Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Pode tudo em matéria de humanas?

Em momentos como o atual, em que as ciências humanas são reduzidas a conhecimento de peso menor e se faz urgente defender disciplinas como sociologia e filosofia como necessárias à formação do cidadão, acho curioso que mesmo pessoas dessas áreas alimentem esse estigma, ao se oferecer em "correntes solidárias" nas redes sociais para ajudar alunos que se preparam pro ENEM. São estudantes de Sociologia se oferecendo pra ensinar Geografia, estudantes de Geografia se oferecendo pra ensinar História, estudantes de História se oferecendo para ensinar Filosofia... alguns vão além: se oferecem pra ensinar tudo "em matéria de humanas". Mas tem mesmo rigor em uma ciência alguém que tem formação em outra? O fato de haver conteúdos e leituras afins justifica ultrapassar os limites de seu campo, e fazer propaganda disso? Que precisão terá na abordagem em Filosofia alguém que está se formando em Sociologia e vice-versa?
Suspeito que o que a maioria das pessoas entende de Geografia equivale a regra de três e fórmulas geométricas na Matemática, ou seja, o suficiente para quebrar o galho e ganhar umas questões - mas ninguém sai se oferecendo para ensinar Matemática pro Enem, por que será? Matemática, Física, Química, isso aí são objetos de cursos isolados. Geografia, Sociologia, Português, História, são "conhecimento geral", quase "senso comum", que qualquer pessoa que assiste a documentários na National Geographic pode ensinar.
Não quero com isso desmerecer a importância de campanhas solidárias nem dizer que é proibido a pessoas oferecer dicas ou mesmo dar aulas particulares em áreas que são de seu interesse e onde você demonstre algum domínio. Eu faria e faço o mesmo. No entanto, considero pouco educativo - e, pro contexto de uma luta séria que estamos travando, também contraproducente - nós nos assumirmos como detentores das condições de oferecer isso para pessoas que já devem carregar consigo uma formação precária, apenas baseados nas impressões que temos de que portamos quilate suficiente para ensiná-lo.
Me lembra muito o Amigos da Escola, projeto da Globo adotado por FHC, que incentivava pessoas que "gostassem" de esportes, artes, literatura e qualquer coisa assim a irem lá "ajudar" os alunos nas escolas voluntariamente, com um monte de gente formada nessas áreas estando por aí a ver navios...




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