Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
- Brecht


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Meras inconveniências?

É curioso como os índices econômicos praticamente sumiram dos noticiários nesses meses de governo biônico. Em 2015, todo dia tínhamos novidades (negativas) sobre desemprego, inflação, PIB, queda de receita, retração econômica de diversos setores, etc. Quando não havia novos dados, requentavam os velhos. Agora, isso mudou. Eventualmente, quando o IBGE publica alguns de seus balanços, eles aparecem nos jornais para logo sumir. Muitas vezes, desemprego e PIB negativo são apresentados como meras inconveniências com as quais se deparam as pessoas que estão no mercado de trabalho.
A consequência disso é que não se tem mais noção de continuidade nem, muito menos, de como é feita a ligação entre os referidos índices e as decisões políticas do governo. Com Dilma, cada decisão já tinha seu reflexo imediato no "comportamento do mercado" e em outras variáveis de interpretação questionável, de modo que, antes de ela assinar a papelada, já sofria os revezes da decisão. Sobre Temer, mesmo tendo acabado com a Controladoria Geral da República no primeiro dia de mandatário, tendo mudado o regime fiscal e estar pondo em curso o desfiguramento da Previdência, ainda tem quem diga que "não dá para analisar seu governo em tão pouco tempo". Pior: a discussão da PEC 55 criou o bizarro fenômeno dos defensores "que entendem de orçamento e gestão" - mas que não se amparam em nenhum dado técnico para defender seus propósitos - e dos críticos "que não entendem nada" dos mesmos tópicos. A resposta ideológica a qualquer questionamento do governo - usada sempre para defendê-lo ou, no mínimo, isentá-lo - se tornou muito mais solidificada do que a do mais fanático petista nos prósperos anos Lula.
Aos poucos, no entanto, os nocivos resultados econômicos de Temer começam a ser pincelados. Ao mesmo tempo, também são pincelados escândalos de corrupção que, no conjunto, favorecem a desestabilização do governo, de modo que, nos altos escalões, já se fala abertamente na sua destituição. É interessante observar uma emblemática distinção entre os meses que antecederam a derrubada de Dilma e os que parecem prenunciar a de Temer: há exatamente um ano, Dilma colocava Nelson Barbosa no comando da economia, tentando remendar os equívocos de um ajuste fiscal sem critério que a levaram a uma imensa perda de popularidade. Porém, já era tarde: a presidente já não conseguiria aprovar nada a partir dali. Nenhuma das 14 medidas enviadas pelo ministro foi aprovada no Congresso. Ela foi boicotada também por todos os demais aparatos do Estado, que, no final das contas, não se encontravam sob seu comando, aparelhados que estavam desde os nada republicanos anos 90 (aparelhamento que o PT não pôs em questão em nenhum momento); Temer, cujo comando dos tais aparatos é ainda mais frágil, consegue, por outro lado, aprovar tudo o que quer. Muda a Constituição - se é que ainda temos Constituição - com a facilidade de quem pisca os olhos. Tem a maior base congressual de todos os tempos. Suas vitórias folgadas no Parlamento lembram a dos nossos velhos ditadores - não por acaso.
Mesmo com tudo isso, essa base de Temer deve se diluir sem muitos traumas quando chegar a sua vez de deixar o Palácio. Temer, é importante saber, não é um neoliberal orgânico. E o PMDB, embora seja tão demonizado, também não é o que pintam; os que se esforçam para condená-lo parecem estar apenas procurando um alvo para canalizar sua revolta, sem se dar conta de que esse alvo tem pés de barro.
Como todos os golpes já empreendidos na História, este também confirma que ele não se encerra em um ato. Um golpe, afinal, é sempre demonstrado pelo que vem depois: realinhamentos, traições, velhos personagens sendo jogados para escanteio ao sabor das circunstâncias. O problema é que nunca se sabe quando ele vai terminar.




domingo, 27 de novembro de 2016

Por menos ressalvas

As muitas ressalvas feitas por personalidades de esquerda acerca da partida de Fidel demonstra toda a dificuldade desse segmento de construir qualquer projeto autônomo. Não perceberam ainda um preceito básico: que "ditadura" e "democracia" é um termo que sempre foi usado ao sabor dos interesses dos EUA. Não entendem ainda que reconhecer que Fidel foi um herói não significa idolatrá-lo, mas deixar claro que nós, os resistentes latino-americanos, temos nossos referenciais, assim como eles têm os deles. 
Cada vez que manifestamos um "pé atrás", estamos dizendo para os que por séculos usurparam o continente: "vocês estão certos, nossos heróis não são tão heróis assim". No entanto, nenhum dos heróis deles precisa responder por todas as cabeças decapitadas, todas as guerras civis e mundiais, todas as bombas nucleares, de napalm e de fósforo, todos os campos de concentração de portadores de hanseníase, todos os negros traficados durante séculos, todas as intervenções da OTAN perpetradas por democracias incontestes. Nada disso tem nome. Nenhuma matéria sobre Cuba diz que lá os índios foram exterminados muito antes de Fidel chegar. Por quem? Não há resposta. Ninguém diz que Cuba foi um dos últimos países a abolir a escravidão (só o Brasil veio depois). É assim que as coisas são. Do lado de lá, o genocídio não tem autoria.
Assim, envergonhados ficamos de cada resposta que esses genocidas receberam de nosso povo. A pretexto de fazer uma leitura "concreta", esvaziamos de conteúdo todo o simbolismo que nossos combates e nossos heróis representam, num comportamento dúbio, recheado de pudores e de falsa neutralidade, que no final das contas é um recado claro ao império de que eles não precisam se preocupar, porque nenhuma política de libertação que por ventura venha a ferir os seus interesses será tocada adiante.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Novos parâmetros oficiais

Semanas atrás, pesquisadores do IPEA publicaram uma nota técnica apontando os prejuízos decorrentes da PEC 241 no campo da saúde. A imprensa, convencionalmente, anunciou a pesquisa como tendo sido feita pelo IPEA enquanto órgão. A resposta, no entanto, não foi nada convencional: a direção se apressou em descredenciá-los, com o próprio presidente fazendo estardalhaço para "esclarecer" que o estudo não reflete a posição da instituição. A pressão foi tamanha que uma das autoras precisou pedir exoneração do órgão.
Situação semelhante aconteceu poucos dias depois, dessa vez com um pesquisador da Fundação Getúlio Vargas.
Ontem, a imprensa divulgou matéria intitulada "IPEA diz que país não precisa gastar mais para melhorar a educação". Na verdade, não foi o IPEA quem disse; como no primeiro caso, a sentença é fundamentada numa nota técnica publicada por pesquisadores do órgão. Mas aposto com quem quiser que dessa vez não haverá resposta alguma do Instituto. Ninguém aparecerá para dizer que a nota técnica não representa o pensamento do IPEA. O governo não pressionará nenhum dirigente para se manifestar. Além disso, nenhum imparcial analista de Facebook chamará de "blog sujo" o Valor Econômico por ter apresentado um trabalho privado como sendo um parecer institucional.
Definitivamente, foi oficializada nos ambientes palacianos a política de dois pesos e duas medidas. E assim seguimos...



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Pode tudo em matéria de humanas?

Em momentos como o atual, em que as ciências humanas são reduzidas a conhecimento de peso menor e se faz urgente defender disciplinas como sociologia e filosofia como necessárias à formação do cidadão, acho curioso que mesmo pessoas dessas áreas alimentem esse estigma, ao se oferecer em "correntes solidárias" nas redes sociais para ajudar alunos que se preparam pro ENEM. São estudantes de Sociologia se oferecendo pra ensinar Geografia, estudantes de Geografia se oferecendo pra ensinar História, estudantes de História se oferecendo para ensinar Filosofia... alguns vão além: se oferecem pra ensinar tudo "em matéria de humanas". Mas tem mesmo rigor em uma ciência alguém que tem formação em outra? O fato de haver conteúdos e leituras afins justifica ultrapassar os limites de seu campo, e fazer propaganda disso? Que precisão terá na abordagem em Filosofia alguém que está se formando em Sociologia e vice-versa?
Suspeito que o que a maioria das pessoas entende de Geografia equivale a regra de três e fórmulas geométricas na Matemática, ou seja, o suficiente para quebrar o galho e ganhar umas questões - mas ninguém sai se oferecendo para ensinar Matemática pro Enem, por que será? Matemática, Física, Química, isso aí são objetos de cursos isolados. Geografia, Sociologia, Português, História, são "conhecimento geral", quase "senso comum", que qualquer pessoa que assiste a documentários na National Geographic pode ensinar.
Não quero com isso desmerecer a importância de campanhas solidárias nem dizer que é proibido a pessoas oferecer dicas ou mesmo dar aulas particulares em áreas que são de seu interesse e onde você demonstre algum domínio. Eu faria e faço o mesmo. No entanto, considero pouco educativo - e, pro contexto de uma luta séria que estamos travando, também contraproducente - nós nos assumirmos como detentores das condições de oferecer isso para pessoas que já devem carregar consigo uma formação precária, apenas baseados nas impressões que temos de que portamos quilate suficiente para ensiná-lo.
Me lembra muito o Amigos da Escola, projeto da Globo adotado por FHC, que incentivava pessoas que "gostassem" de esportes, artes, literatura e qualquer coisa assim a irem lá "ajudar" os alunos nas escolas voluntariamente, com um monte de gente formada nessas áreas estando por aí a ver navios...




