Ontem fui a uma das palestras do seminário que está ocorrendo na universidade de "Balanço do Socialismo no Século XX", para absorver mais elementos das avaliações que fossem feitas a partir dos erros e acertos do passado. Na mesa, estavam destacados professores: um era o José Spinelli, de quem já tinha referências e um dos organizadores do evento; outro o Gabriel Vitullo, meu professor de Teoria Política, um dos poucos que se salvam na pastosa lista de professores pós-modernos deste curso; e o outro era o convidado, Michel Zaidan Filho, de quem já tinha lido um livro que está entre os que me abriu as portas do marxismo: A Crise da Razão Histórica, livro com o qual tive contato muito tempo atrás.
A perspectiva das palestras, no entanto, muito me decepcionou. O enfoque, claro, para um seminário que discute o socialismo no Século XX, centralizou-se na antiga União Soviética, mas a abordagem apresentada foi digna de uma palestra patrocinada pelo Instituto Millenium ou qualquer outra entidade liberal.
Não é possível, afinal, que mais de vinte anos após a queda do Muro de Berlim, ainda nos atenhamos nós, os marxistas, a descrever, como um pedido de desculpas, os equívocos e as falhas da experiência soviética, sobretudo de maneira descontextualizada, como são as frequentes menções aos Processos de Moscou, à "repressão", à "burocratização", ao "stalinização", expostos em prosa e filme com uma profundidade de reflexão que não alcança a profundidade de uma poça d'água.
Qual o equívoco maior, portanto? Negar os erros da edificação do socialismo em terras russas? Nem proponho isso nem penso que qualquer marxista se contente com essa postura. A questão é: qual a abordagem foi feita para se falar dos erros? Falou-se com um sentido produtivo, avançado, com a intenção de absorver algo de bom a partir daquilo? Penso que não, exatamente como expus quando me foi dada a voz no seminário; muito se falou sobre os "prisioneiros políticos", as "execuções sumárias", mas não se falou da universidade difundida para todos, do sucesso obtido no campo da tecnologia informática e astronáutica, nos esportes, não se falou dos maiores enxadristas do mundo - soviéticos -, não se falou das muitas Olimpíadas vencidas por atletas amadores, ou seja, atletas que não viviam para seus esportes, mas sim eram trabalhadores e praticavam esportes no seu tempo livre - e ainda assim viraram ícones no mundo todo. Não se falou da saúde universalizada, do emprego enfim visto como um direito necessário para todos, do fim dos desabrigados e dos analfabetos. Não se falou também de como tudo isso ruiu como castelo de cartas nos duros anos do governo Yeltsin, de restauração capitalista. Não posso crer que, nessas condições, falar dos equívocos da experiência soviética tenha uma intenção positiva. Centrar discussões na "repressão" ou na "burocratização" é fazer o mesmo jogo que fazem os anticomunistas, que a todo tempo expõem exatamente essa face da U.R.S.S., a saber, um país autoritário, aparelhado, que não permitia qualquer forma de liberdade a sua população. Mas a pergunta primordial não foi feita pelos palestrantes (para si mesmos): que liberdade queremos? Será aquela de 1789, ou será uma nova expressão de liberdade, que somente será compreendida quando for enfim exercida?
Sendo assim, não faço coro às vozes proselitistas que estavam na referida mesa do seminário. Para mim, a União Soviética não era um "Estado Operário Degenerado", ou um "Socialismo Autoritário", ou um "Coletivismo Burocrático", ou um "Capitalismo de Estado", terminologias que foram apresentadas na vã tentativa de a partir dessas palavras vazias tentarem se fazer entender.
Fujamos, então, desse autoflagelo travestido de autocrítica. Os liberais não fazem autocrítica das experiências liberais que fracassaram. Os defensores da teocracia também não. Nenhum defensor da ditadura militar brasileira jamais fez autocrítica daquele período. Nenhum herdeiro do czar russo fez autocrítica do absolutismo. Então não podemos admitir que ser marxista é estar condenado ao estigma de carregar erros do passado. Isso é anticientífico e anti-histórico. Ser marxista não é ser constrangido, mas sim ser crítico, ativo, e ter o senso de aprender com os próprios erros. Sendo assim, somente poderemos aprender algo com os erros da União Soviética se admitirmos o caráter socialista daquele país, evitando termos fugitivos como "capitalismo de estado" e afins. A U.R.S.S. era, sim, socialista, e essa condição é essencial para entendermos que o socialismo também se compõe de erros. Não podemos falar em imperfeições do regime socialista soviético porque o socialismo, sendo dialético, nunca pode ser perfeito. Ser contraditório é ser real, concreto. O inverso disso é a perfeição, é um socialismo perfeito, florido, sem erros e com todo mundo seguindo os mesmos interesses conjuntos. Leda ingenuidade. Já dizia Lenin que no socialismo a luta de classes é ainda mais acirrada que no capitalismo - e Stalin concordava, vide a intensa luta dentro da União Soviética nos anos 1930, até hoje pouco compreendida pelos historiadores liberais (e mesmo alguns marxistas).
