Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


sexta-feira, 11 de maio de 2012

O estigma que os marxistas não podem aceitar

Ontem fui a uma das palestras do seminário que está ocorrendo na universidade de "Balanço do Socialismo no Século XX", para absorver mais elementos das avaliações que fossem feitas a partir dos erros e acertos do passado. Na mesa, estavam destacados professores: um era o José Spinelli, de quem já tinha referências e um dos organizadores do evento; outro o Gabriel Vitullo, meu professor de Teoria Política, um dos poucos que se salvam na pastosa lista de professores pós-modernos deste curso; e o outro era o convidado, Michel Zaidan Filho, de quem já tinha lido um livro que está entre os que me abriu as portas do marxismo: A Crise da Razão Histórica, livro com o qual tive contato muito tempo atrás.

A perspectiva das palestras, no entanto, muito me decepcionou. O enfoque, claro, para um seminário que discute o socialismo no Século XX, centralizou-se na antiga União Soviética, mas a abordagem apresentada foi digna de uma palestra patrocinada pelo Instituto Millenium ou qualquer outra entidade liberal.

Não é possível, afinal, que mais de vinte anos após a queda do Muro de Berlim, ainda nos atenhamos nós, os marxistas, a descrever, como um pedido de desculpas, os equívocos e as falhas da experiência soviética, sobretudo de maneira descontextualizada, como são as frequentes menções aos Processos de Moscou, à "repressão", à "burocratização", ao "stalinização", expostos em prosa e filme com uma profundidade de reflexão que não alcança a profundidade de uma poça d'água.

Qual o equívoco maior, portanto? Negar os erros da edificação do socialismo em terras russas? Nem proponho isso nem penso que qualquer marxista se contente com essa postura. A questão é: qual a abordagem foi feita para se falar dos erros? Falou-se com um sentido produtivo, avançado, com a intenção de absorver algo de bom a partir daquilo? Penso que não, exatamente como expus quando me foi dada a voz no seminário; muito se falou sobre os "prisioneiros políticos", as "execuções sumárias", mas não se falou da universidade difundida para todos, do sucesso obtido no campo da tecnologia informática e astronáutica, nos esportes, não se falou dos maiores enxadristas do mundo - soviéticos -, não se falou das muitas Olimpíadas vencidas por atletas amadores, ou seja, atletas que não viviam para seus esportes, mas sim eram trabalhadores e praticavam esportes no seu tempo livre - e ainda assim viraram ícones no mundo todo. Não se falou da saúde universalizada, do emprego enfim visto como um direito necessário para todos, do fim dos desabrigados e dos analfabetos. Não se falou também de como tudo isso ruiu como castelo de cartas nos duros anos do governo Yeltsin, de restauração capitalista. Não posso crer que, nessas condições, falar dos equívocos da experiência soviética tenha uma intenção positiva. Centrar discussões na "repressão" ou na "burocratização" é fazer o mesmo jogo que fazem os anticomunistas, que a todo tempo expõem exatamente essa face da U.R.S.S., a saber, um país autoritário, aparelhado, que não permitia qualquer forma de liberdade a sua população. Mas a pergunta primordial não foi feita pelos palestrantes (para si mesmos): que liberdade queremos? Será aquela de 1789, ou será uma nova expressão de liberdade, que somente será compreendida quando for enfim exercida?

Sendo assim, não faço coro às vozes proselitistas que estavam na referida mesa do seminário. Para mim, a União Soviética não era um "Estado Operário Degenerado", ou um "Socialismo Autoritário", ou um "Coletivismo Burocrático", ou um "Capitalismo de Estado", terminologias que foram apresentadas na vã tentativa de a partir dessas palavras vazias tentarem se fazer entender.

Fujamos, então, desse autoflagelo travestido de autocrítica. Os liberais não fazem autocrítica das experiências liberais que fracassaram. Os defensores da teocracia também não. Nenhum defensor da ditadura militar brasileira jamais fez autocrítica daquele período. Nenhum herdeiro do czar russo fez autocrítica do absolutismo. Então não podemos admitir que ser marxista é estar condenado ao estigma de carregar erros do passado. Isso é anticientífico e anti-histórico. Ser marxista não é ser constrangido, mas sim ser crítico, ativo, e ter o senso de aprender com os próprios erros. Sendo assim, somente poderemos aprender algo com os erros da União Soviética se admitirmos o caráter socialista daquele país, evitando termos fugitivos como "capitalismo de estado" e afins. A U.R.S.S. era, sim, socialista, e essa condição é essencial para entendermos que o socialismo também se compõe de erros. Não podemos falar em imperfeições do regime socialista soviético porque o socialismo, sendo dialético, nunca pode ser perfeito. Ser contraditório é ser real, concreto. O inverso disso é a perfeição, é um socialismo perfeito, florido, sem erros e com todo mundo seguindo os mesmos interesses conjuntos. Leda ingenuidade. Já dizia Lenin que no socialismo a luta de classes é ainda mais acirrada que no capitalismo - e Stalin concordava, vide a intensa luta dentro da União Soviética nos anos 1930, até hoje pouco compreendida pelos historiadores liberais (e mesmo alguns marxistas).

Se mesmo no Século XXI há quem acredite na beleza de um socialismo sem erros - e os que creem nisso são (in)justamente reconhecidos marxistas -, então aí sim deve estar um ponto a se analisar a respeito da crise que o socialismo tem vivido desde 1991. Felizmente, graças a outros que, para além da autocrítica, trataram de reconstruir o conceito e suas acepções, aos poucos essa proposta está voltando à ordem do dia, especialmente aqui na América Latina.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

A síndrome dos alvos errados

A greve dos policiais militares que gerou, no sentido indireto, caos a Salvador nos últimos dias, suscitou alguns questionamentos que expressam não somente uma falta de solidariedade pela luta justa dos policiais pelo que é de seu direito, mas incompreensão a respeito do papel que todo indivíduo cumpre, como cidadão ou como um ser social - expressando as contradições deste social e político -, bem como uma falta de entendimento acerca de quem são os culpados do quadro a que estamos hoje submetidos.

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Muito em decorrência dos últimos eventos, tanto no Brasil como mundo afora, os policiais em geral são vistos como cão de guarda pelos donos do poder, ou seja, seres incapazes de questionar a própria tarefa a que são destinados, prontos sempre para bater em manifestantes e fechar os olhos para os que tentam sensibilizá-los. São por isso os policiais culpados? Será que não são os policiais os mesmos profissionais que fecham os olhos para as reivindicações alheias, como no caso dos trabalhadores da educação? Quem nunca viu professor levantando algum tipo de assédio moral no estudante que faltasse a sua aula para participar de manifestação política? Ou, no sentido inverso, quem nunca viu estudantes - 0s mesmos que são alvos de policiais quando se manifestam - pretendendo restringir o direito de seus professores de reivindicarem melhores condições de trabalho, exigindo que retornem ao trabalho e levantando o contra-argumento de que são eles, os estudantes, os mais prejudicados com a greve (vaga ilusão)?

É evidente, não por motivos que explanarei (pois é uma questão paralela, e certamente mais extensa), que nenhuma dessas categorias age assim deliberadamente, bem como é evidente que este tipo de pensamento não é dominante (e mesmo quando é, está longe de ser unânime). O exemplo é extraído para que reflitamos acerca daquilo que consideramos o alvo da nossa indignação e da nossa reivindicação, quando nos levantamos numa dada circunstância. Questionar o método dos PMs em greve (não me refiro às violências públicas; isto está fora de questão) não é um ato solidário, e não sendo, torna-se um ato que somente enfraquece as massas organizadas. Não se tem perspectiva de mudança de país se não se tem um entendimento de que cada categoria em luta vale por todas, e todas as categorias em luta o estão também por uma só. Ou seja, é preciso ter uma visão crítica e científica da dinâmica dos movimentos e da dinâmica do poder; visão crítica o suficiente para entender que mesmo o policial que nos bate também merece direitos, também tem filhos estudantes que merecem direitos, também tem pais aposentados que merecem direitos, et cetera.





No último ano, com a Revolução Árabe, os Indignados, os movimentos de ocupação mundo afora, ao mesmo tempo em que o espírito de mobilização e crítica se reavivou nas populações que pareciam anestesiadas, elas parecem não compreender o sentido de sua crítica, a ponto de não saber mirá-las nos alvos corretos - porque não sabem quais são; e não sabendo quais são os alvos, não se pode saber qual é o método.

Isso explica porque os movimentos que afloraram no norte da África ainda não renderam uma solução que possamos considerar prolífica; por isso que os movimentos de rebelião na Inglaterra em nada serviram aos imigrantes da periferia; o Occupy Wall Street lançou questionamentos úteis ao paradigma vigente - e talvez este tenha sido o principal movimento de 2011, pela natureza e pelo local em que se deu -, mas não abriu as portas para novos paradigmas. Isso porque, mesmo com os questionamentos, não há a quebra do paradigma; e em que paradigma vivemos? O paradigma neoliberal, do individualismo, do pragmatismo. É o pragmatismo que leva a crer que o movimento #ForaMicarla, que eclodiu em Natal, é um movimento contra a Sra. Micarla de Sousa, e não com uma prática oligárquica que há décadas tem perdurado no estado, ou o que leva a pensar que os culpados do massacre de Pinheirinho são os policiais que promoveram a invasão. É o individualismo que leva o manifestante a puxar como palavra de ordem a famosa sentença "você aí parado / também é explorado", apontando para os cidadãos que assistem às passeatas de suas paradas de ônibus mas não se unem a ela; ora, sermos todos explorados não digna ninguém a estar com a razão diante de outro. Se somos todos consciências formadas essencialmente a partir de nossa existência social, entender quem se manifesta deve ser tão natural e compreensível como entender quem aceita a dominação que parece invisível.

É sempre positivo quando forças progressistas se unem no sentido de demarcar espaço; mas uma mobilização popular não pode ser analisada de modo santuarista, impassível de receber críticas pela sua natureza. As rebeliões populares na Tunísia, Egito e outros países não geraram perspectivas positivas porque tinham como consigna apenas o NÃO; mas não basta negar uma condição para se alcançar a mudança. Não basta exigir uma "nova democracia", se não se tem um entendimento de em que democracia vivemos, para diagnosticar suas falhas e saber que democracia queremos. Mais do que nunca, se faz atual o entendimento clássico de que sem uma teoria revolucionária, não pode haver movimento revolucionário consequente. A negação, em si, não leva à transformação. Pelo contrário. Se não vem acompanhada de um arcabouço subjetivo e objetivo, tende a somente permitir que os elementos que detém o poder político estabeleçam suas remodelações, suas atualizações, à margem dos que eram os reais interessados pelas mudanças. Ou seja, tira-se do poder no Egito o Mubarak e se instala uma junta militar, presidindo o país há um ano, e dando tempo suficiente para que os conchavistas egípcios, os articuladores da Liga Árabe e os imperialistas euroamericanos estudem que peças devem ocupar o poder neste país pelas próximas décadas; assim também na Líbia; assim também na Tunísia. A Síria persiste sendo o último baluarte de autonomia no Mediterrâneo - vai resistir? Saberemos nas próximas semanas. Se não resistir, o detino dela sacrará o mesmo que vem ocorrendo nos países citados, além de outros mais.

Estamos em 2012, mas ainda há tempo de evitar que 2011 se transforme em um 1968. O legado de 1968, apesar de significativo do ponto de vista dos direitos civis - e isso deve ser sempre ressaltado -, foi insuficiente para quebrar o paradigma então vigente: como fugir do capitalismo selvagem e da burocracia que havia se tornado a União Soviética de Krushev? Não conseguiu ir além. Morreu no Maio de 68, na Primavera de Praga, na Passeata dos Cem Mil, no flower-power. A lição, porém, está disponível para que a estudemos, saibamos onde aqueles jovens erraram, para que não erremos agora. A União Soviética não existe mais e aquilo que pensavam ser o fim da História gerou contradições muito maiores que as vigentes até vinte anos atrás. É preciso estar calejado para entender a realidade e nela saber atuar. Não encontraremos a revolução ao virar a próxima esquina, mas se não ousarmos virá-la, nunca chegarão as outras esquinas que precisaremos enfrentar para alcançarmos o país e o mundo pelo qual enfim lutamos. Nada é impossível; esta deve ser a única sentença inquestionável.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O socialismo é ciência

A propósito do lamentável falecimento do grande Kim Jong Il,
magno ideólogo do socialismo norte coreano,
exponho um pequeno trecho de um artigo seu redigido em 1994,
traduzido por mim do site da Associação de Amizade com a Coreia.


Nas sociedades capitalistas, onde o destino da juventude se decide muitas vezes a partir do quanto os pais podem financiar, é inevitável que muitos jovens caiam, vítimas da desigualdade e dos males sociais. Hoje, muitas crianças e jovens do mundo perdem a vida ou se convertem em inválidos, vagando pelas ruas, mendigos, podendo tomar o caminho da delinquência e da degeneração, causas primeiras das guerras, das enfermidades e da fome, consequências da agressão e da ingerência dos países imperialistas e do saque das classes exploradoras. Em contraste, na nossa sociedade socialista, onde se aplica a política da virtude, todos os integrantes da nova geração crescem às expensas do Estado (...) O Estado lhes oferece os uniformes e artigos de uso escolar, entre outras coisas, e lhes assegura o mais avançado sistema de ensino obrigatório integral de 11 anos para que estudem em suas casas. Na virtude (...) as novas gerações crescem vislumbrantes e sem ter nada a dever.

Todas as medidas políticas populares que hoje aplicamos em nosso país comprovam a superioridade do regime socialista segundo nossas particularidades, centrado nas massas populares.



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Prefácio que escrevi para o livro-reportagem "O Brasil e a Missão de Paz no Haiti", da piauiense Flalrreta Alves

Há três maneiras de se relacionar com a História: a primeira é aprender sobre ela por meio de livros, vídeos e recursos de naturezas diversas. A segunda é estar presente no episódio que transforma um fato comum num momento histórico. A terceira, a mais intensa, a mais efetiva, é fazer a própria História; ser protagonista dela.
Essa premissa inicial é básica para entendermos a relevância da participação brasileira no Haiti. Os problemas enfrentados por esse pequeno país não podem ser medidos somente pela aparência, sem um foco extra. A aparência – aquilo que se vê, que está na superfície – denuncia a carência, o caos, o pedido de ajuda. Mas não explica nenhum desses fenômenos. Conhecer a explicação deles presume adentrar na sua essência, que, no caso do Haiti, tem vínculo indissociável com seu conturbado processo histórico.
É conhecendo o ontem que se pode atuar no hoje, afinal; e é atuando de maneira conseqüente no hoje que se pode construir um amanhã, senão de prosperidade e opulência, ao menos de pão, paz e estabilidade para esse povo.
É a isso que este livro se propõe. A esse propósito construtivo. Não é apenas mais uma análise, mais uma interpretação a respeito da contraditória realidade haitiana, mas vai além: é obra que está lá, na Ilha, por meio de suas fontes e de seu balanço, adequado no tempo e no espaço, formulado de maneira tal que permite a quem o lê estar lá nos distintos momentos da história daquele país: é quase possível visualizar episódios marcantes para os haitianos, tanto as deposições, as rebeliões, como outros momentos que não envolvem os protagonistas, mas as massas, o povo carente, vivendo numa terra que há séculos só vê conflito no horizonte, sendo, como se não bastasse, ainda castigada por muitas outras chagas, como o tráfico de drogas, as doenças e as catástrofes naturais, sobretudo o furacão Jeane, que chocou o mundo e ajudou a ampliar a pressão internacional por mais ajuda aos haitianos – ainda continua sendo pouco.
É este primeiro panorama que conhecemos na leitura deste livro-reportagem. A partir dele, adentramos numa viagem intelectual por um assunto não menos interessante e cuja pertinência é desnecessário justificar, que é exatamente a atuação das forças humanitárias, em especial do Brasil – e, dentre a presença brasileira, destaque para a presença das forças treinadas no Piauí –, num dos territórios mais instáveis do mundo.
É fácil entender o mérito da pesquisa feita quando nos vemos diante das etapas burocráticas que levaram o Brasil a se envolver num caso de difícil solução, um jogo no qual muita gente torce contra os brasileiros (inclusive aqui mesmo em nosso país), dos momentos marcantes, positivos e negativos, da presença brasileira em terra estranha – ainda que tão próxima. Enfim somos apresentados a nuances que as manchetes dos jornais – principal fonte de informação dos brasileiros a respeito do que tem feito as Forças Armadas no Haiti – não têm condições de apresentar. Conhecemos não somente a realidade haitiana, como foi dito. Compreendemos os paradoxos da política externa, os potenciais de nossos militares, aventurando-se naquele território, os limites que a eles são impostos, lamentamos as baixas sofridas. Num país em que tão pouca importância se dá à atuação externa brasileira (há quem ache tudo isso uma perda de tempo, como se o mundo lá fora não interferisse aqui em nossas plagas), esse livro vem ressaltar a importância global que tem conquistado nosso país, a presença de destaque a que nossas Forças Armadas têm se proposto.
Forças Armadas não servem somente para fazer guerra. A História é impiedosa e nos leva a alimentar tais preconceitos. Mas a História é um caderno do qual a grande maioria das páginas ainda está em branco. O Haiti parece distante de nós, mas está mais aqui do que imaginamos. A dura experiência por que passa a população daquele país nos deve servir de lição: primeiro, o que não devemos aceitar para nosso país; segundo, que, mesmo com toda desgraça, o futuro traz sempre uma esperança. Não seria de se duvidar se aquele slogan que diz sou brasileiro e não desisto nunca tivesse sido inspirado na experiência haitiana. Este livro nos aproxima daquele conflito e nos faz lembrar que enquanto estivermos lá naquele território, somos responsáveis pelo sucesso que conquistarem, mas o retrocesso que sofrerem também é nosso. Os riscos existem? Existem, e a tarefa não seria importante e estratégica se não existissem. Mas é dos riscos que nascem os desafios. Esse é mais um. Sabendo que todo problema traz em si o germe de sua solução, livros como esses se fazem essenciais para que todos nós não apenas conheçamos a realidade haitiana, mas de alguma maneira participemos dela.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A greve das federais e a negação inconsequente ao Governo Dilma

Grande parte das instituições federais de ensino, entre universidades e institutos tecnológicos, pararam suas atividades. Nas UF's, professores ainda ministram aulas, mas os técnicos-administrativos já aderiram à greve. Estima-se que há mais de cem mil grevistas entre os servidores federais do campo da educação. É o maior movimento de greve desde 2005. A pauta de reivindicações dos servidores é justa e necessária, a postura do governo até aqui tem sido dúbia, enquanto investe na educação, por outro lado tem restringido o diálogo com os sindicatos. Na internet, disseminou-se a tag #FederalEmGreve, com todos os seus impactos, positivos e negativos. Um impacto positivo é distribuir por aí a notícia de que algo está acontecendo, impedindo, assim, que a greve se restrinja aos grevistas, nos muros fechados de suas instituições. Um impacto negativo - típico de instrumentos como o Twitter - é a ausência de reflexão quanto às circunstâncias que estão postas, o que leva o público a procurar o diagnóstico mais fácil: o de que o Governo Dilma é nocivo para o país. Vamos analisar algumas nuances, antes de nos atermos a conclusões precipitadas, sobretudo tão precipitadas como afirmar isso. À margem do que possa parecer, contudo, esse texto não se presta a ser contrário a greve, mas apenas a discutir elementos políticos e históricos que estão incluídos nela.

O povo brasileiro vive, no âmbito político e econômico, uma defensiva histórica que vem desde os anos 1990, quando as inconsequentes privatizações, desmandos, conchavos, compras de votos por emendas constitucionais, agressão do governo ao funcionalismo público e o sucateamento de escolas técnicas e universidades foram aplicadas sem a menor cerimônia, gerando uma herança que, não nos enganemos, até hoje se faz presente. Os protagonistas daqueles desmandos, hoje fora do poder central da República, continuam à espreita, mantendo a firma perspectiva de voltar à Presidência e recolocar seu projeto de entreguismo em prática. Como reagir diante dessa situação?

Neste ponto, as esquerdas entraram em conflito. Enquanto havia uma oposição unificada no país até a Era FHC, a ascensão do Lula em 2003 gerou um conflito que até então inexistia. Uma crise de identidade e de reflexão em sindicatos e movimentos sociais, que era, na verdade, uma crise teórica, um pegar-desprevenido a que muitos foram submetidos: como deveriam, os sindicatos, DCE's, grêmios, associações de moradores, organizações camponesas e outras entidades representativas, agir diante de um governo que agora era seu aliado? Enquanto antes havia sempre um discurso de oposição ao governo, onde todos eram, em massa, contra as medidas postas, como agora atuar diante de um governo que se apresentava como representante daquelas classes outrora excluídas do processo político? Continuar sendo contra? Ser a favor? Manter independência - é possível?

Algumas organizações não compreenderam bem qual a tática correta a ser aplicada neste momento. O Governo Lula - que não era um governo somente da esquerda, mas sim de coalizão, trazendo, inclusive, em seu seio, elementos retrógrados da política brasileira - nos provou que não é somente a via eleitoral, pura e simplesmente, que deve guiar as transformações de que o país precisa. Não bastava o Lula vencer a eleição para que medidas fossem tomadas em favor dos necessitados, em favor do povo brasileiro. Os que não compreenderam isso, passaram a negá-lo. Chamaram-no de traidor, de inimigo dos trabalhadores. Utilizaram-se do discurso vago de que o poder acometeu aqueles que lá chegaram: o presidente e seu ministério, seus líderes no parlamento. Não bastava que muitos tivessem uma digna biografia de atuação ao lado do povo; no Ministério de Lula (e até hoje, no de Dilma), estão ex-líderes do MST, da UNE, da CUT e de outras centrais, muitos ícones do enfrentamento ao neoliberalismo irresponsável dos anos 90. Não bastava. Ainda assim, eram tidos como uma contraparte. E os que o negavam, passaram a fazer um jogo de oposição. O problema é que ser oposição ao Governo Lula não significava defender um governo melhor, mais à esquerda. Pelas circunstâncias dadas, ser oposição ao governo significava fazer uma campanha indireta pela volta daqueles que foram alijados do poder pelo povo - o tucanato, o PFL (hoje DEM), os herdeiros da ditadura militar, os entreguistas, prontos como sempre estiveram a obedecer as ordens de Washington e continuar a permitir que o Brasil seja o país que tira os sapatos quando entra no território ianque.

Em todos os momentos, um olhar dado acerca do momento em que vivemos não pode se restringir somente a ele. É preciso que tenhamos um parâmetro histórico do que viveu o País para compreender o potencial e as limitações do Brasil de hoje. Nesse momento, é conveniente lembrar de um lema que os chilenos utilizavam nos anos 1970, em defesa do governo de Salvador Allende: és un gobierno de mierda, pero és mi gobierno (é um governo de merda, mas é meu governo). Essa inusitada sentença é mais profunda do que se pode imaginar à primeira vista. Os chilenos - como nós, brasileiros - queriam que seu governo transformasse o país de uma hora pra outra. Não bastava que existissem contratos, pressões internas e externas, classes sociais que queriam manter seu status quo, uma mídia que se postava ativamente contrária ao governo. Queriam que Allende fizesse milagre, mas ele não fez, nem poderia fazer. Contudo, os chilenos compreendiam o momento histórico vivido. Sabiam que o governo, apesar de seus lapsos, deveria ser criticado, mas jamais negado. Sabiam que aquele era o melhor governo possível. Era o governo que agregava os maiores quadros do país, os mais progressistas, mas que recebeu de bandeja para si uma herança maldita de séculos de colonialismo. Tanto os chilenos estavam certos em defender seu governo que, quando ele foi derrubado (não no voto, mas nas armas, nos bombardeios), o Chile viveu décadas de repressão, torturas e mortes que até hoje tem seus efeitos sendo sentidos (um exemplo são os protestos que hoje estão ocorrendo por lá).

Não há exagero em ligar aquele momento histórico vivido no Chile ao que vivemos hoje no Brasil. Não é preciso listar aqui medidas aplicadas por este governo para defendê-lo. Desnecessário citar as políticas afirmativas, a reestruturação das universidades e da rede tecnológica, o estancamento das privatizações, a postura altiva do país no âmbito internacional, a promoção de políticas públicas até para os catadores de lixo. Tudo isso é pouco, tão pouco que não deixa de ser um governo de merda. Mas é nosso governo; tão nosso que pela primeira vez o povo brasileiro é recebido em seu palácio, pela primeira vez essa instituição chamada Presidência da República marca sua presença em eventos de massa, de estudantes, trabalhadores do campo e da cidade.

A incompreensão de alguns setores da esquerda, sobretudo aqueles encastelados nas universidades federais, não vem por acaso. Enquanto parte da parcela progressista do país atualizou seus métodos de atuação, seus programas e perspectivas, alguns continuaram a ver a política como um objeto maniqueísta.


Voltando à questão


Por que fazer todo este panorama para depois adentrarmos na questão da greve em si? Porque o que aqui se pretende não é apenas tecer uma nota crítica ou positiva dela, não é apenas mencioná-la, destacá-la, mas, sim, analisá-la, compreender seus potenciais e suas contradições. Entender um pouco desse histórico nos oferece parâmetros para compreender a natureza desse movimento, e compreender a natureza, a essência, é algo que não podemos conseguir analisando apenas sua aparência, ou seja, apenas a forma como ele se manifesta hoje, suas pautas, etc.

Vamos elencar alguns pontos críticos a respeito do movimento que ora está sendo tocado pelos sindicatos e negligenciado pelo governo:



A rodada de negociações não havia acabado antes da deflagração da greve. O sindicato nacional deflagrou a greve antes que a rodada de negociações com o governo tivesse sido encerrada. Ao contrário do que se diz - que o governo se nega a receber -, na verdade o governo vinha sim recebendo as centrais; há inclusive vídeos gravados das próprias centrais que provam isso. A questão é que as contrapropostas do governo não satisfaziam aos que reivindicavam. Então, a questão não é silêncio do governo ou a não-recepção deste, e sim o fatod e a proposta do governo ser inviável. A partir do momento que a greve é deflagrada, contudo, a rodada de negociações não pode mais ser mantida no mesmo ritmo, e o governo - como era de se esperar - não aceita dialogar nessas condições. É certo? Não. É errado? Deveria ser, mas demarca um erro de cálculo dos sindicalistas. Ao invés de primar pelas ações de massa, prefere partir direto para a paralisação das atividades.

O estudante não pode ser refém da greve. A greve em si não destaca nenhuma mudança na natureza de qualquer movimento. Ela presume, na verdade, a paralisação das atividades laborais para que todos os trabalhadores se dediquem única e exclusivamente à luta que está sendo encampada. O discurso da greve não pode ser a própria greve. Deve ser as atuações de massa, agregando estudantes e comunidade em seu apoio. Usar o simbolismo da greve, com suas consequências negativas, como o discurso preponderante só fará o movimento morrer de inanição, meses depois.

O governo não pode ser visto como inimigo. Algumas das discussões paralelas à greve têm passado irresponsavelmente pela negação ao Governo Dilma, como s o caráter do governo fosse agressivo para com os servidores, e não um governo que prima e defende o serviço público por seu caráter estratégico. Logicamente, o governo não é perfeito, e há pressões de lado a lado. Os conservadores fazem do lado de lá, os progressistas fazem do lado de cá. É isso que a greve tem que ser: um movimento de pressão para quer o governo atenda uma categoria que sempre esteve em seu apoio. Negar o governo, querer transformar a Dilma em vilã, em inimiga do funcionalismo público é a tática mais incorreta possível. Chega a ser inconsequente e inadmissível, diante da correlação de forças posta.

O sindicato precisa atualizar seus métodos e seu discurso. As forças que dirigem os sindicatos que estão em debate nesse texto se autodenominam oposição de esquerda ao governo Lula/Dilma. Mas existe oposição de esquerda no Brasil? Por que ela está encastelada em alguns sindicatos mas não se afirma enquanto uma corrente representativa, por que não consegue espaço político maior do que as migalhas que lhes cabem? Oposição de esquerda no Brasil é uma lenda (da qual falarei mais em outro artigo), mas essa lenda ainda tem respaldo justamente nesses setores, que, não por acaso, têm um histórico de se fecharem em si próprios, por diversas circunstâncias. Essa pretensa oposição não cresce porque seu discurso - um discurso maniqueísta, por vezes anticientífico - não serve para a atuação política no momento presente. Ser oposição de esquerda a FHC é fácil. Sê-lo a Lula e Dilma não; há muitas nuances a se superar. Na medida em que este é um governo dirigido por parte da esquerda consequente, qualquer discurso que se pretenda ir mais à esquerda tem que resolver contradições que dariam um almanaque de reflexões. O PSTU, PSOL e forças afins (que estão guiando esta greve) ainda não conseguiram, e não parecem que vão conseguir.

Os erros das últimas greves devem ser corrigidos. 2005 e 2006 foram os últimos anos de greve nos institutos federais, então Cefets. Desde antes de ela ser deflagrada, o movimento estudantil já apontava o caráter político daquela greve, de maneira que fizeram pressão contrária à sua deflagração que durou mais de dois meses; toda semana, havia assembleia do sindicato para convocar greve, e em toda semana a proposta era derrubada. A greve somente foi iniciada quando o próprio movimento estudantil decidiu dar uma carta de crédito. Mas não adiantou: tal como era previsto, a greve morreu de inanição, durou mais de 100 dias e o resultado foi um termo de conduta que o próprio sindicato desrespeitou para lançar a greve no ano seguinte, com um discurso surreal de que o governo não havia atendido ao acordado, quando na verdade o prazo ainda estava em vigor. Naquela ocasião, eu - diretor de assuntos institucionais do DCE - disse, invocando inclusive Marx: "A história acontece duas vezes; a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Até aqui, em pequena escala vemos isso. A greve de 2005 foi uma tragédia, comparando os ganhos com as consequências. A deste ano, por sua vez, não passa de uma farsa. Uma greve com conteúdo político e eleitoreiro, que se aproveita do moribundo discurso do ano passado para se sustentar". Esse diagnóstico estava tão correto que a greve não durou nem três semanas, pois não conseguiu qualquer respaldo.

