A perspectiva mais candente hoje no âmbito da esquerda - seja entre partidos políticos, movimentos sociais, entidades representativas e pessoas comuns - é, infelizmente, a perda de vista da História enquanto ciência, a ascensão de um olhar positivista sobre os fatos e a pressa em se reformular uma nova teoria que explique as contradições diversas que vemos atualmente, em 2010 - como se elas fossem distintas daquelas de trinta, cinquenta anos atrás (ou mais do que isso). Esse é o motivo gerador de todos os obstáculos existentes para que se possa fazer uma análise de conjuntura crítica, embasada, e, sobretudo, coerente. Naturalmente, a perspectiva colocada também se pode notar nos agrupamentos de direita, nos órgãos de formulação teórica das elites, mas isso, pelo menos por ora, está fora do propósito do estudo que aqui será colocado.
Abaixo, detalharei da maneira mais compreensível as consequências desse elemento posto. Em síntese, o ensaio se divide em três partes: a primeira na qual traço uma breve análise do(s) modo(s) científico e nãocientífico de se examinar a História - com uma firme defesa do ponto de vista marxista -; a segunda em que eu coloco essa incoerência no âmbito da esquerda, como a confusão frequente entre socialismo e anticapitalismo; e a terceira, com a qual pretendo aplicar a análise feita anteriormente num caso concreto, que é o da China, para, a partir dos ensinamentos postos, termos condições de responder à pergunta clássica: a China é capitalista ou socialista?
É natural que, não tendo eu qualquer formação em História não sendo na base do autodidatismo, cometa alguns equívocos do ponto de vista dos acadêmicos da área, no entanto presumo que essa limitação não compromete o entendimento dos pontos colocados, muito menos a sua validade.
O propósito desse texto, portanto, é mais uma vez aplicarmos o método dialético para compreensão da realidade.
Em defesa da ciência histórica
A História pode ser vista de muitas formas. Como todas as ciências, também pode ser – equivocadamente – observada com olhar anticientífico. Por muitas vezes, isso foi regra, como previam as primeiras correntes que a estudaram, ainda na era dos gregos. Naturalmente, deve-se guardar as proporções, uma vez que os recursos para estudo histórico naquele período não eram abundantes como hoje. O problema é quando, mesmo se dispondo dos recursos, foge-se ao cientificismo da coisa.
Um exemplo disso é a Escola dos Annales, uma corrente que nasceu rompendo com certos componentes históricos reducionistas, como os "heróis", e durante bastante tempo compartilhou com Marx e sua teoria (Materialismo Histórico) a ideia de que o processo histórico se explicava pelos fenômenos e relações sociais, porém atualmente eles têm primado muito pelo irracionalismo e pelo individualismo. A tendência de se analisar a "micro-história", como se pudéssemos dissociar a história de São Paulo da europeia, tem infelizmente, feito escola nos últimos tempos. A concepção filosófica Psicológico-social da História é outra que adentra esse nicho cômodo do pós-modernismo.
O Materialismo Histórico é a concepção segundo a qual Karl Marx pretendia entender o homem como um ser da práxis: ele cria, inventa, produz, faz a História em um processo consciente, bem como rumando numa deliberada intenção (música, arte, religião, filosofia, política, bem como suas ferramentas, residências, áreas de cultivo, estradas, etc). Marx utilizou em seu método a completa ruptura com o idealismo, destacando que o movimento do pensamento é a transposição do movimento real, transportado e transposto para o cérebro do homem, ou seja, a prática é que leva à teoria, numa confirmação do que foi colocado no texto A ideologia e as armadilhas do relativismo, desse mesmo blog.
O Materialismo Histórico de Marx é dialético porque compreende a Humanidade como em constante movimento, e fazendo a História por si mesma, sem qualquer interferência de forças externas sobrenaturais; apenas o caminhar da História e as suas contradições é que a constroem e reconstroem incessantemente. Até que essa teoria viesse à tona, muitas vezes a historiografia tratava como sujeito histórico (isto é, quem faz a História) não o homem, mas sim o destino, alguma lei natural, a Providência, ou então elementos ideológicos (cultura, crueldade de um povo, etc).
