Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sexta-feira, 27 de maio de 2011

O nocivo caráter das filosofias idealistas

A história das correntes de pensamento idealistas se confunde com a própria história da Humanidade. Elas foram parte integrante do processo temporal de demarcação daquilo que o homem convencionou chamar de "sociedade". Foram os elementos ideológicos que sustentaram desde as mais primárias até as mais avançadas formas de verticalização social, como a divisão de classes, o surgimento da propriedade privada e coisas assim. A partir delas nascia o argumento basilar para a divinização de faraós, sacerdotes, reis e imperadores - nenhum deles se sustentaria no poder sem se utilizar de discursos idealistas. Ergueram templos e instituições religiosas, foram o sustentáculo psicossociológico de todas as formas de exploração do homem pelo homem. E quando as leis históricas exigiram, esse discurso atualizou-se, abandonando o caráter eminentemente religioso e se travestindo de discurso científico, sem no entanto perder a sua essência mais particular: o irracionalismo.

Idealismo, do ponto de vista do senso comum, sinaliza a pessoa que tem ideais, geralmente ideais de benevolência; é a pessoa que luta pela justiça, pela igualdade entre homens, entre animais, etc. No entanto, o idealismo em si tem raízes nas quais essa benevolência não se faz presente. O idealismo congrega em si correntes de distintos caráter (desde pretensas teorias filosóficas a dogmas religiosos) que partem de uma premissa ideal, divina, metafísica, como determinante do real e concreto. Essa síntese já traz em si a contradição principal entre as correntes idealistas e as correntes que se pretendem racionais: a partir dela nos vemos de mãos atadas, pois se consensuamos que estamos submetidos a elementos ideais, essenciais, e não a elementos concretos, perdemos, também, o nosso poder de intervenção nessa realidade, primeiro porque ela não existe independentemente, segundo porque só poderíamos intervir efetivamente em qualquer coisa se o fizéssemos nesse plano ideal, e é impossível alcançá-lo (a não ser que sejamos religiosos e creiamos que alcançaremos essa condição no post-mortem).

Apanhado histórico

O idealismo não surge por acaso, bem como, é claro, não surge de maneira consciente, como um subterfúgio maquiavélico usado pelos primeiros exploradores de classe para sustentarem suas posições de detentores do poder. Ele nasce da formação do social, que ocorre trazendo em si uma divinização desse próprio social, sobretudo porque quando os humanos começaram a se organizar, estocar excedentes, fixar-se num espaço definido, eles não tinham precedentes nos quais pudessem se basear. Foram-se organizando, num processo milenar, relativamente lento - na verdade, muito rápido do ponto de vista do tempo geológico, que é o que existia até então, e que até isso a Humanidade conseguiu reelaborar, transformando-o em tempo histórico, ou seja, humanificando até mesmo os recortes temporais. As transformações que o Homem faz sem que antes tivesse consciência de que podia fazê-las trazem incompreensões latentes do sujeito com a própria realidade que ele transforma, e para as quais a noção religiosa, ainda que primária, oferecerá resguardo. Não aprofundaremos em pormenores, apenas o apresentamos deveras sinteticamente por ser essencial contextualizar o surgimento e desenvolvimento do idealismo no decorrer daquilo que chamamos tempo histórico.

Na medida em que a sociedade se complexifica, alterando suas relações produtivas, tornando-as gradativamente mais contraditórias, alteram-se também as manifestações idealistas. Isso segue todo o curso das sociedades pré-escrita até a que vivemos hoje, quando essa manifestação de pensamento assume novas formas.

Desde o advento do capitalismo, que trouxe consigo o advento do racionalismo em enfrentamento ao dogmatismo que condenara a Humanidade a mil anos de trevas na era feudal, o idealismo viveu dois momentos: em um primeiro, ele perdeu espaço. Embora ainda se encontrasse facilmente elementos idealistas em Descartes, Vico, Voltaire, Hegel, o fato é que eles eram, junto com uma gama de filósofos, economistas, entre outros pensadores de várias ordens, deram base para o advento, enfim, do racionalismo, libertando os homens desse jugo das próprias ideias. As novas teorias humanistas levantavam a questão de os homens são produto de sua própria atividade. O historicismo concreto, um ponto elementar que Hegel destaca na ascensão desse pensamento racionalista, afirma o caráter ontologicamente histórico da realidade - para existir história, basta existir o humano, em síntese -, fechando o cerco para o divino, o sobrenatural. Com o declínio das filosofias idealistas, caem também os regimes absolutistas da Europa, não por acaso. Com eles caem quase todos os reinados, cai tudo que é velho, ergue-se tudo que é novo, racional e crítico. As leis históricas são implacáveis: quando o futuro se impõe, o passado não se aguenta.

A emergência das visões científicas enquanto válidas e de falência da opressão religiosa medieval na Europa se dá não somente em paralelo com o processo de afirmação da burguesia ascendente, mas é consequência dele. Esse caráter fica nítido quando essa referida classe, outrora revolucionária, absorve poder político e econômico suficiente para se afirmar como dominante - como de fato se tornaram. É em meados do Século XIX que esse caráter revolucionário se transmutará, tornando-se não mais progressista, mas conservador, reacionário. Se nas revoluções que haviam até 1848 essa burguesia era o baluarte das classes avançadas, inclusive como porta-voz dos trabalhadores e do povo oprimido pelos regimes decadentes, a partir dos conflitos de então na Europa - e na França em particular - ela assumirá uma postura repressora; ela abdicará, como foi dito, daquilo que a punha como progressista e se anteporá do outro lado. Ela não tem mais uma classe dominante a derrubar. Ela é, agora, a classe a ser derrubada.

Para concluir: as manifestações atuais do discurso idealista


Este ponto será mais largamente discutido num ensaio futuro, de caráter mais filosófico, a ser publicado neste mesmo blog (Crítica da Razão Pós-Moderna). Atualmente, a tradição idealista tem gradativamente travestida-se numa roupagem científica, não assumindo seu caráter irracionalista em correntes como o estruturalismo e o pós-modernismo. Essas correntes, sobretudo esta última, desenvolvem-se não a partir de métodos tradicionais de pesquisa, mas por falhos recursos de análise de discurso, que desconsideram o teor metodológico estabelecido na formulação de conceitos e cria vínculos inexistentes entre eles, gerando assim uma falsa noção da realidade a partir dessa leitura respectiva. Essas correntes posicionam-se, portanto, como idealistas, na medida em que a realidade concreta torna-se um mero apêndice dos conceitos por elas elaborados. O conhecimento pretensamente racional suplanta o conhecimento sensível, quando na verdade aquele deve partir deste. Essa inversão de conceitos, gera, também, uma inversão na compreensão da realidade; é a inversão na qual recaem todas as seitas e religiões, e todas as concepções de mundo que atravancam o efetivo desenvolvimento da humanidade e a emancipação intelectual do homem.


Livros de auxílio
F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado
Plekhanov, O Papel do Indivíduo na História
João Evangelista, Crise do Marxismo e Irracionalismo Pós-Moderno
Carlos Nelson Coutinho, O Estruturalismo e A Miséria da Razão

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