A greve não pode ter caráter político. Essa recomendação é dúbia em sua essência. Todo movimento social, afinal, é também um movimento político. Mas a ressalva se deve ao uso pragmático desse movimento político, em geral comum em anos eleitorais, que não é o caso deste ano, mas que também tem um processo eleitoral em vista: é ano de eleição para reitorias e direções dos IF's, de maneira que tais atos podem ser demarcações de espaço das seções sindicais, que geralmente lançam candidatos aos cargos eletivos. É preciso compreender até onde a greve mantém o elemento motivador classista, para que não se transforme em oportunismo.

A greve deve tomar as ruas. Essa é a maior crítica aos movimentos de greve que ocorrem na educação federal. Ela não pode se restringir à atuação interna, às assembleias e aos cronogramas convencionais que buscam apenas manter os grevistas próximos, mas não avançar na construção de um movimento massivo e que alcance repercussão. Enquanto a greve se restringe aos muros de cada instituição, ela se torna um engodo, e não um impulso para as conquistas. A mudança só se conquista nas ruas, nas lutas, nas manifestações do povo de apoio ao movimento e de pressão a um governo que tem condições de jogar do mesmo lado, mas que tem até aqui sofrido mais pressão do outro.

A greve deve centrar sua luta na essência do problema. O problema, por assim dizer, do Governo Dilma é o mesmo do Governo Lula; a manutenção de uma política macroeconômica que persiste vendo na elevação da taxa de juros e na contenção de investimentos o controle da inflação. A greve deveria encampar a luta pela mudança dessa política, exigindo que o governo se paute pelos esforços primando a elevação do consumo do brasileiro e os investimentos do Estado na infraestrutura. Somente isso fará com que a expansão das universidades e dos institutos federais esteja casado com a valorização do profissional, seja o professor, sejam os servidores técnicos-administrativos.


Enquanto a greve e os grevistas apontarem o movimento como um duelo dos certos contra os errados, enquanto tratar o governo como inimigo, e não como um braço aliado no espaço institucional, incorrerá no mesmo erro que caíram as entidades que perderam respaldo de sua própria base. A pressão deve existir, mas não deve se transformar em oposição. A greve de hoje não pode ser usada como objeto de debate em 2014, senão ela terá perdido seu cunho de classe e se transformado nisso, numa negação ao Governo Dilma que não surtirá efeito para uma candidatura dos trabalhadores nas próximas eleições, e sim será apenas munição para a direita ânsia de poder voltar ao Planalto e aplicar seu programa - este sim seria um retrocesso para todos os brasileiros, para o serviço público e para nosso próprio desenvolvimento enquanto nação.



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

As dicotomias convenientes na conjuntura internacional

A juventude se levanta, efervescente. A princípio, dependendo do lugar, desorganizada, com muito sangue nas veias e pouco cerebelo em exercício, como os luddistas ingleses do Século XIX, que acreditavam que o grande causador de sua miséria era a máquina, e como reação a destruíam, quebravam tudo. Naquele momento, a consciência coletiva se desenvolveu, e o que antes era uma ira coletiva dos trabalhadores se transformou em ação consequente, de classe, organizada. Também neste momento, a ação juvenil, por vezes pacífica, por vezes reagindo de maneira forte e violenta à repressão policial, pode deixar de ser apenas manifestação, protesto, e se converter em algo mais afirmativo. Veremos.

Nestas breves colocações, não pretendo entrar nas questões táticas dos movimentos que pipocam mundo afora, no Egito e na Líbia; na Tunísia e na Grécia; na França e na Síria; no Chile e na Inglaterra, e assim por diante... o que vem ao caso é a maneira dicotômica, paradoxal com que são noticiados os fatos e com que são tomadas as decisões.

Se pararmos para pensar na natureza dos levantes juvenis, envolveríamos questões de muitos campos diferentes. Todas trariam consigo, entretanto, as marcas da decomposição capitalista; todas trazem à tona ressentimentos sociais e políticos próprios desse modo de produção e da maneira excludente sob a qual ele se sustenta. O restante são particularidades de cada caso. O fato é que há um clima hoje para manifestações que é extenso, no mundo inteiro. Aqui mesmo em Natal um movimento construindo de maneira pretensamente horizontal se ampliou e chegou a ser capa de revista nacional. Ao contrário do que pregam os (pós-)modernistas, não são as mídias sociais que promovem isso - elas são apenas o artifício usado hoje. A insatisfação popular encontra sempre meios para gritar.

Quando 2011 começou, trazendo junto "tensões sociais" nas capitais de grandes países do norte da África, ninguém imaginava a amplitude daquilo. Os movimentos se alastraram, tomaram mundo. A mídia os noticiava não aleatoriamente; todo o trabalho de divulgação desses atos mundo afora obedeceu a uma estudada e perspicaz avaliação prévia acerca daquilo que era conveniente aos donos do poder global (e às mídias, obedientes a seus patrões). Nunca foi à toa. Quando estouraram os protestos no Egito, foram cautelosos; cautelosos também foram com os protestos na Tunísia, por aí... que outra postura esperar? Estes países são tradicionalmente aliados dos States e dos seus; os líderes permaneceram no poder até o último segundo. Quando os protestos ocorreram na Líbia, porém, a coisa mudou: o que antes era cautela, passou a ser um jornalismo engajado, desejoso de ver o presidente Kadafi sendo derrubado. Quereriam isso, não fosse o Kadafi um líder que frequentemente se antepõe às deliberações dos países centrais? De repente, a mídia assume lado, e, assumindo-o, respalda tudo, inclusive a pior das saídas: a guerra. Quando a OTAN se manifesta, afirmando que bombardeará o território líbio, editoriais no mundo inteiro comemoram. Há, contudo, o que comemorar? Acaso a OTAN já bombardeou algum país com propósito de defender a democracia neste país? Aliás, como se pode dizer que estamos ajudando um país no momento em que o bombardeamos?

Kadafi permaneceu no poder, no final das contas. O que se percebeu, após todo o acontecido, foi que a popularidade dele era maior do que parecia. Para além disso, muitos dos que o criticavam, passaram para seu lado - pois não queriam, como era direito deles, que essa crítica fosse usada como pretexto para que os países imperialistas interviessem para aplicar sua política colocando um fantoche no poder. Agora, a Síria é a bola da vez, menina dos olhos do imperialismo.

Contudo, os protestos transpassaram fronteiras e capitais. Aos poucos, começaram a estourar também em outros países, tradicionalmente estáveis do ponto de vista político. É o caso do Chile, que passou uma década governado por socialistas, e no ano passado viu um retrocesso histórico se concretizar com a eleição do presidente Piñera. Esse retrocesso anunciado nãos e perdeu no vento: hoje, Piñeras tem a pior aprovação de um presidente na história do Chile. Seu governo só é bem visto por 26% da população, e olhe lá - como tem ocorrido semana após semana, é possível que na próxima este número seja ainda menor. A resposta à insatisfação popular, Piñera oferece ao seu estilo: já foram mais de 1000 presos estudantes no Chile, em uma semana. Imagine-se. Será que a OTAN bombardearia o Chile?