A perspectiva marxista permitiu também compreender a maneira como a História se construia, num elo que permite compreender como o desenvolvimento de cada modo de produção fatalmente levaria ao seu limite, fazendo-se necessária a interposição de novas relações produtivas para superá-lo. Isso explica tanto o processo que ocorreu nos países europeus, vivendo as fases de feudalismo, capitalismo, etc, como também serve de elemento-base para estudar o desenvolvimento das sociedades também no Novo Mundo. Esse método de Marx serviu de sustentáculo para a elaboração do socialismo científico enquanto sucessor histórico do capitalismo, único modo de produção capaz de superá-lo, na medida em que sana grande parte de suas contradições.
Será o socialismo anticapitalista?
Desde a Revolução Russa, as lutas contra o capitalismo tem tomado corpo, tendo algumas épocas em que elas se acentuam e outras em que elas ficam na defensiva. Já nos anos 1930, no Brasil, a palavra de ordem do Partido Comunista do Brasil trazia lemas anti-imperialistas e antilatifundiários. Imperialismo e latifúndio são alguns dos elementos mais enraizados nos países de capitalismo tardio, como o Brasil, que demorou mais de um século para desenvolver-se enquanto país capitalista - um processo que ainda não terminou.
Naturalmente, os defensores do socialismo não podem se furtar a aguardar o fim do capitalismo por suas próprias limitações. Contudo, a durável luta dos socialistas sofreu sérias derrotas no correr do Século XX, como a crise soviética, as perseguições aos socialistas no mundo todo, as ditaduras militares na América Latina, os movimentos de rupturas nas esquerdas.
A crise que abateu o socialismo com a dissolução da União Soviética, em 1991, foi a mais grave de todas. Os movimentos imediatamente posteriores haviam perdido a sua referência maior, porém permaneciam nutrindo o espírito de crítica ao capitalismo. A democratização de alguns recursos tecnológicos, como a televisão, os celulares, a internet, levou também ao retorno dos preconceitos antigos que se nutriam aos comunistas, ao se afirmar e tomar como consenso que era um paradoxo um socialista usufruir da tecnologia capitalista. Mas desde quando o socialismo é sinônimo de pobreza ou de primitivismo?
A perda da referência socialista nos anos 1990 e a ascensão neoliberal confundiu muitos movimentos, trazendo de volta doutrinas antes adormecidas, como o anarquismo, o trotskismo e o socialismo utópico. O Século XXI, já tendo em vista o esgotamento do neoliberalismo e a ausência de uma nova perspectiva que o supere, se iniciou com uma estranha unidade aparente no seio da esquerda, onde o discurso anticapitalista se misturava ao discurso socialista como se fossem sinônimos, mas que gradativamente se veriam em conflito. A perda de influência dos partidos comunistas levou a esquerda a se reagrupar em partidos sem uma linha teórica definida (no maior partido de esquerda do Brasil - PT -, se agrupam tendências que se mostram socialistas, sociaisdemocratas, etc), o que também não ajudou a resolver esse imbróglio teórico.
A incoerência se fez e faz tão arraigada que mesmo alguns países que buscam desenvolver um modelo de sociedade alternativo, como a Venezuela e a Bolívia, que fazem suas defesas particulares de um novo socialismo, peculiar às suas realidades, são criticados no seio da esquerda. Os "anticapitalistas" não conseguem entender as dificuldades existentes num processo transitório do capitalismo para o socialismo, sobretudo porque nunca estudaram a fundo tal processo. A simples pretensão de transformar um país pobre e sem um processo avançado de industrialização em socialista tende a se reduzir a um completo fracasso.
Quando muitos socialistas entenderem que para existir socialismo não basta a "vontade política", mas sim que é preciso que haja uma base material sedimentada (que até agora só se foi possível construir nos marcos da economia de mercado), grande parte dos problemas e rixas da esquerda deixarão de existir. Isso nos leva ao terceiro e derradeiro ponto.
O caso da China: capitalismo ou socialismo?
Esta parte do ensaio serve a dois propósitos: um é analisar o caso da China em específico. No outro, pretende-se fazer alguns comentários adicionais a respeito da dualidade inconciliável entre anticapitalismo e socialismo. Há de se convir que a apreciação aqui tem caráter introdutório e generalista, pela impossibilidade de tratá-la com tamanha profundidade nesse texto. Mas demos continuidade, e comecemos por este segundo propósito.
