Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre doutrinas e doutrinadores

Tive a oportunidade de, dias atrás, dar uma aula no IFRN para alunos do ensino médio, sobre o tema Estado e Sociedade Civil no Brasil. Estou há uns três anos sem lecionar, mas foi tudo tranquilo, ok, pessoal gostou e tal... Uma semana depois, voltei para passar uma lista de perguntas sobre a escola, a disciplina e sobre o que acharam de minha aula. Uma advertência: a intenção aqui não é expor ninguém, até porque nenhum dos alunos que assistiram às aulas estão na minha lista de amigos e, além do mais, ninguém se identificou nos questionários. A ideia é apenas colocar esse episódio em discussão. Seguindo em frente, um dos comentários dos alunos sobre minha aula me chamou a atenção:
A doutrinação foi feita com sucesso.
Não pude deixar de achar curiosa. Fui procurar nas demais qualquer uma que se assemelhasse. Nos outros 60 e poucos questionários, ninguém respondeu igual. Alguns até disseram que não gostaram, sem especificar o porquê, ou que poderia ter sido melhor - tá valendo. A maioria, felizmente, aprovou, e alguns até se empolgaram ("esplêndido", "fantástico", "aula maravilhosa").
Aliás, os maiores elogios, por engraçado que pareça, se amparavam justo no fato de considerarem minha abordagem "imparcial", isto é, por eu mostrar, segundo um deles, "pontos de vista diferentes, permitindo que os alunos formem sua opinião". De fato, não sou um cientista social que se possa chamar de "neutro", mas considero inviável tratar temas sociológicos e políticos sem transitar por diferentes correntes de pensamento, ora criticando, ora respaldando o que tais correntes defendem; o que está bem longe de doutrinar.
Mas então por que aquele camarada disse que minha aula fora uma doutrinação? Para saber, fui prestar atenção nas suas outras respostas ao questionário.
A pergunta imediatamente anterior a esta dizia respeito a sua sugestão para melhorar a escola. A resposta foi, simplesmente, "privatizar". Isso mesmo. A sugestão para melhorar aquela que já é a melhor escola do estado e uma das melhores do país, na visão desse aluno, era privatizar. Por quê? Vai saber... Quando perguntado sobre o que ele achava dessa escola, sua resposta foi que ela "sustenta pessoas com dinheiro tirado obrigatoriamente das pessoas" (sic)...
O que faz com que você não goste de um professor?, dizia outra pergunta. "O fato de eles serem doutrinadores, eles devem ser apenas professores", foi sua resposta. Daí tomei a liberdade de admitir que sua visão de mim como doutrinador decorria menos de sua observação da minha aula do que de seu conceito pré-formulado de que professores costumam ser doutrinadores.
Em outro momento, era-lhe perguntado qual a matéria que ele menos gostava. Sua resposta foi, naturalmente, Sociologia. Por quê? "Porque serve apenas para doutrinação marxista". Mais uma vez se nota que sua avaliação de minha aula já estava pré-fabricada, não importa o que eu dissesse nem qual fosse minha abordagem. Por sinal, em certo momento da aula, eu até lembrei que a sociologia costuma ser interpretada, erroneamente, como uma "ciência marxista", e fiz questão de me esforçar para desconstruir essa perspectiva, elencando, por exemplo, grandes sociólogos não-marxistas de larga influência, do passado e do presente. Foi inútil, como se vê.
Uma das outras questões perguntava se ele se interessava por política. "Não, porque sou anarcocapitalista". Ok...
Outra perguntava qual a matéria que achava mais interessante. Considerando que o aluno faz curso técnico integrado ao ensino médio, sua resposta foi Gestão Financeira. "Porque ensina a filosofia das empresas privadas e através dela eu chego ao lucro"...
Já estava tudo muito claro.
Por fim, uma das perguntas era se ele gostava de ler. Sua resposta foi: "Sim, leio artigos do Olavo de Carvalho". 
Depois disso, fui obrigado a concordar com esse aluno: a doutrinação realmente foi feita com sucesso.


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