Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


domingo, 27 de novembro de 2016

Por menos ressalvas

As muitas ressalvas feitas por personalidades de esquerda acerca da partida de Fidel demonstra toda a dificuldade desse segmento de construir qualquer projeto autônomo. Não perceberam ainda um preceito básico: que "ditadura" e "democracia" é um termo que sempre foi usado ao sabor dos interesses dos EUA. Não entendem ainda que reconhecer que Fidel foi um herói não significa idolatrá-lo, mas deixar claro que nós, os resistentes latino-americanos, temos nossos referenciais, assim como eles têm os deles. 
Cada vez que manifestamos um "pé atrás", estamos dizendo para os que por séculos usurparam o continente: "vocês estão certos, nossos heróis não são tão heróis assim". No entanto, nenhum dos heróis deles precisa responder por todas as cabeças decapitadas, todas as guerras civis e mundiais, todas as bombas nucleares, de napalm e de fósforo, todos os campos de concentração de portadores de hanseníase, todos os negros traficados durante séculos, todas as intervenções da OTAN perpetradas por democracias incontestes. Nada disso tem nome. Nenhuma matéria sobre Cuba diz que lá os índios foram exterminados muito antes de Fidel chegar. Por quem? Não há resposta. Ninguém diz que Cuba foi um dos últimos países a abolir a escravidão (só o Brasil veio depois). É assim que as coisas são. Do lado de lá, o genocídio não tem autoria.
Assim, envergonhados ficamos de cada resposta que esses genocidas receberam de nosso povo. A pretexto de fazer uma leitura "concreta", esvaziamos de conteúdo todo o simbolismo que nossos combates e nossos heróis representam, num comportamento dúbio, recheado de pudores e de falsa neutralidade, que no final das contas é um recado claro ao império de que eles não precisam se preocupar, porque nenhuma política de libertação que por ventura venha a ferir os seus interesses será tocada adiante.



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