A China tornou-se socialista oficialmente quando o povo chegou ao poder em 1949, sob a liderança do Partido Comunista (PCCh). Na ocasião, mais de 90% da população era reconhecidamente pobre e analfabeta. O País vivia mais de um século de espoliação e humilhação internacional, invasão pelos japoneses, saques e intervenções jurídicas pelos ingleses, tudo isso aliado a uma economia que ainda mantinha vínculo com suas raízes, ou seja, grande parte da sociedade chinesa ainda estava sob um modo de vida que ultrapassara os séculos, de caráter eminentemente feudal. Diversos problemas, de ordem muito mais grave que os enfrentados na União Soviética quando de sua revolução, manteriam a China num estado de pobreza e baixos índices por décadas, como as constantes disputas de poder dentro do Partido e do governo, um quadro internacional adverso e as dificuldades de se mudar a estratificação social milenar. Para piorar, após a morte de Stalin a União Soviética viveria uma guinada contrarrevolucionária que atingiria a própria China, com quem rompeu relações.
Para não me estender muito, vamos direto ao ponto. Nos anos 1970, a China mantinha-se um país atrasado que clamava urgentemente por desenvolvimento. A contradição maior estava posta: como transformar um país feudal em um país socialista? O estudo da ciência marxista demonstrava que era impossível erguer o socialismo sobre bases econômicas ainda não desenvolvidas frutiferamente, isto é: bases capitalistas. É por isso que, segundo Marx, o socialismo só poderia florescer se a revolução ocorresse em um país central (Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, p. ex.). Não era o caso da China. Só coube uma tarefa inglória, portanto, aos socialistas chineses: tratar de desenvolver o capitalismo.
A partir de 1978, sob o lema "um país, dois sistemas", a China colocou em prática um projeto ambicioso que mesclava propriedade estatal e coletiva dos meios de produção com a gestão privada e estrangeira de grandes empresas, mantendo o monopólio dos setores estratégicos (solo, energia, telecomunicações, aviação, etc.) nas mãos de empresas de propriedade dos próprios chineses. Já em 1980, a China era o país que mais crescia no mundo, e assim se manteria nos 30 anos seguintes (ano passado, a China cresceu incríveis 8% em plena crise estrutural do capitalismo). O projeto encampado pelo PCCh colocou em prática a maior industrialização da História, blindando a China de todas as crises que o mundo viveu de lá pra cá (a bolha americana, a crise da Rússia, da Argentina, do Brasil, do México, da Ásia...) e permitindo uma gradativa e acelerada melhora na vida do povo.
Sob um novo estágio de crescimento, a China readquiriu importância global e conseguiu resgatar territórios que há 100 anos estavam ocupados por estrangeiros, como Hong Kong e Macau. Esse país de mil problemas já é o segundo mais industrializado do planeta, em firme galopada rumo ao primeiro lugar. Esta é uma competição que não se reduz mais às burguesias dos países euroamericanos, como acontecia nos anos 1990. A ascensão da China oferece novas perspectivas ao mundo.
A intolerância de pretensos estudiosos no mundo todo ao afirmar que a China "se vendeu" ao capitalismo só não é maior que a sua estupidez. O trabalho econômico realizado naquele país surge com um propósito claro de fortalecer a sua estrutura econômica para um posterior processo de socialização completa. Há uma considerável parte da população chinesa que ainda vive sob um modo de vida medieval. Como incluir essas pessoas em uma economia socialista de intenso dinamismo e produtividade, sem incorrer em paradoxos? Os comunistas que dirigem a China são obrigados a aplicar as antíteses irreversíveis do capitalismo, precisando levar incluí-los numa controlada economia de mercado para que a produção no campo acompanhe o crescimento urbano. É um conflito de princípios que precisa ser enfrentado com seriedade, uma vez que dele não é permitido de maneira alguma fugir, porque os chineses não podem - nem ninguém pôde e poderá - dar um salto histórico, criar um hiato no tempo-espaço.
É muito cômodo, portanto, para "analistas" no mundo todo questionarem o fato de a China se aliar a mecanismos de mercado para impulsionar o seu desenvolvimento; esses ditos intelectuais, contudo, não oferecem nenhum mecanismo alternativo que ofereça aos chineses a possibilidade de desenvolvimento rápido.
O fato de haver capitalismo na China, portanto, não significa que ela não seja um país socialista. Afinal, o socialismo não é a resolução de todos os problemas da humanidade. Ele é apenas um estágio em que a divisão do trabalho, aquela que separa o trabalho intelectual do manual, o produtor do dono da produção, etc, e que atinge seu desenvolvimento pleno no capitalismo (Engels) é gradativamente eliminada. As contradições de classe persistem no socialismo. E os próprios chineses reconhecem que ainda estão no "primeiro estágio do socialismo". A bandeira chinesa já atenta para isso, com suas quatro estrelas menores simbolizando os operários, os camponeses, as classes médias e a burguesia nacional, e circundando a estrela maior, que representa o Partido Comunista.
A noção rasteira que a extrema esquerda tem, de defender o "quanto pior, melhor", é um tiro no pé, pois o socialismo não pode nunca ser confundido com anticapitalismo. O socialismo é a melhora, a superação do capitalismo, e não um modelo "alternativo" ou "rival". Qualquer debate onde o tema em questão seja "capitalismo ou socialismo" já parte de uma premissa equivocada. Quem interpreta dessa maneira já perdeu há muito a perspectiva da ciência, e, neste caso, a luta passa a ser em torno de uma ilação, um idealismo, e não em torno de um projeto passível de concretização.
Infelizmente, o advento das mídias velozes, como TV e internet, instituíram também a pressa na obtenção de informações. Na mesma medida em que entender o mundo se faz necessário e indispensável, existe também a necessidade de tomar postura rápida. Menospreza-se a importância do estudo, amplia-se o olhar senso comum das coisas. A simples pretensão de querer mudar o mundo exige de alguém conhecer o mundo a que se quer mudar. Esse conhecimento não se forma com um olhar positivista ou meramente empírico. Não se forma apenas nas leituras de jornal, muito menos se as leituras se reduzirem às manchetes. Não se forma apenas assistindo ao Jornal Nacional com seu vocabulário de menos de 500 palavras. A teoria é determinada pela prática, entretanto não pode ser subestimada. Em nenhum lugar do mundo pode haver um processo revolucionário vitorioso se não estiver sustentado por uma teoria revolucionária.
Que se mude a postura, portanto, para evitarmos que o discurso de mudanças morra já na sua nascente. Que se apoie o desenvolvimento científico, econômico e social no capitalismo, pois só a partir dele pode-se vislumbrar um futuro de socialismo e justiça para os povos. O desenvolvimento do capitalismo acentua as suas contradições; mas somente o socialismo as cura.
Abaixo, detalharei da maneira mais compreensível as consequências desse elemento posto. Em síntese, o ensaio se divide em três partes: a primeira na qual traço uma breve análise do(s) modo(s) científico e nãocientífico de se examinar a História - com uma firme defesa do ponto de vista marxista -; a segunda em que eu coloco essa incoerência no âmbito da esquerda, como a confusão frequente entre socialismo e anticapitalismo; e a terceira, com a qual pretendo aplicar a análise feita anteriormente num caso concreto, que é o da China, para, a partir dos ensinamentos postos, termos condições de responder à pergunta clássica: a China é capitalista ou socialista?
É natural que, não tendo eu qualquer formação em História não sendo na base do autodidatismo, cometa alguns equívocos do ponto de vista dos acadêmicos da área, no entanto presumo que essa limitação não compromete o entendimento dos pontos colocados, muito menos a sua validade.
O propósito desse texto, portanto, é mais uma vez aplicarmos o método dialético para compreensão da realidade.
Em defesa da ciência histórica
A História pode ser vista de muitas formas. Como todas as ciências, também pode ser – equivocadamente – observada com olhar anticientífico. Por muitas vezes, isso foi regra, como previam as primeiras correntes que a estudaram, ainda na era dos gregos. Naturalmente, deve-se guardar as proporções, uma vez que os recursos para estudo histórico naquele período não eram abundantes como hoje. O problema é quando, mesmo se dispondo dos recursos, foge-se ao cientificismo da coisa.
Um exemplo disso é a Escola dos Annales, uma corrente que nasceu rompendo com certos componentes históricos reducionistas, como os "heróis", e durante bastante tempo compartilhou com Marx e sua teoria (Materialismo Histórico) a ideia de que o processo histórico se explicava pelos fenômenos e relações sociais, porém atualmente eles têm primado muito pelo irracionalismo e pelo individualismo. A tendência de se analisar a "micro-história", como se pudéssemos dissociar a história de São Paulo da europeia, tem infelizmente, feito escola nos últimos tempos. A concepção filosófica Psicológico-social da História é outra que adentra esse nicho cômodo do pós-modernismo.
