Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um mal-estar que persiste

Uma das mais emblemáticas obras de Freud é, sem dúvida, O Mal-Estar na Civilização. Publicado em 1930, quando a psicanálise já era   uma corrente de pensamento constituída, com seguidores no mundo inteiro, ela veio dar novo impulso não somente ao que Freud entendia como o ser humano, mas também a toda a sua própria visão de civilização. Cabe lembrar, e essa é uma observação que Freud insistia em fazer, que, para ele, cultura e civilização eram a mesma coisa. A civilização (e, portanto, a cultura), afinal, gera um mal-estar   nos seres humanos, uma vez que ela se coloca numa posição de incompatibilidade com as exigências da pulsão. Essa incompatibilidade faz com que todo indivíduo se torne um inimigo da cultura, porque entre essas exigências da pulsão encontram-se tendências antissociais e destrutivas. Daí ele se encontra no lado oposto ao da comunidade.
Esse mal-estar não tarda a se apresentar ao indivíduo. Ainda no início da infância o impasse está dado, quando o bebê lactante, que não separa ainda o eu de todo o mundo externo — o seio materno, por exemplo, é entendido como uma extensão de seu corpo, que, quando por ventura se encontra ausente, é reclamado pelo choro e pelo grito —, em algum momento se verá usurpado daquele objeto que lhe oferece prazer.
O bebê é, então, nesse momento, orientado pelo princípio do prazer. Ele chora para receber aquilo que o aprazera. Mas quando chora, ele manifesta um mal-estar típico, que advém do fato de que, ao invés de buscar para si o prazer desejado, ele se vê, na verdade, fazendo um esforço para fugir do desprazer. Assim, seu choro é uma reação a dor, na tentativa de saná-la. Isso persistirá no correr de sua vida social. Felicidade, no contexto da civilização, não é obter mais prazer; em sentido contrário, é obter menos desprazer. É impossível, afinal, ver-se atendido nos anseios de prazer numa civilização que se coloca no sentido oposto à concessão de tais anseios.
Isso não decorre, no entanto, de uma atitude arbitrária da civilização. Trata-se de um mecanismo de autopreservação. Sem reprimir suas pulsões, a sociedade ruiria. Freud destaca, em certo  momento, que não somos instintivamente adeptos do trabalho. Trabalhamos a partir   da canalização de nossos impulsos sexuais nessa direção. Ele questiona, por exemplo, as perspectivas dos comunistas que acreditam que é possível, num contexto de socialização da propriedade, uma convivência pacífica e frutífera dos homens. Não se atendo aos dados econômicos relacionados a essa hipótese, ele lembra que não importa o modo de produção que se estabeleça, alguns elementos são essenciais do ser humano, como a sua agressividade, que não tem raiz na criação do instituto da propriedade, sendo, portanto, muito mais antiga; parte constituinte da humanidade.
Dados, portanto, os riscos existentes para a civilização na hipótese da liberação da vida sexual e da agressividade, resta ao  indivíduo   sacrificar-se, pagando o preço que consiste em renunciar a essas satisfações pulsionais. Quando a agressividade não tem condições de   ser externalizada, ela se introjeta no corpo, voltando-se contra o próprio ego; decorre daí a existência do superego, onde se sustentam, por exemplo, os sentimentos de culpa — que se torna praticamente parte indissociável da civilização.
Freud encerra, então, recapitulando diversos pontos do que abordou no correr do texto e lançando, ao final, mais perguntas do que respostas. Um ponto em aberto foi acerca da possibilidade de patologia das comunidades, isto é, dos riscos de que a neurose, que afeta o indivíduo, afete também a civilização. E, no que se refere à sobrevivência da espécie humana, ele deixa também em aberto a questão que se relaciona ao domínio da pulsão de morte. Conseguirá o desenvolvimento cultural dominá-la efetivamente? Ainda estamos à espera de respostas...

Nenhum comentário: