Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Mais ideologia: Twitter, Formspring e a solidão dessas capitais

Quem não gosta do Formspring? Particularmente, quando vi, achei ótima ideia: um perfil de determinada pessoa onde qualquer visitante, conhecedor ou não do dono do perfil, pode fazer a pergunta que quiser, seja ela séria, indiscreta, acadêmica, besteirol. Prato cheio para admiradores secretos exporem suas frases floridas, e para meninas invejosas lançarem pegadinhas loucas para deixar seu alvo em contratempo. Contudo, de nada adianta: o dono do perfil, afinal, responde o que quiser. De uma maneira ou de outra, será que o Formspring é assim tão inofensivo, desprovido de qualquer propósito, seja ele consciente ou não? Pensaremos mais à frente.

E o Twitter? Esse, não posso dizer que gostei. O Twitter é o espaço raso onde somente as pessoas bem-situadas nesse nosso tempo conseguem se sentir confortável. Eu nunca consegui transmitir mensagens escrevendo frases únicas. Mas vivemos na era das frases. Tudo se pode resumir numa frase. Há um romantismo tão grande nisso que, quando conheci Nietzsche, na minha niilista adolescência, até me surpreenderia com aquele prelúdio para uma filosofia do futuro, no qual não tardou e me deparei com um capítulo chamado Máximas e Interlúdios: ela se continha apenas de frases, frases e mais frases! Aquilo me espantou de batepronto. Até tu, Brutus?!

Somente depois eu descobriria a lógica dos aforismos nietzscheanos, bem como de outros filósofos que dela se utilizaram, como Marx. Aliás, esses dois, Nietzsche e Marx estão entre os pensadores hoje mais conhecidos em frases únicas. A única coisa que eu percebi depois é que nas frases que antes se costumava extrair desses próprios alemães ou de quaisquer outros filósofos, músicos, poetas e outras variantes, havia um elemento alegórico que explicava o porquê das mensagens, afinal elas não haviam sido produzidas descontextualizadamente. Se alguns utilizavam frases em aforismos, sintetizando ideas e conceitos, agora tudo se tornou muito vazio de sentido. Neste século que ainda se inicia - e eu não sei se isso é bom ou ruim, porque esse século tem tudo pra ser pior do que o anterior -, as frases enquanto tais não têm qualquer elemento simbólico. Certo dia, assisti a uma monografia na faculdade onde estudo e o apresentador, ao final da exposição, fez questão de apresentar uma frase de sua autoria: quando tiver dúvidas na vida, siga sempre o coração. Menos eloquente, impossível. Mas as sentenças curtas estão tão popularizadas que qualquer junção de termos, não necessariamente havendo sujeito, e não necessariamente havendo coerência ("qualquer coisa é a merma coisa"), vira um preceito a ser passado adiante, como um ensinamento. Claro, alguém pode dizer que há muito de humor, para romper com essa sisudez que pessoas como eu aparentam carregar. Mas até para fazer humor antes era preciso algum exercício mental. Hoje, não fazer nada é motivo de humor. E isso ganha ares nobres, vez que denota que as pessoas não levam a vida tão a sério, são "livres", vivem sossegadamente, desprendidamente...

Toda essa delonga traz uma crítica ao Twitter que é conceitual. Porque o Twitter atrofia o raciocínio. Ele é um compêndio virtual para a estupidez. Afinal, fala-se de tudo lá, de política, de comportamento, de música, fala-se do tempo, se vai chover ou não, entre outras coisas, com a mesma profundidade que uma poça d'água contém. Ele é, como tudo o que é pessoal na internet, uma extensão humana, uma prótese informatizada do intelecto da pessoa que o possui (sinto que 90% das pessoas que lessem o que eu digo tentariam "argumentar", em sua defesa, que o que falo é uma generalização, o que pra mim é irrelevante: afinal, se eu precisasse ressaltar que isso é uma generalização, estaria desconfiando da própria capacidade do leitor de compreender isso). O fato estabelecido é que as pessoas se tornam aquilo que o Twitter mostra que elas são. Não conheço ninguém satisfeito com seu Twitter que consiga, em uma conversa, apresentar uma profundidade de pensamento maior do que aquela que ele expõe nos seus tweets. O Twitter é a expressão pela qual ele manifesta suas opiniões e pela qual ele absorve as opiniões alheias, lê notícias, e amplia sua pretensa visão de mundo, mas o mundo não é virtual, o mundo é real e precisa ser pensado, criticado. A filosofia do Twitter vai de encontro a isso. Não há espaço para a crítica no Twitter. Você posta e está postado. Alguém pode até questionar o que foi dito, mas o questionamento nunca tem a mesma amplitude da informação primeira. E mesmo considerando que tivesse, há de se dizer que, por que quem segue questionaria? Veja-se como se dá a rede no Twitter: seguidores. Eu sigo você porque, descontando os casos de amizade e afins, acredito que você tem algo a dizer que me interessa. Está dada a única interatividade no Twitter, e ela morre aí. Todo o resto vem de uma maneira verticalizada. O sujeito pode postar uma notícia e você saberá do tsunami no Círculo do Fogo do Pacífico. Ou o sujeito posta uma piada e você responde dizendo que gostou, ou que a piada foi racista, ou que a de ontem foi melhor, ou que ouviu essa piada em algum lugar, e tudo isto a ninguém interessa senão ao dono da piada, que quanto mais mensagens receber, mais verá que sua voz vai longe na Internet. Não é à toa que muitos jornalistas, políticos, ou mesmo os "famosos" - aqueles a quem conhecemos mas que nunca fizeram nada produtivo na vida - são fãs do Twitter. Não lembro onde li que 60% dos usuários dessa rede são formadores de opinião. Por que será que tais personalidades não estão no Orkut? Existe um medo de interação, um medo de embate ideológico e intelectual que os amedronta, e que amedronta quase todos os usuários do Twitter (e inclusive muitos usuários do próprio Orkut). É uma tensão que as pessoas preferem evitar desde antes de a mensagem ser transmitida. No Orkut, frequentemente se escrevia algo mas sempre se salientava que se tratava de uma opinião e que deveria ser respeitada - uma maneira burra de dizer "por favor, não me critiquem" -, uma ressalva que não se faz necessária no Twitter.

Quando eu digo que uma das causas/consequências do Twitter é o atrofiamento do raciocínio, não estou querendo bancar o sujeito verborrágico; falo isso, no mínimo, por uma constatação empírica. O Twitter é um vício, e os vícios são difíceis de serem tratados, de maneira que eu não creio que ninguém seja assim por vontade própria. Mas se considerarmos que há tanta dificuldade em se estabelecer um diálogo inteligente com alguém, talvez algumas das considerações colocadas aqui expliquem um pouco disso. A interação, afinal, não se faz com polêmica. Aliás, o máximo de polêmica a que as pessoas se permitem hoje é quando se trata de uma fofoca. O assunto rola e elas querem estar dentro de alguma maneira. Não existe polêmica quanto a assuntos "chatos". Não lembro ninguém que, de cabeça, se proponha a discutir filosofia ou astronomia, pra não precisar chegar nos manjados futebol, religião e política. Comportamento também não discutem - aliás, até discutem, desde que seja o dos outros. Discutir música, mulher/homem, isso então nem pensar. O negócio é fofocar, pois opinião não existe mais. Salientou bem o Lobão certa vez, quando disse que no país da fofoca, ter opinião é um tabu. Que opinião tem uma pessoa que não discute sobre religião, comportamento, política, música, gênero oposto? Essas coisas são a síntese de todas as nossas relações e de nosso cotidiano e no entanto o senso comum já abstém quem quiser de pensar um pouco sobre isso. Com isso, a qualidade das conversas despenca. A maioria dos meus amigos nem sabe perguntar mais. Apenas são perguntados. Quando perguntam, é algo sobre o dia. Não perguntam o que eu acho da menina que sobreviveu à queda de um avião: o assunto não é nada interessante, mas seria um bom começo, mostraria que eles ainda detêm tal habilidade. A conversa vai morrendo na obviedade. O msn hoje é um recurso anacrônico, pois a maioria das pessoas entra e fica calado, mesmo tendo dezenas de amigos online - todos conhecidos, portanto, qual o motivo do acanhamento? É um distanciamento real que ocorre com a proximidade virtual, aliada àquele atrofiamento que eu falei que os recursos tecnológicos oferecem (eu centrei no Twitter, mas poderia ser qualquer coisa, poderia ser o SMS, poderia ser a cafeteira elétrica, etc.)

Para superar esse distanciamento, fez-se necessário criar um recurso que reaproximasse as pessoas. Que recurso é esse? Ora, um site onde a única maneira de alguém se comunicar com você seja fazendo alguma pergunta! Será mera coincidência a ordem como as coisas vão virando sensação na Internet? Naturalmente não. Nada é coincidência. Há toda uma sequência de fatos que aprofunda essa dificuldade de comunicação das pessoas, isolando-as de questões que não a interessam. Enquanto no Orkut, você entra em uma comunidade mas não participa porque não gosta de discutir, o Twitter supre isso, já que não oferece embates. Enquanto no msn você precisa sustentar uma conversa com uma pessoa, no Formspring, basta que a pessoa te faça duas ou três perguntas por dia, e a amizade segue.

No Formspring, cada um faz a pergunta que quiser. Nem precisa se identificar. Mas caso se identifique, melhor: demonstrará que mantém o laço com tal pessoa. Se você não conhece a pessoa, pode perguntar mesmo assim algo que levaria duas horas de conversa para conseguir saber. Com meia dúzia de perguntas, você já exprimiu sua personalidade da maneira que quis (divertido, romântico, zombeteiro, sincero, inquisidor, compreensivo...) e a pessoa que responde já fez a mesma coisa. Prato cheio quando se trata de duas pessoas do sexo oposto carentes de uma relaçãozinha amorosa, como se a relação, em si, conseguisse preencher esse vazio que temos sentido.

O problema das pessoas não é falta de amor. É falta de reflexão. Amor não se busca, como amizade não se busca. É claro que as pessoas tentam adquirir da maneira mais fácil. O orkut tá cheio de comunidades de solteiros divididos por bairro pra facilitar a pegação. Na Internet, todo mundo adora fazer amigos e gosta mesmo. Deve haver uma sensação de autoafirmação preenchida quando alguém posta alguma frase engraçadinha no Twitter ou quando responde alguma pergunta indiscreta no Formspring de maneira perspicaz, sutil ou esperta, quase sempre insinuando a homossexualidade alheia. É o espírito da decadência com elegância fazendo escola na internet. Somos todos vítimas dele; eu mesmo, com todas as críticas que teço, estou suscetível a tudo. Mas felizmente não me rendi ao Twitter e ao Formspring, como também não ao Facebook e outras redes que dividem pessoas pelo número de amigos, ou pelos livros que lê, ou pelas músicas que ouve, tudo como se fosse um ranking, uma lista, onde não se questiona nada, onde as pessoas são tal como se mostram, metafísicas, imutáveis. Seria um fato curioso, se não fosse algo compreensível pelos motivos que aqui falei, que pessoas que leiam tanto e tenham bom gosto para algumas coisas consigam ser tão desarticuladas. A internet não é culpada. Ela existe e com ela devemos aprender a conviver. O problema reside em permitir que tudo que dela venha se sobreponha a todo o restante que existe de produtivo por aí. Ou as pessoas começam a exercitar o intelecto ou essa condição de sujeito apático e palerma se dissemina ainda mais, desabando, nós todos, num poço sem fim de demência e mediocracia.





4 comentários:

Rodrigo Capistrano disse...

Engraçado, há alguns meses, eu estava conversando com um primo meu justamente sobre isso.

A gente falava que ser intelectual hoje se resume a atulhar o perfil do orkut de frases alheias. Ficamos até zombando de como as pessoas interpretavam mal os aforismos de Nietzsche. Aliás, perdi a conta de vezes que vi frases de Nietzsche ou de Schopenhauer em perfis do Orkut. Depois procurava saber se as pessoas realmente conheciam o pensamento dos caras, mas o conhecimento delas se resumia só àquelas frases do perfil mesmo.

Quanto ao twitter e ao formspring, não cheguei sequer a ser usuário, só ouço as pessoas falarem nisso, mas ainda não aderi. Eu sempre suspeito do que as pessoas falam demais.

Abraço, Leon.

Mari ♥ disse...

Confesso que uso muito a internet como distração- às vezes como fuga, até, ré-confessa- e sou adepta sim de algumas dessas redes sociais, e das quais me canso fácil e acabo quase sempre "largando de mão", como se fosse uma "experimentação" de momento. Como diz um amigo meu numa frase simplista, mas eficiente: "É muita rede social surgindo, e pouca gente com algo interessante a acrescentar". Auto-afirmação, frases copiadas, como citou Rodrigo, acima, culto ao ego, propaganda de si mesmo, vazio, falência da palavra, é o que encontro, são raras as pessoas com quem consigo estabelecer um diálogo produtivo, de fato. Há quem me adicione no MSN e diga apenas "olá, td bem?" e não passa disso mesmo se eu "puxo assunto", popularmente falando- parece que essas pessoas não têm muito o que dizer, ou até têm, mas não me adicionaram por isso, só pra ter números, mais um nome de garota na sua lista de contatos. Conversando com uma amiga, em uma de nossas "saídas pelas noites de São Paulo", nos questionamos: "Onde estão as pessoas com algo a dizer, com alguma originalidade nas atitudes e opinião própria?" Chegamos à conclusão: estão no orkut! Lá é muito fácil fazer propaganda do que não se é. Sim, gosto da internet, pra distração, pra troca de idéias, pra leitura,até, mas como disse sabiamente uma professora da faculdade há uns anos atrás: "A internet traz informação. Mas o conhecimento...este ainda está nos livros!" Não ouso discordar.

Anônimo disse...

Assim que surgiu o Formspring me inscrevi lá. tinha o péssimo hábito de me inscrever em tudo que via. Em seguida deletei porque não achei graça nenhuma. parece mais coisa de quem quer se exibir. Mas seria uma ótima alternativa para respondermos dúvidas quanto aos nossos blogs. É um caso a pensar, mesmo.

Tenho um twitter onde só sigo sites de notícias. antes de deletar o meu, tinha uns 200 seguidores e seguia uns 100. não podia nem entrar pois tinha que ficar retribuíndo os beijos, na maioria das vezes, falsos de várias pessoas. Não suportava que me indicassem para seguir e nem seguia o que me indicavam e ficava por lá destilando todo meu mau humor ao ver centenas de bobagens sendo ditas a todo momento. Mas, todo isso é porque sou antisocial, quem não é, se diverte.

Teu texto não é longo, para quem gosta de ler textos longos. É uma reflexão muito séria. Muitos blogueiros abandonaram os blogues pelo twitter mas, acredito que; felizmente ainda há os que evitam essa ferramenta como fonte de relacionamento.

Quando fiz a crítica sobre o twitter e outras formas de ranking, apareceu um cara no meu blog que disse que eu o estava ofendendo, que ele queria construir uma amizade comigo e da forma como eu estava procedendo seria difícil.
Sensível, como tu sabes que sou, deixei a postagem em rascunho e me decepcionei com o diariodeizaberum.

Quanto a esse cara que queria propor amizade nem leu sobre o faato de que sou antisocial e não construo amizade de uma hora para outra( tinha me conhecido, há duas semanas) e isso me irritou muito.

Gostei de teu recado quanto aos meus blogs e agora, cada um deles tem uma forma diferente. Construí um objetivo para cada um. Fracionei os meus diversos estados de humor e agora pretendo tratar de cada um em blogs diferentes.

Você nem precisa se preocupar em acompanhar a todos, escolha o que mais gosta ou o que mais se identificará.

Coloquei toda a lista de blogs em uma página só. No final de semana vou linkar os amigos em cada um dos meus blogs.

Você tem o link do diariodeizaberum. Ele vai ficar cada vez mais depressivo, se quiser trocar por outro troque.

Beijos!

Anônimo disse...

Puxa, justamente o que imaginei: você está no twitter.
Depois de um texto tão interessante, é muito triste verficiar e te achar no... twitter!