O Materialismo Histórico é a concepção segundo a qual Karl Marx pretendia entender o homem como um ser da práxis: ele cria, inventa, produz, faz a História em um processo consciente, bem como rumando numa deliberada intenção (música, arte, religião, filosofia, política, bem como suas ferramentas, residências, áreas de cultivo, estradas, etc). Marx utilizou em seu método a completa ruptura com o idealismo, destacando que o movimento do pensamento é a transposição do movimento real, transportado e transposto para o cérebro do homem, ou seja, a prática é que leva à teoria, numa confirmação do que foi colocado no texto A ideologia e as armadilhas do relativismo, desse mesmo blog.
O Materialismo Histórico de Marx é dialético porque compreende a Humanidade como em constante movimento, e fazendo a História por si mesma, sem qualquer interferência de forças externas sobrenaturais; apenas o caminhar da História e as suas contradições é que a constroem e reconstroem incessantemente. Até que essa teoria viesse à tona, muitas vezes a historiografia tratava como sujeito histórico (isto é, quem faz a História) não o homem, mas sim o destino, alguma lei natural, a Providência, ou então elementos ideológicos (cultura, crueldade de um povo, etc).
A perspectiva marxista permitiu também compreender a maneira como a História se construia, num elo que permite compreender como o desenvolvimento de cada modo de produção fatalmente levaria ao seu limite, fazendo-se necessária a interposição de novas relações produtivas para superá-lo. Isso explica tanto o processo que ocorreu nos países europeus, vivendo as fases de feudalismo, capitalismo, etc, como também serve de elemento-base para estudar o desenvolvimento das sociedades também no Novo Mundo. Esse método de Marx serviu de sustentáculo para a elaboração do socialismo científico enquanto sucessor histórico do capitalismo, único modo de produção capaz de superá-lo, na medida em que sana grande parte de suas contradições.
Será o socialismo anticapitalista?
Desde a Revolução Russa, as lutas contra o capitalismo tem tomado corpo, tendo algumas épocas em que elas se acentuam e outras em que elas ficam na defensiva. Já nos anos 1930, no Brasil, a palavra de ordem do Partido Comunista do Brasil trazia lemas anti-imperialistas e antilatifundiários. Imperialismo e latifúndio são alguns dos elementos mais enraizados nos países de capitalismo tardio, como o Brasil, que demorou mais de um século para desenvolver-se enquanto país capitalista - um processo que ainda não terminou.
Naturalmente, os defensores do socialismo não podem se furtar a aguardar o fim do capitalismo por suas próprias limitações. Contudo, a durável luta dos socialistas sofreu sérias derrotas no correr do Século XX, como a crise soviética, as perseguições aos socialistas no mundo todo, as ditaduras militares na América Latina, os movimentos de rupturas nas esquerdas.
A crise que abateu o socialismo com a dissolução da União Soviética, em 1991, foi a mais grave de todas. Os movimentos imediatamente posteriores haviam perdido a sua referência maior, porém permaneciam nutrindo o espírito de crítica ao capitalismo. A democratização de alguns recursos tecnológicos, como a televisão, os celulares, a internet, levou também ao retorno dos preconceitos antigos que se nutriam aos comunistas, ao se afirmar e tomar como consenso que era um paradoxo um socialista usufruir da tecnologia capitalista. Mas desde quando o socialismo é sinônimo de pobreza ou de primitivismo?
A perda da referência socialista nos anos 1990 e a ascensão neoliberal confundiu muitos movimentos, trazendo de volta doutrinas antes adormecidas, como o anarquismo, o trotskismo e o socialismo utópico. O Século XXI, já tendo em vista o esgotamento do neoliberalismo e a ausência de uma nova perspectiva que o supere, se iniciou com uma estranha unidade aparente no seio da esquerda, onde o discurso anticapitalista se misturava ao discurso socialista como se fossem sinônimos, mas que gradativamente se veriam em conflito. A perda de influência dos partidos comunistas levou a esquerda a se reagrupar em partidos sem uma linha teórica definida (no maior partido de esquerda do Brasil - PT -, se agrupam tendências que se mostram socialistas, sociaisdemocratas, etc), o que também não ajudou a resolver esse imbróglio teórico.
A incoerência se fez e faz tão arraigada que mesmo alguns países que buscam desenvolver um modelo de sociedade alternativo, como a Venezuela e a Bolívia, que fazem suas defesas particulares de um novo socialismo, peculiar às suas realidades, são criticados no seio da esquerda. Os "anticapitalistas" não conseguem entender as dificuldades existentes num processo transitório do capitalismo para o socialismo, sobretudo porque nunca estudaram a fundo tal processo. A simples pretensão de transformar um país pobre e sem um processo avançado de industrialização em socialista tende a se reduzir a um completo fracasso.
Quando muitos socialistas entenderem que para existir socialismo não basta a "vontade política", mas sim que é preciso que haja uma base material sedimentada (que até agora só se foi possível construir nos marcos da economia de mercado), grande parte dos problemas e rixas da esquerda deixarão de existir. Isso nos leva ao terceiro e derradeiro ponto.
O caso da China: capitalismo ou socialismo?
Esta parte do ensaio serve a dois propósitos: um é analisar o caso da China em específico. No outro, pretende-se fazer alguns comentários adicionais a respeito da dualidade inconciliável entre anticapitalismo e socialismo. Há de se convir que a apreciação aqui tem caráter introdutório e generalista, pela impossibilidade de tratá-la com tamanha profundidade nesse texto. Mas demos continuidade, e comecemos por este segundo propósito.
A China tornou-se socialista oficialmente quando o povo chegou ao poder em 1949, sob a liderança do Partido Comunista (PCCh). Na ocasião, mais de 90% da população era reconhecidamente pobre e analfabeta. O País vivia mais de um século de espoliação e humilhação internacional, invasão pelos japoneses, saques e intervenções jurídicas pelos ingleses, tudo isso aliado a uma economia que ainda mantinha vínculo com suas raízes, ou seja, grande parte da sociedade chinesa ainda estava sob um modo de vida que ultrapassara os séculos, de caráter eminentemente feudal. Diversos problemas, de ordem muito mais grave que os enfrentados na União Soviética quando de sua revolução, manteriam a China num estado de pobreza e baixos índices por décadas, como as constantes disputas de poder dentro do Partido e do governo, um quadro internacional adverso e as dificuldades de se mudar a estratificação social milenar. Para piorar, após a morte de Stalin a União Soviética viveria uma guinada contrarrevolucionária que atingiria a própria China, com quem rompeu relações.
Para não me estender muito, vamos direto ao ponto. Nos anos 1970, a China mantinha-se um país atrasado que clamava urgentemente por desenvolvimento. A contradição maior estava posta: como transformar um país feudal em um país socialista? O estudo da ciência marxista demonstrava que era impossível erguer o socialismo sobre bases econômicas ainda não desenvolvidas frutiferamente, isto é: bases capitalistas. É por isso que, segundo Marx, o socialismo só poderia florescer se a revolução ocorresse em um país central (Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, p. ex.). Não era o caso da China. Só coube uma tarefa inglória, portanto, aos socialistas chineses: tratar de desenvolver o capitalismo.
A partir de 1978, sob o lema "um país, dois sistemas", a China colocou em prática um projeto ambicioso que mesclava propriedade estatal e coletiva dos meios de produção com a gestão privada e estrangeira de grandes empresas, mantendo o monopólio dos setores estratégicos (solo, energia, telecomunicações, aviação, etc.) nas mãos de empresas de propriedade dos próprios chineses. Já em 1980, a China era o país que mais crescia no mundo, e assim se manteria nos 30 anos seguintes (ano passado, a China cresceu incríveis 8% em plena crise estrutural do capitalismo). O projeto encampado pelo PCCh colocou em prática a maior industrialização da História, blindando a China de todas as crises que o mundo viveu de lá pra cá (a bolha americana, a crise da Rússia, da Argentina, do Brasil, do México, da Ásia...) e permitindo uma gradativa e acelerada melhora na vida do povo.
Sob um novo estágio de crescimento, a China readquiriu importância global e conseguiu resgatar territórios que há 100 anos estavam ocupados por estrangeiros, como Hong Kong e Macau. Esse país de mil problemas já é o segundo mais industrializado do planeta, em firme galopada rumo ao primeiro lugar. Esta é uma competição que não se reduz mais às burguesias dos países euroamericanos, como acontecia nos anos 1990. A ascensão da China oferece novas perspectivas ao mundo.
