Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sexta-feira, 24 de junho de 2016

O mundo gira tanto que...

O mundo gira tanto que às vezes a gente se depara com situações que, noutros momentos, causariam vergonha aos personagens envolvidos. Uma dessas é o fato de, agora, blocos econômicos terem virado coisas de comunistas na cabeça dos liberais de Facebook. Não sei se isso decorre do fato de a maior parte dessa rapaziada ter menos de 25 anos, e não recordarem que até algum tempo atrás esses mesmos blocos davam início a uma etapa que se apresentava como irreversível de falência do Estado e de transnacionalização do intercâmbio econômico (pelo menos o intercâmbio de bens, porque o de pessoas não avançava na mesma velocidade). É claro que os comunistas também têm suas ideias de blocos econômicos, mas esses que andam sendo postos em questão (em especial a União Europeia, assunto do momento) foram elaborados sob premissas bem capitalistas - que fique claro.
Agora, duas décadas depois, tendo aquele modelo se mostrado limitado, pois a prosperidade esperada não se mostrou sustentável (na América do Sul as ilusões neoliberais acabaram cedo; na Europa, ainda durou até 2008), e após o ciclo de governos de esquerda também não conseguir romper com o paradigma neoliberal que limitava suas ações (caso do Brasil, onde as pretensões desenvolvimentistas de Lula esbarravam num Estado aparelhado por FHC), a direita ressurge como a bola da vez - e cada vez mais como extrema direita -, sendo a detentora dos discursos fortes, que propugnam ruptura, nova ordem, coisa e tal. Aí o jogo vira de cabeça pra baixo. Essa direita, antes globalizada e moderna, agora reassume uma cara "nacional". A abertura de fronteiras, antes uma solução liberal e avançada, agora é um problema a ser combatido. No Brasil, corporações de ofício são saudadas como salvadoras da Pátria. Nem precisa se falar dos discursos conservadores que encontram nos novos liberais seus canais preferenciais de difusão. A maioria nem parece se constranger em estar ao lado de defensores da ditadura militar.
Nada disso, porém, é pensado. É puro revanchismo. A crítica deles aos movimentos por direitos civis, à esquerda, aos blocos econômicos, é uma crítica meramente artificial, de quem está desesperado buscando a saída mais prática do momento. A extrema direita, afinal, não pensa. Não tem projeto. Não faz análises. Não examina problemas sociais e econômicos para, a partir deles, pensar nas soluções. Ela só tem um conjunto de vilões na mira para serem eliminados, mas não consegue enxergar um palmo à frente do nariz. Esse afã por saídas rápidas e desesperadas se manifesta em especial nos "votos de protesto", que têm se configurado como o canal nº 1 da insatisfação ignorante. Antes, eles consistiam em votos dedicados a caricaturas, piadas. Agora, se dirigem a sujeitos que dizem falar sério. Os resultados estão aí: eleições recordes de Bolsonaros, favoritismos de Trumps, decisões por fechamento de fronteiras, etc. No que se refere à saída dos britânicos da UE, em que pese o fato de o episódio oferecer novas alternativas de ação política, o fato é que nos termos em curso mal sabem os ingleses que os mais prejudicados serão eles mesmos com essa decisão...


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