que acreditavam que o grande causador de sua miséria era a máquina, e como reação a destruíam, quebravam tudo. Naquele momento, a consciência coletiva se desenvolveu, e o que antes era uma ira coletiva dos trabalhadores se transformou em ação consequente, de classe, organizada. Também neste momento, a ação juvenil, por vezes pacífica, por vezes reagindo de maneira forte e violenta à repressão policial, pode deixar de ser apenas manifestação, protesto, e se converter em algo mais afirmativo. Veremos.

Nestas breves colocações, não pretendo entrar nas questões táticas dos movimentos que pipocam mundo afora, no Egito e na Líbia; na Tunísia e na Grécia; na França e na Síria; no Chile e na Inglaterra, e assim por diante... o que vem ao caso é a maneira dicotômica, paradoxal com que são noticiados os fatos e com que são tomadas as decisões.

Se pararmos para pensar na natureza dos levantes juvenis, envolveríamos questões de muitos campos diferentes. Todas trariam consigo, entretanto, as marcas da decomposição capitalista; todas trazem à tona ressentimentos sociais e políticos próprios desse modo de produção e da maneira excludente sob a qual ele se sustenta. O restante são particularidades de cada caso. O fato é que há um clima hoje para manifestações que é extenso, no mundo inteiro. Aqui mesmo em Natal um movimento construindo de maneira pretensamente horizontal se ampliou e chegou a ser capa de revista nacional. Ao contrário do que pregam os (pós-)modernistas, não são as mídias sociais que promovem isso - elas são apenas o artifício usado hoje. A insatisfação popular encontra sempre meios para gritar.

Quando 2011 começou, trazendo junto "tensões sociais" nas capitais de grandes países do norte da África, ninguém imaginava a amplitude daquilo. Os movimentos se alastraram, tomaram mundo. A mídia os noticiava não aleatoriamente; todo o trabalho de divulgação desses atos mundo afora obedeceu a uma estudada e perspicaz avaliação prévia acerca daquilo que era conveniente aos donos do poder global (e às mídias, obedientes a seus patrões). Nunca foi à toa. Quando estouraram os protestos no Egito, foram cautelosos; cautelosos também foram com os protestos na Tunísia, por aí... que outra postura esperar? Estes países são tradicionalmente aliados dos States e dos seus; os líderes permaneceram no poder até o último segundo. Quando os protestos ocorreram na Líbia, porém, a coisa mudou: o que antes era cautela, passou a ser um jornalismo engajado, desejoso de ver o presidente Kadafi sendo derrubado. Quereriam isso, não fosse o Kadafi um líder que frequentemente se antepõe às deliberações dos países centrais? De repente, a mídia assume lado, e, assumindo-o, respalda tudo, inclusive a pior das saídas: a guerra. Quando a OTAN se manifesta, afirmando que bombardeará o território líbio, editoriais no mundo inteiro comemoram. Há, contudo, o que comemorar? Acaso a OTAN já bombardeou algum país com propósito de defender a democracia neste país? Aliás, como se pode dizer que estamos ajudando um país no momento em que o bombardeamos?

Kadafi permaneceu no poder, no final das contas. O que se percebeu, após todo o acontecido, foi que a popularidade dele era maior do que parecia. Para além disso, muitos dos que o criticavam, passaram para seu lado - pois não queriam, como era direito deles, que essa crítica fosse usada como pretexto para que os países imperialistas interviessem para aplicar sua política colocando um fantoche no poder. Agora, a Síria é a bola da vez, menina dos olhos do imperialismo.

Contudo, os protestos transpassaram fronteiras e capitais. Aos poucos, começaram a estourar também em outros países, tradicionalmente estáveis do ponto de vista político. É o caso do Chile, que passou uma década governado por socialistas, e no ano passado viu um retrocesso histórico se concretizar com a eleição do presidente Piñera. Esse retrocesso anunciado nãos e perdeu no vento: hoje, Piñeras tem a pior aprovação de um presidente na história do Chile. Seu governo só é bem visto por 26% da população, e olhe lá - como tem ocorrido semana após semana, é possível que na próxima este número seja ainda menor. A resposta à insatisfação popular, Piñera oferece ao seu estilo: já foram mais de 1000 presos estudantes no Chile, em uma semana. Imagine-se. Será que a OTAN bombardearia o Chile?

Nessa semana, foi a vez da sacrossanta terra da Rainha ser o palco dos levantes. Em resposta ao assassinato de um imigrante pela polícia inglesa, centenas saíram às ruas protestar; em resposta à repressão com que o Estado tratou estas centenas, elas se transformaram em centenas. A repressão aumenta, a resposta vem de maneira igual - violência, não raro, somente gera violência. Não precisa ser milagreiro pra saber. E Londres virou palco de guerra, como também outras cidades. A polícia se manifesta: "são uns destratantes, pessoas que não respeitam a Lei". Palavras que poderiam ser usadas por Mubarak no Egito. O governo britânico já pensa em restringir as redes sociais, dizem manchetes mundo afora. Pode, isso?

A reação das mídias é a conveniente. Rebeldes, criminosos, vândalos e outras terminologias quando se trata da juventude que protesta contra o governo britânico. Nem parece a mídia transformadora, que se engaja em favor do discurso dos manifestantes, como fizera com o caso Kadafi. Não é nem questão de identidade. É questão de classe, pura e simples. A mídia, como as transnacionais e os governos imperialistas, é corporativista. E é obediente. E, vale-se dizer, também é unida. Levanta uma voz única. Deixa de atuar como mediador de debates que transcorrem o mundo; de repente, querem falar por nós. A isenção é uma palavra bonita para os editoriais, logo seguida por muitas outras de caráter persuasivo e impositivo. A mídia brasileira, como a mídia global, atua seguindo uma linha determinada; uma linha fantasiosa e golpista, elaborando análises de uma realidade que somente existe no seu mundo. No mundo real, as coisas se desenrolam de outra maneira. Vai muito além das aparências, e às aparências é a que ela, a imprensa, se restringe. Há de se convir, no entanto, que, como dizia Marx, se aparência e essência fossem a mesma coisa, não precisaria existir ciência.



Um comentário:

Erasmo disse...

Excelente texto meu caro!