A intolerância de pretensos estudiosos no mundo todo ao afirmar que a China "se vendeu" ao capitalismo só não é maior que a sua estupidez. O trabalho econômico realizado naquele país surge com um propósito claro de fortalecer a sua estrutura econômica para um posterior processo de socialização completa. Há uma considerável parte da população chinesa que ainda vive sob um modo de vida medieval. Como incluir essas pessoas em uma economia socialista de intenso dinamismo e produtividade, sem incorrer em paradoxos? Os comunistas que dirigem a China são obrigados a aplicar as antíteses irreversíveis do capitalismo, precisando levar incluí-los numa controlada economia de mercado para que a produção no campo acompanhe o crescimento urbano. É um conflito de princípios que precisa ser enfrentado com seriedade, uma vez que dele não é permitido de maneira alguma fugir, porque os chineses não podem - nem ninguém pôde e poderá - dar um salto histórico, criar um hiato no tempo-espaço.
É muito cômodo, portanto, para "analistas" no mundo todo questionarem o fato de a China se aliar a mecanismos de mercado para impulsionar o seu desenvolvimento; esses ditos intelectuais, contudo, não oferecem nenhum mecanismo alternativo que ofereça aos chineses a possibilidade de desenvolvimento rápido.
O fato de haver capitalismo na China, portanto, não significa que ela não seja um país socialista. Afinal, o socialismo não é a resolução de todos os problemas da humanidade. Ele é apenas um estágio em que a divisão do trabalho, aquela que separa o trabalho intelectual do manual, o produtor do dono da produção, etc, e que atinge seu desenvolvimento pleno no capitalismo (Engels) é gradativamente eliminada. As contradições de classe persistem no socialismo. E os próprios chineses reconhecem que ainda estão no "primeiro estágio do socialismo". A bandeira chinesa já atenta para isso, com suas quatro estrelas menores simbolizando os operários, os camponeses, as classes médias e a burguesia nacional, e circundando a estrela maior, que representa o Partido Comunista.
A noção rasteira que a extrema esquerda tem, de defender o "quanto pior, melhor", é um tiro no pé, pois o socialismo não pode nunca ser confundido com anticapitalismo. O socialismo é a melhora, a superação do capitalismo, e não um modelo "alternativo" ou "rival". Qualquer debate onde o tema em questão seja "capitalismo ou socialismo" já parte de uma premissa equivocada. Quem interpreta dessa maneira já perdeu há muito a perspectiva da ciência, e, neste caso, a luta passa a ser em torno de uma ilação, um idealismo, e não em torno de um projeto passível de concretização.
Infelizmente, o advento das mídias velozes, como TV e internet, instituíram também a pressa na obtenção de informações. Na mesma medida em que entender o mundo se faz necessário e indispensável, existe também a necessidade de tomar postura rápida. Menospreza-se a importância do estudo, amplia-se o olhar senso comum das coisas. A simples pretensão de querer mudar o mundo exige de alguém conhecer o mundo a que se quer mudar. Esse conhecimento não se forma com um olhar positivista ou meramente empírico. Não se forma apenas nas leituras de jornal, muito menos se as leituras se reduzirem às manchetes. Não se forma apenas assistindo ao Jornal Nacional com seu vocabulário de menos de 500 palavras. A teoria é determinada pela prática, entretanto não pode ser subestimada. Em nenhum lugar do mundo pode haver um processo revolucionário vitorioso se não estiver sustentado por uma teoria revolucionária.
Que se mude a postura, portanto, para evitarmos que o discurso de mudanças morra já na sua nascente. Que se apoie o desenvolvimento científico, econômico e social no capitalismo, pois só a partir dele pode-se vislumbrar um futuro de socialismo e justiça para os povos. O desenvolvimento do capitalismo acentua as suas contradições; mas somente o socialismo as cura.
Livros de auxílio
K. Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (Ed. Paz e Terra, 1997)
F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade... (Global Editora, 1984)
J. Stalin, Materialismo Dialético e Materialismo Histórico (Global Editora, 1978)
E. Jabbour, China: Infra-Estruturas e Crescimento... (Ed. Anita Garibaldi, 2006)
H. Lima, China: 50 Anos de República Popular (Ed. Anita Garibaldi, 1999)
K. Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (Ed. Paz e Terra, 1997)
F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade... (Global Editora, 1984)
J. Stalin, Materialismo Dialético e Materialismo Histórico (Global Editora, 1978)
E. Jabbour, China: Infra-Estruturas e Crescimento... (Ed. Anita Garibaldi, 2006)
H. Lima, China: 50 Anos de República Popular (Ed. Anita Garibaldi, 1999)

Nenhum comentário:
Postar um comentário