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um mal-estar que persiste

Uma das mais emblemáticas obras de Freud é, sem dúvida, O Mal-Estar na Civilização. Publicado em 1930, quando a psicanálise já era   uma corrente de pensamento constituída, com seguidores no mundo inteiro, ela veio dar novo impulso não somente ao que Freud entendia como o ser humano, mas também a toda a sua própria visão de civilização. Cabe lembrar, e essa é uma observação que Freud insistia em fazer, que, para ele, cultura e civilização eram a mesma coisa. A civilização (e, portanto, a cultura), afinal, gera um mal-estar   nos seres humanos, uma vez que ela se coloca numa posição de incompatibilidade com as exigências da pulsão. Essa incompatibilidade faz com que todo indivíduo se torne um inimigo da cultura, porque entre essas exigências da pulsão encontram-se tendências antissociais e destrutivas. Daí ele se encontra no lado oposto ao da comunidade.
Esse mal-estar não tarda a se apresentar ao indivíduo. Ainda no início da infância o impasse está dado, quando o bebê lactante, que não separa ainda o eu de todo o mundo externo — o seio materno, por exemplo, é entendido como uma extensão de seu corpo, que, quando por ventura se encontra ausente, é reclamado pelo choro e pelo grito —, em algum momento se verá usurpado daquele objeto que lhe oferece prazer.
O bebê é, então, nesse momento, orientado pelo princípio do prazer. Ele chora para receber aquilo que o aprazera. Mas quando chora, ele manifesta um mal-estar típico, que advém do fato de que, ao invés de buscar para si o prazer desejado, ele se vê, na verdade, fazendo um esforço para fugir do desprazer. Assim, seu choro é uma reação a dor, na tentativa de saná-la. Isso persistirá no correr de sua vida social. Felicidade, no contexto da civilização, não é obter mais prazer; em sentido contrário, é obter menos desprazer. É impossível, afinal, ver-se atendido nos anseios de prazer numa civilização que se coloca no sentido oposto à concessão de tais anseios.
Isso não decorre, no entanto, de uma atitude arbitrária da civilização. Trata-se de um mecanismo de autopreservação. Sem reprimir suas pulsões, a sociedade ruiria. Freud destaca, em certo  momento, que não somos instintivamente adeptos do trabalho. Trabalhamos a partir   da canalização de nossos impulsos sexuais nessa direção. Ele questiona, por exemplo, as perspectivas dos comunistas que acreditam que é possível, num contexto de socialização da propriedade, uma convivência pacífica e frutífera dos homens. Não se atendo aos dados econômicos relacionados a essa hipótese, ele lembra que não importa o modo de produção que se estabeleça, alguns elementos são essenciais do ser humano, como a sua agressividade, que não tem raiz na criação do instituto da propriedade, sendo, portanto, muito mais antiga; parte constituinte da humanidade.
Dados, portanto, os riscos existentes para a civilização na hipótese da liberação da vida sexual e da agressividade, resta ao  indivíduo   sacrificar-se, pagando o preço que consiste em renunciar a essas satisfações pulsionais. Quando a agressividade não tem condições de   ser externalizada, ela se introjeta no corpo, voltando-se contra o próprio ego; decorre daí a existência do superego, onde se sustentam, por exemplo, os sentimentos de culpa — que se torna praticamente parte indissociável da civilização.
Freud encerra, então, recapitulando diversos pontos do que abordou no correr do texto e lançando, ao final, mais perguntas do que respostas. Um ponto em aberto foi acerca da possibilidade de patologia das comunidades, isto é, dos riscos de que a neurose, que afeta o indivíduo, afete também a civilização. E, no que se refere à sobrevivência da espécie humana, ele deixa também em aberto a questão que se relaciona ao domínio da pulsão de morte. Conseguirá o desenvolvimento cultural dominá-la efetivamente? Ainda estamos à espera de respostas...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O mundo gira tanto que...

