Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sábado, 9 de abril de 2016

Direitos particulares

Os desavisados gostam de dizer que o governo Dilma é tão neoliberal quanto seria o PSDB. Quem diz isso, das duas uma: ou não viveu os anos 1990 - que, por si só, já deixam flagrante o abismo existente entre os dois programas -, ou então acha que qualquer contingenciamento já configura uma política neoliberal. Ignoram que o neoliberalismo vai muito além de ajustes fiscais em épocas depressivas. Ele representa toda uma reformulação do papel do Estado (em verdade, o seu desmantelamento mais expansivo possível), com a transformação dessa instituição num mero apêndice das relações comerciais - estas sim, estariam na ordem do dia. O neoliberalismo significa uma política dirigida pelo mercado nos mais diversos segmentos. Isso está bem ilustrativo na matéria da Folha publicada hoje, intitulada "Secretário de SP exclui educação de papel do Estado e gera reação negativa".
Quem pensa que PT e PSDB são iguais, portanto, tem que mostrar alguma equação que explique como poderia ser mantida a política de expansão do ensino básico, técnico e tecnológico num governo neoliberal, bem como a política de acesso às universidades públicas, cujas vagas são ampliadas anualmente. Também tem que mostrar como o PSDB trataria programas como PIBID, criado pelo PT, e que deu nova cara às licenciaturas. Afinal, Renato Nalini, a maior autoridade do PSDB numa pasta de educação, deixa claro o contrário. Para ele, educação pública é gasto, é prejuízo. Educação, como a saúde, "deveria ser providenciado pelos particulares". Nalini reclama porque o povo "se acostumou a reivindicar". Tudo agora é "direito", há uma "proliferação de direitos fundamentais". Para que tanto direito, não é?
O sinal está dado para os que ainda não entenderam: sob a caneta do PSDB, a coisa se resume em riscar educação, saúde e outra gama de serviços essenciais da alçada do Estado e deixar tudo nas mãos de "particulares", cujos serviços ainda hoje têm qualidade questionável, que dirá quando se tornarem, enfim, monopolistas. O Temer não é um tucano orgânico, mas já mostrou que gosta de dançar a mesma música. Para quem ainda acredita que o governo atual é tão neoliberal quanto um governo tucano ilegítimo alçado ao poder por um golpe, só restará dizer: bem-vindos ao mundo real (mas espero que não seja tarde demais).


Nenhum comentário: