Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


quarta-feira, 23 de março de 2011

A antropologia não nasce do discurso

Lendo o livro Aprender Antropologia, de François Laplantine, recomendado nas faculdades de Ciências Sociais, percebi que há uma demasiada carência de material bibliográfico de qualidade - isto é, metódico, científico, criterioso - nas universidades, ou há, por outro lado (e estou levado a crer que esta segunda hipótese é a mais emergente), pouco critério dos professores na hora de recomendar a seus discípulos um material de estudo rico e com densidade, talvez por desconhecimento - defeito grave para os que estão nessa condição -, talvez por opção (que sintetiza, em si, uma opção ideológica, e, em última instância, política).

O recado a ser emitido a Laplantine deve ser claro: a Antropologia não nasce do discurso. Parece que ele não sabe. Em seu livro, traça um histórico do que ele chama pré-antropologia até o surgimento da ciência em si, baseando-se em citações de personagens do passado e do presente para fazer uma leitura das transformações pelas quais passava o mundo nos séculos XVI, XVII, XVIII e, enfim, XIX, que é quando a Antropologia surgirá enquanto concepção de estudo, com método sistematizado de pesquisa.

O problema é que as citações levantadas por Laplantine sequer envolvem mudanças concretas; elas emitem interpretações ideológicas do mundo, e não uma descrição a respeito das mudanças concretas. Isto é, no livro de Laplantine não estudamos o mundo que muda, e sim as impressões sobre o mundo em questão.

Essa distinção não é tão simplória quanto parece. Sendo assim, pararmos para observá-la não é algo que devemos considerar somente pela conveniência, mas sobretudo pela imprescindibilidade.

Ao estudar a pré-antropologia através de discursos, creditamos todas as situações geradoras dessa ciência como objetos autônomos em si, como ideias que se acumulavam e formavam, sozinhas, aquilo que depois se transformaria na Antropologia tal como conhecemos. Dizem o Laplantine e os seus repetidores que havia, nas críticas feitas pela Igreja, pela burguesia ascendente e por outras categorias sociais, a tentativa de interpretar outros modos de vida que depois evoluiria para a tentativa de constituir uma disciplina específica para estudá-las. Ignoram, assim, a base material que sustentava esse discurso. Por que, afinal, Las Casas defendia os indígenas enquanto Sepúlveda os considerava como bárbaros? Qual a motivação? Quais as circunstâncias anteriores à manifestação do pensamento desses dois, e de tantos outros? Isso é elemento aparentemente secundário no superestimado compêndio laplantiniano.

O equívoco maior aos que observam a fase da pré-antropologia pela perspectiva esboçada no livro Aprender Antropologia envolve, então, a irrelevância a que eles creditam as transformações econômicas. O mundo muda para que depois mudem-se os modos de estudá-lo. A falha de interpretação é tamanha que, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando houve, no contexto de um debate, um questionamento a respeito da possibilidade de a expansão marítima dos séculos XV e XVI terem contribuído para o surgimento da Antropologia, não se soube, nem entre o professorado nem entre o alunado, fazer uma leitura histórica que se permitisse vislumbrar a Antropologia dentro de um contexto geoeconômico, sequer sociológico. Se se soubesse, saber-se-ia por tabela que as premissas que sustentaram a sistematização da Antropologia não envolvia a descoberta de povos exóticos em novos continentes conhecidos.

A mostra maior disso é que a Antropologia surge somente 300 anos depois das Grandes Navegações. Pode-se até dizer que a expansão marítima atravancou o desenvolvimento dos estudos antropológicos, na medida em que deu sobrevida a regimes que se tornaram os últimos baluartes do feudalismo na Europa.

Qual o contexto, afinal, em que surge a Antropologia? Ora, o mesmo contexto no qual surgem a Sociologia, a Geografia, a Economia Política, o Direito Moderno e outros campos do conhecimento; é o contexto das revoluções liberais, que, a partir das alterações nas relações sociais de produção - o surgimento da figura do assalariado, do capital, da mais-valia, etc -, altera gradativamente as instâncias ideológicas daquilo que chamamos sociedade. Sendo assim, muda-se tudo: as escolas, a arquitetura, as religiões e, naturalmente, a ciência, pois esta é diretamente determinada pela infraestrutura, pela base material que a utiliza para dar-lhe respaldo.