O mundo gira tanto que às vezes a gente se depara com situações que, noutros momentos, causariam vergonha aos personagens envolvidos. Uma dessas é o fato de, agora, blocos econômicos terem virado coisas de comunistas na cabeça dos liberais de Facebook. Não sei se isso decorre do fato de a maior parte dessa rapaziada ter menos de 25 anos, e não recordarem que até algum tempo atrás esses mesmos blocos davam início a uma etapa que se apresentava como irreversível de falência do Estado e de transnacionalização do intercâmbio econômico (pelo menos o intercâmbio de bens, porque o de pessoas não avançava na mesma velocidade). É claro que os comunistas também têm suas ideias de blocos econômicos, mas esses que andam sendo postos em questão (em especial a União Europeia, assunto do momento) foram elaborados sob premissas bem capitalistas - que fique claro.
Agora, duas décadas depois, tendo aquele modelo se mostrado limitado, pois a prosperidade esperada não se mostrou sustentável (na América do Sul as ilusões neoliberais acabaram cedo; na Europa, ainda durou até 2008), e após o ciclo de governos de esquerda também não conseguir romper com o paradigma neoliberal que limitava suas ações (caso do Brasil, onde as pretensões desenvolvimentistas de Lula esbarravam num Estado aparelhado por FHC), a direita ressurge como a bola da vez - e cada vez mais como extrema direita -, sendo a detentora dos discursos fortes, que propugnam ruptura, nova ordem, coisa e tal. Aí o jogo vira de cabeça pra baixo. Essa direita, antes globalizada e moderna, agora reassume uma cara "nacional". A abertura de fronteiras, antes uma solução liberal e avançada, agora é um problema a ser combatido. No Brasil, corporações de ofício são saudadas como salvadoras da Pátria. Nem precisa se falar dos discursos conservadores que encontram nos novos liberais seus canais preferenciais de difusão. A maioria nem parece se constranger em estar ao lado de defensores da ditadura militar.
Nada disso, porém, é pensado. É puro revanchismo. A crítica deles aos movimentos por direitos civis, à esquerda, aos blocos econômicos, é uma crítica meramente artificial, de quem está desesperado buscando a saída mais prática do momento. A extrema direita, afinal, não pensa. Não tem projeto. Não faz análises. Não examina problemas sociais e econômicos para, a partir deles, pensar nas soluções. Ela só tem um conjunto de vilões na mira para serem eliminados, mas não consegue enxergar um palmo à frente do nariz. Esse afã por saídas rápidas e desesperadas se manifesta em especial nos "votos de protesto", que têm se configurado como o canal nº 1 da insatisfação ignorante. Antes, eles consistiam em votos dedicados a caricaturas, piadas. Agora, se dirigem a sujeitos que dizem falar sério. Os resultados estão aí: eleições recordes de Bolsonaros, favoritismos de Trumps, decisões por fechamento de fronteiras, etc. No que se refere à saída dos britânicos da UE, em que pese o fato de o episódio oferecer novas alternativas de ação política, o fato é que nos termos em curso mal sabem os ingleses que os mais prejudicados serão eles mesmos com essa decisão...


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre doutrinas e doutrinadores