Se mesmo no Século XXI há quem acredite na beleza de um socialismo sem erros - e os que creem nisso são (in)justamente reconhecidos marxistas -, então aí sim deve estar um ponto a se analisar a respeito da crise que o socialismo tem vivido desde 1991. Felizmente, graças a outros que, para além da autocrítica, trataram de reconstruir o conceito e suas acepções, aos poucos essa proposta está voltando à ordem do dia, especialmente aqui na América Latina.
Não é possível, afinal, que mais de vinte anos após a queda do Muro de Berlim, ainda nos atenhamos nós, os marxistas, a descrever, como um pedido de desculpas, os equívocos e as falhas da experiência soviética, sobretudo de maneira descontextualizada, como são as frequentes menções aos Processos de Moscou, à "repressão", à "burocratização", ao "stalinização", expostos em prosa e filme com uma profundidade de reflexão que não alcança a profundidade de uma poça d'água.
Qual o equívoco maior, portanto? Negar os erros da edificação do socialismo em terras russas? Nem proponho isso nem penso que qualquer marxista se contente com essa postura. A questão é: qual a abordagem foi feita para se falar dos erros? Falou-se com um sentido produtivo, avançado, com a intenção de absorver algo de bom a partir daquilo? Penso que não, exatamente como expus quando me foi dada a voz no seminário; muito se falou sobre os "prisioneiros políticos", as "execuções sumárias", mas não se falou da universidade difundida para todos, do sucesso obtido no campo da tecnologia informática e astronáutica, nos esportes, não se falou dos maiores enxadristas do mundo - soviéticos -, não se falou das muitas Olimpíadas vencidas por atletas amadores, ou seja, atletas que não viviam para seus esportes, mas sim eram trabalhadores e praticavam esportes no seu tempo livre - e ainda assim viraram ícones no mundo todo. Não se falou da saúde universalizada, do emprego enfim visto como um direito necessário para todos, do fim dos desabrigados e dos analfabetos. Não se falou também de como tudo isso ruiu como castelo de cartas nos duros anos do governo Yeltsin, de restauração capitalista. Não posso crer que, nessas condições, falar dos equívocos da experiência soviética tenha uma intenção positiva. Centrar discussões na "repressão" ou na "burocratização" é fazer o mesmo jogo que fazem os anticomunistas, que a todo tempo expõem exatamente essa face da U.R.S.S., a saber, um país autoritário, aparelhado, que não permitia qualquer forma de liberdade a sua população. Mas a pergunta primordial não foi feita pelos palestrantes (para si mesmos): que liberdade queremos? Será aquela de 1789, ou será uma nova expressão de liberdade, que somente será compreendida quando for enfim exercida?
Sendo assim, não faço coro às vozes proselitistas que estavam na referida mesa do seminário. Para mim, a União Soviética não era um "Estado Operário Degenerado", ou um "Socialismo Autoritário", ou um "Coletivismo Burocrático", ou um "Capitalismo de Estado", terminologias que foram apresentadas na vã tentativa de a partir dessas palavras vazias tentarem se fazer entender.
Fujamos, então, desse autoflagelo travestido de autocrítica. Os liberais não fazem autocrítica das experiências liberais que fracassaram. Os defensores da teocracia também não. Nenhum defensor da ditadura militar brasileira jamais fez autocrítica daquele período. Nenhum herdeiro do czar russo fez autocrítica do absolutismo. Então não podemos admitir que ser marxista é estar condenado ao estigma de carregar erros do passado. Isso é anticientífico e anti-histórico. Ser marxista não é ser constrangido, mas sim ser crítico, ativo, e ter o senso de aprender com os próprios erros. Sendo assim, somente poderemos aprender algo com os erros da União Soviética se admitirmos o caráter socialista daquele país, evitando termos fugitivos como "capitalismo de estado" e afins. A U.R.S.S. era, sim, socialista, e essa condição é essencial para entendermos que o socialismo também se compõe de erros. Não podemos falar em imperfeições do regime socialista soviético porque o socialismo, sendo dialético, nunca pode ser perfeito. Ser contraditório é ser real, concreto. O inverso disso é a perfeição, é um socialismo perfeito, florido, sem erros e com todo mundo seguindo os mesmos interesses conjuntos. Leda ingenuidade. Já dizia Lenin que no socialismo a luta de classes é ainda mais acirrada que no capitalismo - e Stalin concordava, vide a intensa luta dentro da União Soviética nos anos 1930, até hoje pouco compreendida pelos historiadores liberais (e mesmo alguns marxistas).
Se mesmo no Século XXI há quem acredite na beleza de um socialismo sem erros - e os que creem nisso são (in)justamente reconhecidos marxistas -, então aí sim deve estar um ponto a se analisar a respeito da crise que o socialismo tem vivido desde 1991. Felizmente, graças a outros que, para além da autocrítica, trataram de reconstruir o conceito e suas acepções, aos poucos essa proposta está voltando à ordem do dia, especialmente aqui na América Latina.