A Revolução Industrial, a face econômica desse referido contexto, levaria à necessidade de busca por espaços que pudessem suprir a necessidade material das economias desenvolvidas, como combustível, alimentos, entre várias outras, além de criar um mercado para os produtos industriais excedentes (as sobras do que era consumido pelos europeus). O ponto de partida para que as potências europeias se assumissem enquanto países imperialistas foi a Conferência de Berlim, na qual elas dividiram grande parte do globo terrestre entre si. África, Ásia, Oceania, foi tudo entrando no bolo. Esse neocolonialismo trazia em si não a exploração feita de maneira aventureira e a qualquer modo, e sim a exploração feita de maneira pensada, criteriosa e científica. Trazia em si a necessidade de conhecer a realidade nos seus distintos aspectos. Na medida em que o capitalismo se configura como um modo de produção expansivo, alcançando todos os campos da infraestrutura e da superestrutura (não nos esqueçamos de que hoje tudo é objeto de consumo, e ainda vem mais pela frente), as suas características ideológicas - o senso de unidade, de racionalidade, etc - precisam se alargar também a todos eles. Dominar o outro já não é apenas algo para o qual basta a pólvora como artifício. Exige-se conhecimento, técnica, e meios diversos de não somente dominá-lo enquanto tais, mas elevar o potencial dos povos e espaços dominados, para então se apropriar deles. Esse processo não nos é estranho; aqui no Brasil, o capitalismo foi desenvolvido não pela elite econômica local (pois a elite brasileira sempre foi eminentemente agrária, e não industrial), e sim pelos estrangeiros, que "desenvolviam" para explorar.

Sendo assim, o conhecimento a respeito do modo de vida do outro, de seus costumes, de suas particularidades culturais é uma condição sine qua non para que se possa dominá-lo eficientemente, ou ao menos saber que papel caberá aos povos pesquisados no grande tabuleiro do mapa econômico global. Não havia a busca florida e visionária pela constituição de uma nova ciência; havia a necessidade dela para fins econômicos!

Isso explica o fato de a antropologia francesa não estudar os próprios franceses, ou a antropologia inglesa não estudar os próprios ingleses, entre outros. Eles não se estudam pois não precisam; primeiro porque a exploração que praticam é feita sobretudo fora, não dentro de seu território. Segundo porque eles já se conhecem, já têm no seu processo de formação a compreensão dos elementos que os caracterizam enquanto tais, sejam franceses, ingleses, ou qualquer outro exemplo pensado. Somos nós quem nos estudamos, porque temos um hiato em nossa história e não nos compreendemos: o fato de que para nós, a história começa há cinco séculos. Há um hiato de pelo menos 9500 anos que não se conhece bem porque não se quer conhecer. É uma história restrita aos cientistas e aos interessados. De modo geral, ignora-se o papel desse período na nossa formação.

Além disso, nós não somente nos estudamos, mas somos estudados. O que não faltam são antropólogos financiados por empresas transnacionais para desenvolver suas destacadas pesquisas, recitadas em fóruns e encontros por aí afora.

A perspectiva que buscamos ao apontar estas críticas à pesquisa de Laplantine e a seu uso como objeto de estudo da Antropologia não pretende invalidar o seu trabalho. Apenas questiona a sua utilidade como uma referência na área, uma vez que ele se mostra esvaziado intelectualmente, ignorando aspectos determinantes no assunto estudado. Um trabalho sério e referenciado não pode jamais prescindir de uma noção de totalidade, de uma perspectiva que abranja elementos da realidade concreta, que faça uma interação com outras disciplinas, que seja contextualizado, sob o risco de elaborar um trabalho completo na sua aparência, contudo anacrônico em sua essência. Eis a última definição do trabalho de Laplantine.

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