Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Manual de como fabricar vilões e mocinhos

A guerra suja segue seu curso na Venezuela, tendo na mídia o seu maior trunfo. Aqui exporemos de forma bem didática um manual de como se fabrica uma notícia, ou, se preferir, de como se fabricam vilões. Tomamos como referência uma sequência de imagens e descrições de uma matéria do Terra, cujo link se encontrará ao final do texto.

Observemos esta foto:

4 de abril - manifestantes contrários ao governo usam estilingue para atirar pedras contra membros das forças de segurança, em Caracas 

A legenda é clara. São manifestantes CONTRÁRIOS ao governo que estão em ação. Observemos a caracterização e o modus operandi: são praticamente todos mascarados, e, num termo sutil, criativos. Improvisaram um estilingue gigante para enfrentar a guarda nacional. São o elo fraco da disputa, o que poderíamos chamar de vítima. A questão é que não há nada que indique que são opositores do governo. Apenas a matéria infere que o são, baseado, justamente, nestas caracterizações. Mas sigamos adiante.

Atentemos agora para a seguinte foto:
3 de abril -  estudante é atacado por partidários do governo de Nicolás Maduro na Universidade Central da Venezuela
Agora vejamos a legenda. Ela diz que um pobre estudante comum é atacado por "partidários do governo". OK. Mas vejamos como se portam esses partidários. Certamente não são partidários comuns, aqueles que, tradicionalmente vestem vermelho, portam bandeiras ou outros itens tradicionais da esquerda venezuelana. Pelo contrário. São mascarados, quase todos. Parecem mais... os manifestantes CONTRÁRIOS ao governo. Mais uma vez, a matéria infere quem é quem, mas desta vez, ela parece não fazer uso do seu critério comum. Os mascarados, ora vítimas, agora são vilões; ora elo fraco, agora são elo forte; ora contrários ao governo, agora são partidários. Parece piada - mas não é.

Mas não acabou por aí. Vejamos a próxima foto:
3 de abril - policial à paisana é socorrido por colegas depois de ser atingido por fogos de artifício lançados por estudantes da Universidade Central da Venezuela
Novamente, a legenda não deixa margem para tergiversações. Um policial à paisana foi atingido por fogos de artifício. Ora, vejamos os elementos dessa descrição: primeiro, dizer que ele foi atingido por fogos significa dar algum ar de inofensivo aos ataques dos manifestantes (nem vou entrar no mérito se eram de fato estudantes), que só têm isso como arma. Agora, o ponto mais importante: policial à paisana? O que se pretende com isso, senão legitimar a violência emitida contra este cidadão? "Um policial foi atingido, então tudo bem, faz parte do conflito". Mas observemos bem esse sujeito. Podemos primeiro nos perguntar o que um policial à paisana faz numa zona de conflito, afinal todos os policiais ali estão fardados e armados. Porém, olhando com mais cuidado, vemos que não parece um policial, mas sim........ o estudante que foi espancado por "governistas" na foto anterior. Olhem alguns ítens: calça jeans, no mesmo tom azul, camisa branca com um detalhe branco na barra. Está claro. O estudante espancado por grupos governistas agora virou um policial atingido por manifestantes. E a polícia, essa maldita, o que está fazendo? Salvando um opositor do regime, que foi castigado pela violência revolucionária?! Não, a polícia está fazendo seu papel, de proteger um cidadão que foi vítima da fúria adolescente dos mascarados antigovernistas.

Mas não acabou por aí. Antes que reste dúvidas sobre a caracterização e modus operandi dos opositores, vejamos a próxima foto, com sua descrição.
3 de abril manifestantes lançam pedras contra a Polícia Nacional Bolivariana durante enfrentamentos na Universidade Central da Venezuela, em Caracas
Todas as descrições são do próprio Terra, que possivelmente copiou e colou da Reuters (fonte original das fotos). Ou seja, não há muita margem para questionamentos. Observem que, à exceção da primeira foto, todas são no mesmo dia e no mesmo local. Nesta foto acima, novamente vemos os ditos "manifestantes". Mais uma vez, não há nada que indique que são manifestantes contrários ao governo, e não partidários de Maduro que foram acuados e estão apenas se defendendo, inocentemente. É claro que não. As máscaras já deixam claro que se tratam de opositores. A essa altura, já sabemos bem quem é que se serve delas. Mas tudo bem, é direito deles. O problema é quando isso afeta aos outros, como ocorre na próxima foto.

3 de abril - estudante é agredido e despido por partidários do governo de Nicolás Maduro, durante manifestação na Universidade Central da Venezuela, em Caracas
Aqui, uma cena que consegue ser ainda mais cruel do que a violência anterior. Desta vez, a vítima não foi apenas espancada, mas despida, humilhada publicamente. Quem são os agressores? A matéria não hesita: "partidários do governo". Ora, observamos mais uma vez que o estilo dos tais agressores em nada se diferencia dos opositores. Mas a matéria não está preocupada com isso. Ela está preocupada apenas em apontar culpados e vítimas.

O que se pode concluir dessa matéria esquizofrênica do Terra? Se formos seguir a lógica do jornal, poderíamos resumi-la na seguinte sentença: "manifestantes opositores estavam em conflito com a Guarda Nacional, que estava armada com policiais à paisana, e enquanto o pau comia entre eles os governistas estavam preocupados em espancar jovens inocentes por esporte". De que lado está a verdade?

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