Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Meras inconveniências?

É curioso como os índices econômicos praticamente sumiram dos noticiários nesses meses de governo biônico. Em 2015, todo dia tínhamos novidades (negativas) sobre desemprego, inflação, PIB, queda de receita, retração econômica de diversos setores, etc. Quando não havia novos dados, requentavam os velhos. Agora, isso mudou. Eventualmente, quando o IBGE publica alguns de seus balanços, eles aparecem nos jornais para logo sumir. Muitas vezes, desemprego e PIB negativo são apresentados como meras inconveniências com as quais se deparam as pessoas que estão no mercado de trabalho.
A consequência disso é que não se tem mais noção de continuidade nem, muito menos, de como é feita a ligação entre os referidos índices e as decisões políticas do governo. Com Dilma, cada decisão já tinha seu reflexo imediato no "comportamento do mercado" e em outras variáveis de interpretação questionável, de modo que, antes de ela assinar a papelada, já sofria os revezes da decisão. Sobre Temer, mesmo tendo acabado com a Controladoria Geral da República no primeiro dia de mandatário, tendo mudado o regime fiscal e estar pondo em curso o desfiguramento da Previdência, ainda tem quem diga que "não dá para analisar seu governo em tão pouco tempo". Pior: a discussão da PEC 55 criou o bizarro fenômeno dos defensores "que entendem de orçamento e gestão" - mas que não se amparam em nenhum dado técnico para defender seus propósitos - e dos críticos "que não entendem nada" dos mesmos tópicos. A resposta ideológica a qualquer questionamento do governo - usada sempre para defendê-lo ou, no mínimo, isentá-lo - se tornou muito mais solidificada do que a do mais fanático petista nos prósperos anos Lula.
Aos poucos, no entanto, os nocivos resultados econômicos de Temer começam a ser pincelados. Ao mesmo tempo, também são pincelados escândalos de corrupção que, no conjunto, favorecem a desestabilização do governo, de modo que, nos altos escalões, já se fala abertamente na sua destituição. É interessante observar uma emblemática distinção entre os meses que antecederam a derrubada de Dilma e os que parecem prenunciar a de Temer: há exatamente um ano, Dilma colocava Nelson Barbosa no comando da economia, tentando remendar os equívocos de um ajuste fiscal sem critério que a levaram a uma imensa perda de popularidade. Porém, já era tarde: a presidente já não conseguiria aprovar nada a partir dali. Nenhuma das 14 medidas enviadas pelo ministro foi aprovada no Congresso. Ela foi boicotada também por todos os demais aparatos do Estado, que, no final das contas, não se encontravam sob seu comando, aparelhados que estavam desde os nada republicanos anos 90 (aparelhamento que o PT não pôs em questão em nenhum momento); Temer, cujo comando dos tais aparatos é ainda mais frágil, consegue, por outro lado, aprovar tudo o que quer. Muda a Constituição - se é que ainda temos Constituição - com a facilidade de quem pisca os olhos. Tem a maior base congressual de todos os tempos. Suas vitórias folgadas no Parlamento lembram a dos nossos velhos ditadores - não por acaso.
Mesmo com tudo isso, essa base de Temer deve se diluir sem muitos traumas quando chegar a sua vez de deixar o Palácio. Temer, é importante saber, não é um neoliberal orgânico. E o PMDB, embora seja tão demonizado, também não é o que pintam; os que se esforçam para condená-lo parecem estar apenas procurando um alvo para canalizar sua revolta, sem se dar conta de que esse alvo tem pés de barro.
Como todos os golpes já empreendidos na História, este também confirma que ele não se encerra em um ato. Um golpe, afinal, é sempre demonstrado pelo que vem depois: realinhamentos, traições, velhos personagens sendo jogados para escanteio ao sabor das circunstâncias. O problema é que nunca se sabe quando ele vai terminar.




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