Tive a oportunidade de, dias atrás, dar uma aula no IFRN para alunos do ensino médio, sobre o tema Estado e Sociedade Civil no Brasil. Estou há uns três anos sem lecionar, mas foi tudo tranquilo, ok, pessoal gostou e tal... Uma semana depois, voltei para passar uma lista de perguntas sobre a escola, a disciplina e sobre o que acharam de minha aula. Uma advertência: a intenção aqui não é expor ninguém, até porque nenhum dos alunos que assistiram às aulas estão na minha lista de amigos e, além do mais, ninguém se identificou nos questionários. A ideia é apenas colocar esse episódio em discussão. Seguindo em frente, um dos comentários dos alunos sobre minha aula me chamou a atenção:
A doutrinação foi feita com sucesso.
Não pude deixar de achar curiosa. Fui procurar nas demais qualquer uma que se assemelhasse. Nos outros 60 e poucos questionários, ninguém respondeu igual. Alguns até disseram que não gostaram, sem especificar o porquê, ou que poderia ter sido melhor - tá valendo. A maioria, felizmente, aprovou, e alguns até se empolgaram ("esplêndido", "fantástico", "aula maravilhosa").
Aliás, os maiores elogios, por engraçado que pareça, se amparavam justo no fato de considerarem minha abordagem "imparcial", isto é, por eu mostrar, segundo um deles, "pontos de vista diferentes, permitindo que os alunos formem sua opinião". De fato, não sou um cientista social que se possa chamar de "neutro", mas considero inviável tratar temas sociológicos e políticos sem transitar por diferentes correntes de pensamento, ora criticando, ora respaldando o que tais correntes defendem; o que está bem longe de doutrinar.
Mas então por que aquele camarada disse que minha aula fora uma doutrinação? Para saber, fui prestar atenção nas suas outras respostas ao questionário.
A pergunta imediatamente anterior a esta dizia respeito a sua sugestão para melhorar a escola. A resposta foi, simplesmente, "privatizar". Isso mesmo. A sugestão para melhorar aquela que já é a melhor escola do estado e uma das melhores do país, na visão desse aluno, era privatizar. Por quê? Vai saber... Quando perguntado sobre o que ele achava dessa escola, sua resposta foi que ela "sustenta pessoas com dinheiro tirado obrigatoriamente das pessoas" (sic)...
O que faz com que você não goste de um professor?, dizia outra pergunta. "O fato de eles serem doutrinadores, eles devem ser apenas professores", foi sua resposta. Daí tomei a liberdade de admitir que sua visão de mim como doutrinador decorria menos de sua observação da minha aula do que de seu conceito pré-formulado de que professores costumam ser doutrinadores.
Em outro momento, era-lhe perguntado qual a matéria que ele menos gostava. Sua resposta foi, naturalmente, Sociologia. Por quê? "Porque serve apenas para doutrinação marxista". Mais uma vez se nota que sua avaliação de minha aula já estava pré-fabricada, não importa o que eu dissesse nem qual fosse minha abordagem. Por sinal, em certo momento da aula, eu até lembrei que a sociologia costuma ser interpretada, erroneamente, como uma "ciência marxista", e fiz questão de me esforçar para desconstruir essa perspectiva, elencando, por exemplo, grandes sociólogos não-marxistas de larga influência, do passado e do presente. Foi inútil, como se vê.
Uma das outras questões perguntava se ele se interessava por política. "Não, porque sou anarcocapitalista". Ok...
Outra perguntava qual a matéria que achava mais interessante. Considerando que o aluno faz curso técnico integrado ao ensino médio, sua resposta foi Gestão Financeira. "Porque ensina a filosofia das empresas privadas e através dela eu chego ao lucro"...
Já estava tudo muito claro.
Por fim, uma das perguntas era se ele gostava de ler. Sua resposta foi: "Sim, leio artigos do Olavo de Carvalho". 
Depois disso, fui obrigado a concordar com esse aluno: a doutrinação realmente foi feita com sucesso.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um ciclo se fechou

A sentença desumana de 23 anos de prisão a José Dirceu proferida por Sérgio Moro é um dos capítulos finais de um longo processo de criminalização do PT, este partido que nunca foi revolucionário nem comunista, como dizem seus fanáticos detratores; nunca colocou em questão os pilares vergonhosos do nosso desigual capitalismo de quinta categoria. Mesmo assim, tinha uma identidade popular e classista; este foi seu grande crime.
A caçada foi impiedosa e desonesta, porém, o que importa é: ela foi eficaz! Dilma e Dirceu já são carta fora do baralho. Ainda resta o Lula, que já não é mais aquele - está nitidamente abatido, recluso. Ele tem ciência do que aconteceu. Um ciclo se fechou. A oposição organizada institucionalmente a Temer será tímida, quando não inexistente.
Voltamos a ser o que éramos: um país com proprietários, e o governo voltou a ser aquilo que virou chavão há mais de 150 anos: um mero comitê para discutir os negócios da burguesia, sem qualquer propósito de combater desigualdades. E o PT sentiu esse baque, mesmo que não admita. Há segmentos que capitaneiam a denúncia do golpe, mas com muito menor rigor do que deveria ser. As ruas não foram ocupadas por ninguém, o discurso de que a reação seria intensa nunca foi além de uma fútil promessa. Uma promessa honesta, é verdade; acreditavam no que diziam. Mas não compensa entrar na dança depois que a música parou. O vento já não sopra mais a nosso favor. A reação popular, se ainda vier a acontecer, se dará sob contexto nada favorável.
Não há que ser otimista. Nenhum segmento do campo popular e democrático está melhor hoje do que estava há algum tempo atrás, nem mesmo os que nunca aceitaram o papel civilizatório que o PT cumpriu nos últimos anos.
Se Temer fizer a coisa do jeito certo, os 13 anos de PT (que ironia...) serão apenas um breve hiato do qual ninguém terá muito o que dizer, exceto os seus saudosistas, cadáveres insepultos que estarão sempre por aí na esperança de que algo pode ser revertido...