Nessa semana, foi a vez da sacrossanta terra da Rainha ser o palco dos levantes. Em resposta ao assassinato de um imigrante pela polícia inglesa, centenas saíram às ruas protestar; em resposta à repressão com que o Estado tratou estas centenas, elas se transformaram em centenas. A repressão aumenta, a resposta vem de maneira igual - violência, não raro, somente gera violência. Não precisa ser milagreiro pra saber. E Londres virou palco de guerra, como também outras cidades. A polícia se manifesta: "são uns destratantes, pessoas que não respeitam a Lei". Palavras que poderiam ser usadas por Mubarak no Egito. O governo britânico já pensa em restringir as redes sociais, dizem manchetes mundo afora. Pode, isso?

A reação das mídias é a conveniente. Rebeldes, criminosos, vândalos e outras terminologias quando se trata da juventude que protesta contra o governo britânico. Nem parece a mídia transformadora, que se engaja em favor do discurso dos manifestantes, como fizera com o caso Kadafi. Não é nem questão de identidade. É questão de classe, pura e simples. A mídia, como as transnacionais e os governos imperialistas, é corporativista. E é obediente. E, vale-se dizer, também é unida. Levanta uma voz única. Deixa de atuar como mediador de debates que transcorrem o mundo; de repente, querem falar por nós. A isenção é uma palavra bonita para os editoriais, logo seguida por muitas outras de caráter persuasivo e impositivo. A mídia brasileira, como a mídia global, atua seguindo uma linha determinada; uma linha fantasiosa e golpista, elaborando análises de uma realidade que somente existe no seu mundo. No mundo real, as coisas se desenrolam de outra maneira. Vai muito além das aparências, e às aparências é a que ela, a imprensa, se restringe. Há de se convir, no entanto, que, como dizia Marx, se aparência e essência fossem a mesma coisa, não precisaria existir ciência.



domingo, 12 de junho de 2011

Por um grupo de estudos marxistas na UFRN

Um dos maiores mitos que persistem de pé hoje é que a universidade é, numa menção pejorativa, um "antro de marxistas". Acontece que há muito poucos marxistas nesses lugares. No momento em que curso minha segunda faculdade, num curso onde essa corrente é pretensamente dominante, o que menos se vê são discursos que dominem o marxismo em suia essência - a perspectiva materialista e dialética - e que o contextualizem adequadamente, e isso cabe tanto para professores universitários que se posicionem pela esquerda ou pela direita.

Na antiga faculdade de Geografia (Cefet-IFRN) e na atual, de Ciências Sociais (UFRN), frequentemente conceitos marxistas são colocados de maneira inadequada, e essas falhas pontuais tornam-se graves quando envolvem um teórico basilar das ciências humanas, permitindo-se esta crítica também para outros cursos dessa área.

A consequência trágica dessas circunstâncias é a formação de cientistas com baixa formação teórica, muitas vezes até se valendo equivocadamente de métodos apontados pelo próprio Marx e até mesmo se afirmando como marxistas, ainda que essa autoafirmação de nada valha quando a prática aponta uma postura contraproducente. Marx já estabelecia que não importa o que as pessoas dizem de si mesmos; a prática que é o critério da verdade. Na melhor das hipóteses, portanto, o que vemos nas universidades são os chamados marxólogos - pretensos marxistas de academia, que dedicam-se ao estudo das obras marxianas mas desvincula essa pesquisa da vida concreta, não fazendo-se valer de seu aprendizado para desenvolver uma teoria transformadora da realidade - e os anticapitalistas, personagens rebeldes mas de uma pouco sólida formação teórica, e que muitas vezes se definem como marxistas meramente como demarcação de espaço, afinal o socialismo científico formulado por Marx e desenvolvido outros revolucionários nada tem a ver com anticapitalismo, pelo contrário; não é a negação do capitalismo, mas sim sua superação.

Nesse sentido, aponto como crucial a formação de um grupo de estudos marxistas, que trabalhem a partir do entendimento do método, da perspectiva e da projeção do materialismo histórico na vida real e concreta. Frequentemente, essas questões são negligenciadas pela onda pós-moderna que adentra na universidade, para a qual o método é mero acessório, sendo a análise do discurso suficiente para formulação de novas teorias. Nada mais equivocado.

Entender o método dialético de Marx é estudar, ao mesmo tempo, o próprio método científico de intervenção na realidade e (re)produção de conhecimento. Compreendê-lo não presume conversão intelectual ao marxismo, nem muito menos negligência aos estudos de teóricos que pertencem a outras linhas. É exatamente o oposto disso: entender o marxismo permite-nos nos armar intelectualmente e formar solidamente nossa própria postura, pois a partir de Marx compreendemos o papel que cumprem as correntes nas ciências humanas e a que(m) elas servem, além de nos emancipar intelectualmente do discurso anticientífico pelo qual somos bombardeados constantemente.

Esses itens nos abrem espaço para que assumamos a nossa própria postura, seja no campo do marxismo, em campo correlato, ou até mesmo oposto. O estudo de Marx não visa à cooptação, mas sim à compreensão do que é a ciência e como fazê-la.

Desenvolverei esta ideia do grupo de estudo na universidade e no futuro venho expor mais detalhes a respeito de como anda a proposta.

sábado, 11 de junho de 2011

Faleceu Ludo Martens

Nessa semana, domingo, 5 de junho, após uma longa batalha contra o câncer, faleceu o comunista Ludo Martens.

No final dos anos 1960, Martens fundou a revista AMADA ("todo poder aos operários"), de clara orientação antirrevisionista em crítica ao reformismo do Partido Comunista da Bélgica. O núcleo militante ao redor da revista celebrou, dez anos depois, em 1979, o congresso de fundação do Partido do Trabalho da Bélgica, do qual Ludo Martens seria presidente durante muitos anos. Em 1999, deixou o cargo para ir ao Congo e dar continuidade a um trabalho nessa antiga colônia belga, sendo este um de seus principais campos de batalha.

Autor prolífico, entre suas obras podemos destacar o seu relato antirracista Tien Gekleurde Meisjes ("Dez Meninas de Cor"). Em 1985, escreveu Pierre Mulele o la Seconde Vie de Patrice Lumumba ("Pierre Mulele ou A Segunda Vida de Patrice Lumumba"), em que narra a vida do congolês Mulele. Também importante foi o seu O Partido da Revolución ("O Partido da Revolução"), onde chega aos 30 anos de experiência militante comunista. Em La Contre-révolution de Velours ("A Contrarrevolução de Veludo"), descreve os distintos movimentos contrarrevolucionários que se deram nos países do leste europeu e as próprias falhas internas que permitiram explicam o sucesso desses movimentos.

Mas sem dúvida, o livro que tornou conhecido Ludo Martens em todo mundo foi o seu Un Otro Ollar Sobre Stalin ("Stalin, Um Novo Olhar"), uma obra valente que foi precursora do estudo de Stalin e da sua época, partindo de um enfoque oposto ao paradigma anticomunista imposto por revisionistas e burgueses. Um trabalho que, à luz das recentes descobertas sobre a história da União Soviética e de Stalin, adquire ainda mais valor. Curiosamente, na nota de falecimento que publicou na última segunda-feira o Partido do Trabalho da Bélgica, esquece-se desse livro fundamental.

Morre um lutador antirracista e, além das discrepâncias que cada um pode ter, um comunista que foi precursor na luta contra o revisionismo na Europa. Que descanse em paz.


Publicado pelo 'Estoutras Notas Políticas' e traduzido do galego para o Método Dialético.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O nocivo caráter das filosofias idealistas

A história das correntes de pensamento idealistas se confunde com a própria história da Humanidade. Elas foram parte integrante do processo temporal de demarcação daquilo que o homem convencionou chamar de "sociedade". Foram os elementos ideológicos que sustentaram desde as mais primárias até as mais avançadas formas de verticalização social, como a divisão de classes, o surgimento da propriedade privada e coisas assim. A partir delas nascia o argumento basilar para a divinização de faraós, sacerdotes, reis e imperadores - nenhum deles se sustentaria no poder sem se utilizar de discursos idealistas. Ergueram templos e instituições religiosas, foram o sustentáculo psicossociológico de todas as formas de exploração do homem pelo homem. E quando as leis históricas exigiram, esse discurso atualizou-se, abandonando o caráter eminentemente religioso e se travestindo de discurso científico, sem no entanto perder a sua essência mais particular: o irracionalismo.

Idealismo, do ponto de vista do senso comum, sinaliza a pessoa que tem ideais, geralmente ideais de benevolência; é a pessoa que luta pela justiça, pela igualdade entre homens, entre animais, etc. No entanto, o idealismo em si tem raízes nas quais essa benevolência não se faz presente. O idealismo congrega em si correntes de distintos caráter (desde pretensas teorias filosóficas a dogmas religiosos) que partem de uma premissa ideal, divina, metafísica, como determinante do real e concreto. Essa síntese já traz em si a contradição principal entre as correntes idealistas e as correntes que se pretendem racionais: a partir dela nos vemos de mãos atadas, pois se consensuamos que estamos submetidos a elementos ideais, essenciais, e não a elementos concretos, perdemos, também, o nosso poder de intervenção nessa realidade, primeiro porque ela não existe independentemente, segundo porque só poderíamos intervir efetivamente em qualquer coisa se o fizéssemos nesse plano ideal, e é impossível alcançá-lo (a não ser que sejamos religiosos e creiamos que alcançaremos essa condição no post-mortem).

Apanhado histórico

O idealismo não surge por acaso, bem como, é claro, não surge de maneira consciente, como um subterfúgio maquiavélico usado pelos primeiros exploradores de classe para sustentarem suas posições de detentores do poder. Ele nasce da formação do social, que ocorre trazendo em si uma divinização desse próprio social, sobretudo porque quando os humanos começaram a se organizar, estocar excedentes, fixar-se num espaço definido, eles não tinham precedentes nos quais pudessem se basear. Foram-se organizando, num processo milenar, relativamente lento - na verdade, muito rápido do ponto de vista do tempo geológico, que é o que existia até então, e que até isso a Humanidade conseguiu reelaborar, transformando-o em tempo histórico, ou seja, humanificando até mesmo os recortes temporais. As transformações que o Homem faz sem que antes tivesse consciência de que podia fazê-las trazem incompreensões latentes do sujeito com a própria realidade que ele transforma, e para as quais a noção religiosa, ainda que primária, oferecerá resguardo. Não aprofundaremos em pormenores, apenas o apresentamos deveras sinteticamente por ser essencial contextualizar o surgimento e desenvolvimento do idealismo no decorrer daquilo que chamamos tempo histórico.

Na medida em que a sociedade se complexifica, alterando suas relações produtivas, tornando-as gradativamente mais contraditórias, alteram-se também as manifestações idealistas. Isso segue todo o curso das sociedades pré-escrita até a que vivemos hoje, quando essa manifestação de pensamento assume novas formas.

Desde o advento do capitalismo, que trouxe consigo o advento do racionalismo em enfrentamento ao dogmatismo que condenara a Humanidade a mil anos de trevas na era feudal, o idealismo viveu dois momentos: em um primeiro, ele perdeu espaço. Embora ainda se encontrasse facilmente elementos idealistas em Descartes, Vico, Voltaire, Hegel, o fato é que eles eram, junto com uma gama de filósofos, economistas, entre outros pensadores de várias ordens, deram base para o advento, enfim, do racionalismo, libertando os homens desse jugo das próprias ideias. As novas teorias humanistas levantavam a questão de os homens são produto de sua própria atividade. O historicismo concreto, um ponto elementar que Hegel destaca na ascensão desse pensamento racionalista, afirma o caráter ontologicamente histórico da realidade - para existir história, basta existir o humano, em síntese -, fechando o cerco para o divino, o sobrenatural. Com o declínio das filosofias idealistas, caem também os regimes absolutistas da Europa, não por acaso. Com eles caem quase todos os reinados, cai tudo que é velho, ergue-se tudo que é novo, racional e crítico. As leis históricas são implacáveis: quando o futuro se impõe, o passado não se aguenta.

A emergência das visões científicas enquanto válidas e de falência da opressão religiosa medieval na Europa se dá não somente em paralelo com o processo de afirmação da burguesia ascendente, mas é consequência dele. Esse caráter fica nítido quando essa referida classe, outrora revolucionária, absorve poder político e econômico suficiente para se afirmar como dominante - como de fato se tornaram. É em meados do Século XIX que esse caráter revolucionário se transmutará, tornando-se não mais progressista, mas conservador, reacionário. Se nas revoluções que haviam até 1848 essa burguesia era o baluarte das classes avançadas, inclusive como porta-voz dos trabalhadores e do povo oprimido pelos regimes decadentes, a partir dos conflitos de então na Europa - e na França em particular - ela assumirá uma postura repressora; ela abdicará, como foi dito, daquilo que a punha como progressista e se anteporá do outro lado. Ela não tem mais uma classe dominante a derrubar. Ela é, agora, a classe a ser derrubada.

Para concluir: as manifestações atuais do discurso idealista


Este ponto será mais largamente discutido num ensaio futuro, de caráter mais filosófico, a ser publicado neste mesmo blog (Crítica da Razão Pós-Moderna). Atualmente, a tradição idealista tem gradativamente travestida-se numa roupagem científica, não assumindo seu caráter irracionalista em correntes como o estruturalismo e o pós-modernismo. Essas correntes, sobretudo esta última, desenvolvem-se não a partir de métodos tradicionais de pesquisa, mas por falhos recursos de análise de discurso, que desconsideram o teor metodológico estabelecido na formulação de conceitos e cria vínculos inexistentes entre eles, gerando assim uma falsa noção da realidade a partir dessa leitura respectiva. Essas correntes posicionam-se, portanto, como idealistas, na medida em que a realidade concreta torna-se um mero apêndice dos conceitos por elas elaborados. O conhecimento pretensamente racional suplanta o conhecimento sensível, quando na verdade aquele deve partir deste. Essa inversão de conceitos, gera, também, uma inversão na compreensão da realidade; é a inversão na qual recaem todas as seitas e religiões, e todas as concepções de mundo que atravancam o efetivo desenvolvimento da humanidade e a emancipação intelectual do homem.


Livros de auxílio
F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado
Plekhanov, O Papel do Indivíduo na História
João Evangelista, Crise do Marxismo e Irracionalismo Pós-Moderno
Carlos Nelson Coutinho, O Estruturalismo e A Miséria da Razão

quarta-feira, 23 de março de 2011

A antropologia não nasce do discurso

Lendo o livro Aprender Antropologia, de François Laplantine, recomendado nas faculdades de Ciências Sociais, percebi que há uma demasiada carência de material bibliográfico de qualidade - isto é, metódico, científico, criterioso - nas universidades, ou há, por outro lado (e estou levado a crer que esta segunda hipótese é a mais emergente), pouco critério dos professores na hora de recomendar a seus discípulos um material de estudo rico e com densidade, talvez por desconhecimento - defeito grave para os que estão nessa condição -, talvez por opção (que sintetiza, em si, uma opção ideológica, e, em última instância, política).

