Há três maneiras de se relacionar com a História: a primeira é aprender sobre ela por meio de livros, vídeos e recursos de naturezas diversas. A segunda é estar presente no episódio que transforma um fato comum num momento histórico. A terceira, a mais intensa, a mais efetiva, é fazer a própria História; ser protagonista dela.
Essa premissa inicial é básica para entendermos a relevância da participação brasileira no Haiti. Os problemas enfrentados por esse pequeno país não podem ser medidos somente pela aparência, sem um foco extra. A aparência – aquilo que se vê, que está na superfície – denuncia a carência, o caos, o pedido de ajuda. Mas não explica nenhum desses fenômenos. Conhecer a explicação deles presume adentrar na sua essência, que, no caso do Haiti, tem vínculo indissociável com seu conturbado processo histórico.
É conhecendo o ontem que se pode atuar no hoje, afinal; e é atuando de maneira conseqüente no hoje que se pode construir um amanhã, senão de prosperidade e opulência, ao menos de pão, paz e estabilidade para esse povo.
É a isso que este livro se propõe. A esse propósito construtivo. Não é apenas mais uma análise, mais uma interpretação a respeito da contraditória realidade haitiana, mas vai além: é obra que está lá, na Ilha, por meio de suas fontes e de seu balanço, adequado no tempo e no espaço, formulado de maneira tal que permite a quem o lê estar lá nos distintos momentos da história daquele país: é quase possível visualizar episódios marcantes para os haitianos, tanto as deposições, as rebeliões, como outros momentos que não envolvem os protagonistas, mas as massas, o povo carente, vivendo numa terra que há séculos só vê conflito no horizonte, sendo, como se não bastasse, ainda castigada por muitas outras chagas, como o tráfico de drogas, as doenças e as catástrofes naturais, sobretudo o furacão Jeane, que chocou o mundo e ajudou a ampliar a pressão internacional por mais ajuda aos haitianos – ainda continua sendo pouco.
É este primeiro panorama que conhecemos na leitura deste livro-reportagem. A partir dele, adentramos numa viagem intelectual por um assunto não menos interessante e cuja pertinência é desnecessário justificar, que é exatamente a atuação das forças humanitárias, em especial do Brasil – e, dentre a presença brasileira, destaque para a presença das forças treinadas no Piauí –, num dos territórios mais instáveis do mundo.
É fácil entender o mérito da pesquisa feita quando nos vemos diante das etapas burocráticas que levaram o Brasil a se envolver num caso de difícil solução, um jogo no qual muita gente torce contra os brasileiros (inclusive aqui mesmo em nosso país), dos momentos marcantes, positivos e negativos, da presença brasileira em terra estranha – ainda que tão próxima. Enfim somos apresentados a nuances que as manchetes dos jornais – principal fonte de informação dos brasileiros a respeito do que tem feito as Forças Armadas no Haiti – não têm condições de apresentar. Conhecemos não somente a realidade haitiana, como foi dito. Compreendemos os paradoxos da política externa, os potenciais de nossos militares, aventurando-se naquele território, os limites que a eles são impostos, lamentamos as baixas sofridas. Num país em que tão pouca importância se dá à atuação externa brasileira (há quem ache tudo isso uma perda de tempo, como se o mundo lá fora não interferisse aqui em nossas plagas), esse livro vem ressaltar a importância global que tem conquistado nosso país, a presença de destaque a que nossas Forças Armadas têm se proposto.
Forças Armadas não servem somente para fazer guerra. A História é impiedosa e nos leva a alimentar tais preconceitos. Mas a História é um caderno do qual a grande maioria das páginas ainda está em branco. O Haiti parece distante de nós, mas está mais aqui do que imaginamos. A dura experiência por que passa a população daquele país nos deve servir de lição: primeiro, o que não devemos aceitar para nosso país; segundo, que, mesmo com toda desgraça, o futuro traz sempre uma esperança. Não seria de se duvidar se aquele slogan que diz sou brasileiro e não desisto nunca tivesse sido inspirado na experiência haitiana. Este livro nos aproxima daquele conflito e nos faz lembrar que enquanto estivermos lá naquele território, somos responsáveis pelo sucesso que conquistarem, mas o retrocesso que sofrerem também é nosso. Os riscos existem? Existem, e a tarefa não seria importante e estratégica se não existissem. Mas é dos riscos que nascem os desafios. Esse é mais um. Sabendo que todo problema traz em si o germe de sua solução, livros como esses se fazem essenciais para que todos nós não apenas conheçamos a realidade haitiana, mas de alguma maneira participemos dela.

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