sábado, 9 de abril de 2016

Direitos particulares

Os desavisados gostam de dizer que o governo Dilma é tão neoliberal quanto seria o PSDB. Quem diz isso, das duas uma: ou não viveu os anos 1990 - que, por si só, já deixam flagrante o abismo existente entre os dois programas -, ou então acha que qualquer contingenciamento já configura uma política neoliberal. Ignoram que o neoliberalismo vai muito além de ajustes fiscais em épocas depressivas. Ele representa toda uma reformulação do papel do Estado (em verdade, o seu desmantelamento mais expansivo possível), com a transformação dessa instituição num mero apêndice das relações comerciais - estas sim, estariam na ordem do dia. O neoliberalismo significa uma política dirigida pelo mercado nos mais diversos segmentos. Isso está bem ilustrativo na matéria da Folha publicada hoje, intitulada "Secretário de SP exclui educação de papel do Estado e gera reação negativa".
Quem pensa que PT e PSDB são iguais, portanto, tem que mostrar alguma equação que explique como poderia ser mantida a política de expansão do ensino básico, técnico e tecnológico num governo neoliberal, bem como a política de acesso às universidades públicas, cujas vagas são ampliadas anualmente. Também tem que mostrar como o PSDB trataria programas como PIBID, criado pelo PT, e que deu nova cara às licenciaturas. Afinal, Renato Nalini, a maior autoridade do PSDB numa pasta de educação, deixa claro o contrário. Para ele, educação pública é gasto, é prejuízo. Educação, como a saúde, "deveria ser providenciado pelos particulares". Nalini reclama porque o povo "se acostumou a reivindicar". Tudo agora é "direito", há uma "proliferação de direitos fundamentais". Para que tanto direito, não é?
O sinal está dado para os que ainda não entenderam: sob a caneta do PSDB, a coisa se resume em riscar educação, saúde e outra gama de serviços essenciais da alçada do Estado e deixar tudo nas mãos de "particulares", cujos serviços ainda hoje têm qualidade questionável, que dirá quando se tornarem, enfim, monopolistas. O Temer não é um tucano orgânico, mas já mostrou que gosta de dançar a mesma música. Para quem ainda acredita que o governo atual é tão neoliberal quanto um governo tucano ilegítimo alçado ao poder por um golpe, só restará dizer: bem-vindos ao mundo real (mas espero que não seja tarde demais).


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Manual de como fabricar vilões e mocinhos

A guerra suja segue seu curso na Venezuela, tendo na mídia o seu maior trunfo. Aqui exporemos de forma bem didática um manual de como se fabrica uma notícia, ou, se preferir, de como se fabricam vilões. Tomamos como referência uma sequência de imagens e descrições de uma matéria do Terra, cujo link se encontrará ao final do texto.

Observemos esta foto:

4 de abril - manifestantes contrários ao governo usam estilingue para atirar pedras contra membros das forças de segurança, em Caracas 

A legenda é clara. São manifestantes CONTRÁRIOS ao governo que estão em ação. Observemos a caracterização e o modus operandi: são praticamente todos mascarados, e, num termo sutil, criativos. Improvisaram um estilingue gigante para enfrentar a guarda nacional. São o elo fraco da disputa, o que poderíamos chamar de vítima. A questão é que não há nada que indique que são opositores do governo. Apenas a matéria infere que o são, baseado, justamente, nestas caracterizações. Mas sigamos adiante.