O recado a ser emitido a Laplantine deve ser claro: a Antropologia não nasce do discurso. Parece que ele não sabe. Em seu livro, traça um histórico do que ele chama pré-antropologia até o surgimento da ciência em si, baseando-se em citações de personagens do passado e do presente para fazer uma leitura das transformações pelas quais passava o mundo nos séculos XVI, XVII, XVIII e, enfim, XIX, que é quando a Antropologia surgirá enquanto concepção de estudo, com método sistematizado de pesquisa.

O problema é que as citações levantadas por Laplantine sequer envolvem mudanças concretas; elas emitem interpretações ideológicas do mundo, e não uma descrição a respeito das mudanças concretas. Isto é, no livro de Laplantine não estudamos o mundo que muda, e sim as impressões sobre o mundo em questão.

Essa distinção não é tão simplória quanto parece. Sendo assim, pararmos para observá-la não é algo que devemos considerar somente pela conveniência, mas sobretudo pela imprescindibilidade.

Ao estudar a pré-antropologia através de discursos, creditamos todas as situações geradoras dessa ciência como objetos autônomos em si, como ideias que se acumulavam e formavam, sozinhas, aquilo que depois se transformaria na Antropologia tal como conhecemos. Dizem o Laplantine e os seus repetidores que havia, nas críticas feitas pela Igreja, pela burguesia ascendente e por outras categorias sociais, a tentativa de interpretar outros modos de vida que depois evoluiria para a tentativa de constituir uma disciplina específica para estudá-las. Ignoram, assim, a base material que sustentava esse discurso. Por que, afinal, Las Casas defendia os indígenas enquanto Sepúlveda os considerava como bárbaros? Qual a motivação? Quais as circunstâncias anteriores à manifestação do pensamento desses dois, e de tantos outros? Isso é elemento aparentemente secundário no superestimado compêndio laplantiniano.

O equívoco maior aos que observam a fase da pré-antropologia pela perspectiva esboçada no livro Aprender Antropologia envolve, então, a irrelevância a que eles creditam as transformações econômicas. O mundo muda para que depois mudem-se os modos de estudá-lo. A falha de interpretação é tamanha que, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando houve, no contexto de um debate, um questionamento a respeito da possibilidade de a expansão marítima dos séculos XV e XVI terem contribuído para o surgimento da Antropologia, não se soube, nem entre o professorado nem entre o alunado, fazer uma leitura histórica que se permitisse vislumbrar a Antropologia dentro de um contexto geoeconômico, sequer sociológico. Se se soubesse, saber-se-ia por tabela que as premissas que sustentaram a sistematização da Antropologia não envolvia a descoberta de povos exóticos em novos continentes conhecidos.

A mostra maior disso é que a Antropologia surge somente 300 anos depois das Grandes Navegações. Pode-se até dizer que a expansão marítima atravancou o desenvolvimento dos estudos antropológicos, na medida em que deu sobrevida a regimes que se tornaram os últimos baluartes do feudalismo na Europa.

Qual o contexto, afinal, em que surge a Antropologia? Ora, o mesmo contexto no qual surgem a Sociologia, a Geografia, a Economia Política, o Direito Moderno e outros campos do conhecimento; é o contexto das revoluções liberais, que, a partir das alterações nas relações sociais de produção - o surgimento da figura do assalariado, do capital, da mais-valia, etc -, altera gradativamente as instâncias ideológicas daquilo que chamamos sociedade. Sendo assim, muda-se tudo: as escolas, a arquitetura, as religiões e, naturalmente, a ciência, pois esta é diretamente determinada pela infraestrutura, pela base material que a utiliza para dar-lhe respaldo.

A Revolução Industrial, a face econômica desse referido contexto, levaria à necessidade de busca por espaços que pudessem suprir a necessidade material das economias desenvolvidas, como combustível, alimentos, entre várias outras, além de criar um mercado para os produtos industriais excedentes (as sobras do que era consumido pelos europeus). O ponto de partida para que as potências europeias se assumissem enquanto países imperialistas foi a Conferência de Berlim, na qual elas dividiram grande parte do globo terrestre entre si. África, Ásia, Oceania, foi tudo entrando no bolo. Esse neocolonialismo trazia em si não a exploração feita de maneira aventureira e a qualquer modo, e sim a exploração feita de maneira pensada, criteriosa e científica. Trazia em si a necessidade de conhecer a realidade nos seus distintos aspectos. Na medida em que o capitalismo se configura como um modo de produção expansivo, alcançando todos os campos da infraestrutura e da superestrutura (não nos esqueçamos de que hoje tudo é objeto de consumo, e ainda vem mais pela frente), as suas características ideológicas - o senso de unidade, de racionalidade, etc - precisam se alargar também a todos eles. Dominar o outro já não é apenas algo para o qual basta a pólvora como artifício. Exige-se conhecimento, técnica, e meios diversos de não somente dominá-lo enquanto tais, mas elevar o potencial dos povos e espaços dominados, para então se apropriar deles. Esse processo não nos é estranho; aqui no Brasil, o capitalismo foi desenvolvido não pela elite econômica local (pois a elite brasileira sempre foi eminentemente agrária, e não industrial), e sim pelos estrangeiros, que "desenvolviam" para explorar.

Sendo assim, o conhecimento a respeito do modo de vida do outro, de seus costumes, de suas particularidades culturais é uma condição sine qua non para que se possa dominá-lo eficientemente, ou ao menos saber que papel caberá aos povos pesquisados no grande tabuleiro do mapa econômico global. Não havia a busca florida e visionária pela constituição de uma nova ciência; havia a necessidade dela para fins econômicos!

Isso explica o fato de a antropologia francesa não estudar os próprios franceses, ou a antropologia inglesa não estudar os próprios ingleses, entre outros. Eles não se estudam pois não precisam; primeiro porque a exploração que praticam é feita sobretudo fora, não dentro de seu território. Segundo porque eles já se conhecem, já têm no seu processo de formação a compreensão dos elementos que os caracterizam enquanto tais, sejam franceses, ingleses, ou qualquer outro exemplo pensado. Somos nós quem nos estudamos, porque temos um hiato em nossa história e não nos compreendemos: o fato de que para nós, a história começa há cinco séculos. Há um hiato de pelo menos 9500 anos que não se conhece bem porque não se quer conhecer. É uma história restrita aos cientistas e aos interessados. De modo geral, ignora-se o papel desse período na nossa formação.

Além disso, nós não somente nos estudamos, mas somos estudados. O que não faltam são antropólogos financiados por empresas transnacionais para desenvolver suas destacadas pesquisas, recitadas em fóruns e encontros por aí afora.

A perspectiva que buscamos ao apontar estas críticas à pesquisa de Laplantine e a seu uso como objeto de estudo da Antropologia não pretende invalidar o seu trabalho. Apenas questiona a sua utilidade como uma referência na área, uma vez que ele se mostra esvaziado intelectualmente, ignorando aspectos determinantes no assunto estudado. Um trabalho sério e referenciado não pode jamais prescindir de uma noção de totalidade, de uma perspectiva que abranja elementos da realidade concreta, que faça uma interação com outras disciplinas, que seja contextualizado, sob o risco de elaborar um trabalho completo na sua aparência, contudo anacrônico em sua essência. Eis a última definição do trabalho de Laplantine.