Atentemos agora para a seguinte foto:
3 de abril -  estudante é atacado por partidários do governo de Nicolás Maduro na Universidade Central da Venezuela
Agora vejamos a legenda. Ela diz que um pobre estudante comum é atacado por "partidários do governo". OK. Mas vejamos como se portam esses partidários. Certamente não são partidários comuns, aqueles que, tradicionalmente vestem vermelho, portam bandeiras ou outros itens tradicionais da esquerda venezuelana. Pelo contrário. São mascarados, quase todos. Parecem mais... os manifestantes CONTRÁRIOS ao governo. Mais uma vez, a matéria infere quem é quem, mas desta vez, ela parece não fazer uso do seu critério comum. Os mascarados, ora vítimas, agora são vilões; ora elo fraco, agora são elo forte; ora contrários ao governo, agora são partidários. Parece piada - mas não é.

Mas não acabou por aí. Vejamos a próxima foto:
3 de abril - policial à paisana é socorrido por colegas depois de ser atingido por fogos de artifício lançados por estudantes da Universidade Central da Venezuela
Novamente, a legenda não deixa margem para tergiversações. Um policial à paisana foi atingido por fogos de artifício. Ora, vejamos os elementos dessa descrição: primeiro, dizer que ele foi atingido por fogos significa dar algum ar de inofensivo aos ataques dos manifestantes (nem vou entrar no mérito se eram de fato estudantes), que só têm isso como arma. Agora, o ponto mais importante: policial à paisana? O que se pretende com isso, senão legitimar a violência emitida contra este cidadão? "Um policial foi atingido, então tudo bem, faz parte do conflito". Mas observemos bem esse sujeito. Podemos primeiro nos perguntar o que um policial à paisana faz numa zona de conflito, afinal todos os policiais ali estão fardados e armados. Porém, olhando com mais cuidado, vemos que não parece um policial, mas sim........ o estudante que foi espancado por "governistas" na foto anterior. Olhem alguns ítens: calça jeans, no mesmo tom azul, camisa branca com um detalhe branco na barra. Está claro. O estudante espancado por grupos governistas agora virou um policial atingido por manifestantes. E a polícia, essa maldita, o que está fazendo? Salvando um opositor do regime, que foi castigado pela violência revolucionária?! Não, a polícia está fazendo seu papel, de proteger um cidadão que foi vítima da fúria adolescente dos mascarados antigovernistas.

Mas não acabou por aí. Antes que reste dúvidas sobre a caracterização e modus operandi dos opositores, vejamos a próxima foto, com sua descrição.
3 de abril manifestantes lançam pedras contra a Polícia Nacional Bolivariana durante enfrentamentos na Universidade Central da Venezuela, em Caracas
Todas as descrições são do próprio Terra, que possivelmente copiou e colou da Reuters (fonte original das fotos). Ou seja, não há muita margem para questionamentos. Observem que, à exceção da primeira foto, todas são no mesmo dia e no mesmo local. Nesta foto acima, novamente vemos os ditos "manifestantes". Mais uma vez, não há nada que indique que são manifestantes contrários ao governo, e não partidários de Maduro que foram acuados e estão apenas se defendendo, inocentemente. É claro que não. As máscaras já deixam claro que se tratam de opositores. A essa altura, já sabemos bem quem é que se serve delas. Mas tudo bem, é direito deles. O problema é quando isso afeta aos outros, como ocorre na próxima foto.

3 de abril - estudante é agredido e despido por partidários do governo de Nicolás Maduro, durante manifestação na Universidade Central da Venezuela, em Caracas
Aqui, uma cena que consegue ser ainda mais cruel do que a violência anterior. Desta vez, a vítima não foi apenas espancada, mas despida, humilhada publicamente. Quem são os agressores? A matéria não hesita: "partidários do governo". Ora, observamos mais uma vez que o estilo dos tais agressores em nada se diferencia dos opositores. Mas a matéria não está preocupada com isso. Ela está preocupada apenas em apontar culpados e vítimas.

O que se pode concluir dessa matéria esquizofrênica do Terra? Se formos seguir a lógica do jornal, poderíamos resumi-la na seguinte sentença: "manifestantes opositores estavam em conflito com a Guarda Nacional, que estava armada com policiais à paisana, e enquanto o pau comia entre eles os governistas estavam preocupados em espancar jovens inocentes por esporte". De que lado está a verdade?